Meditação para a Sexta Sexta-feira depois de Pentecostes. A Reta Intenção

Meditação para a Sexta Sexta-feira depois de Pentecostes

SUMARIO

Meditaremos sobre a terceira condição, que requer a perfeição das nossas ações ordinárias, a saber a reta intenção, com que nos propomos, em tudo o que fazemos, agradar a Deus; e veremos:

1.° A necessidade desta reta intenção;

2.º As suas vantagens.

— Tomaremos a resolução:

1.° De, em todas as coisas firmarmos bem a nossa intenção na vontade de Deus, e de adotarmos essa vontade com amor e alegria;

2.° De rejeitarmos constantemente qualquer outra intenção, que quisesse envolver-se nos nossos atos.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra de São Paulo:

“Tudo quanto quer que fizerdes seja de palavra ou de obra, fazei tudo isso em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, dando por Ele graças a Deus Pai” – Omne quodcumque facitis in verbo aut in opere, omnia in nomini Domini nostri Jesu Christi, gratias agentes Deo et Patri per ipsum (Col 3, 17)

Meditação para o Dia

Adoremos Jesus Cristo fazendo todas as Suas ações pela glória e vontade de Seu Pai. Nunca fez coisa alguma senão neste intuito (1), e era a que tendiam todos os Seus pensamentos, todas as Suas palavras e obras (2). Quão bem merece esta reta intenção os nossos louvores, admiração e respeitos!

PRIMEIRO PONTO

Necessidade da Reta Intenção

É a condição essencial para a bondade das nossas ações. Esta reta intenção é para a ação o que o alicerce é para o edifício, a raiz para a árvore, a alma para o corpo: tirai o alicerce, e o edifício desaba; cortai a raiz, e a árvore seca; sem a alma o corpo não é mais que um cadáver. Sucede o mesmo com as nossas ações. Sem a reta intenção, por mais que façamos, só amontoaremos ruínas; a base, que sustenta o edifício, falta; as nossas obras são como ramos secos, em que já não circula a seiva que os faz viver: são obras mortas; falta-lhes a intenção, que é a sua alma e vida. Deus olha mais para a intenção com que obramos, do que para o exterior e a substância do ato que praticamos (3). Como é o nosso primeiro princípio, é essencialmente o último fim, a que devemos encaminhar tudo. Como tudo provém dEle por Seu amor, tudo Lhe deve ser dirigido pelo nosso. Do contrário terá em conta de nada as nossas melhores obras, ainda que fossem ações heroicas; e se Lhe pedíssemos que no-las recompensasse, nos responderia com razão:

«Não recompenso o que se faz por mim; ide pedir a vossa recompensa àqueles por quem trabalhastes»

Verdade digna das nossas mais sérias meditações! Nós cumprimos na aparência todos os nossos deveres, e até fazemos muitas obras boas; mas se em tudo isto, arrastados pela leviandade e dissipação, obramos sem ter em vista Deus, por hábito, por capricho e inclinação, por interesse, por respeito humano, por ostentação, por uma razão puramente natural, como a necessidade e o decoro, tudo isto nenhum valor terá perante Deus. Todavia causa penosa de pensar, não é de atos assim praticados, que quase toda a minha vida se compõe? Busco-me e acho-me em tudo. Quase nunca me esqueço de forma que só veja a Deus. Ai! As minhas puras intenções são muitas vezes um segredo, que eu mesmo não sei; e se pudesse ver tudo o que encerram de impuro, ficaria confundido e como aniquilado. Ó meu Deus! Que é, pois, a minha vida? Vida estéril, tempo perdido; sou o servo perdido do Evangelho, quando não sou o servo delinquente e prevaricador.

SEGUNDO PONTO

Vantagens da Reta Intenção

1.º A reta e pura intenção leva a fazer bem todas as coisas. Quando dizemos conosco com um vivo sentimento de fé: É para Deus que faço isto, concluímos: Logo, cumpre que o faça com a maior perfeição; de outra sorte não seria digno de Deus. Cuidamos o melhor possível de uma obra destinada aos reis e grandes da terra: com maior razão devemos cuidar do que fazemos para Deus.

2.° A reta intenção facilita a posse do céu. Por ela, as ações mais comuns, o mesmo comer e dormir, são dignos do céu; e para me salvar, só tenho a fazer as minhas ações ordinárias tendo em vista Deus, e desejando agradar-Lhe; nenhuma ação há, por pequena que seja, que dirigida a Deus não tenha o seu mérito para o céu. Se não possuo os mesmos talentos que outros, se não posso fazer as obras insignes que os distinguem, posso ser tão grande perante Deus como os maiores santos e adquirir os mesmos merecimentos; posso com as retas e puras intenções elevar tanto as minhas ações ainda as mais humildes, que tendo uma vida comum, sobrepujarei em mérito até os Apóstolos, se no meu coração Deus vir um desejo mais ardente de Lhe agradar: tão verdade é, que toda a beleza, todo o mérito, toda a grandeza de alma vem de dentro (4). Ó sábia e boa Providência! Quão condenável eu seria se, tendo um meio tão fácil de me enriquecer para o céu, ficasse pobre, destituído de todo o bem espiritual, e reduzido a apresentar-me com as mãos vazias diante de Vós, ó meu Deus!

Entremos aqui em nós mesmos: Não obramos nós por soberba para atrair o aplauso e a estima do mundo, por amor de nós mesmos para satisfazer os nossos sentidos, seguir o nosso gênio? Não obramos com fins puramente naturais, comendo só para viver, gozando só para nos recrearmos? Não obramos muitas vezes sem nenhuma intenção, maquinalmente e por costume?

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Quae placita sunt ei faeio semper (Jo 8, 29)

(2) Non quaero gloriam meam (Jo 8, 50)

(3) Dominus intruetur cor (1Sm 16, 7)

(4) Omnis gloria ejus filiae regis ab intus (Sl 44, 14)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo III, p. 270-274)