Meditação para o Sábado na Oitava do Santíssimo Sacramento. A Eucaristia, modelo dos nossos deveres para com Deus

Meditação para o Sábado na Oitava do Santíssimo Sacramento

SUMARIO

Depois de termos estudado a Eucaristia como uma obra-prima de sabedoria, de poder e de generosidade divinas, a consideraremos como um prodígio de vida perfeita e em particular como o modelo dos nossos deveres para com Deus. Compreendê-lo-emos considerando:

1.° As o ocupações de Jesus Cristo na Eucaristia;

2.° A parte que nos cumpre tomar nesta vida divina.

— As nossas resoluções serão:

1.° De nos unirmos aos obséquios que este divino Salvador presta a Deus seu Pai neste grande sacramento, e de diligenciarmos fazê-los passar para o nosso coração;

2.° De considerarmos em cada letra da palavra latina Ardor a inicial desses obséquios:

A, podendo significar adoração, admiração, amor;

R, reconhecimento;

D, deprecação;

O, oferta;

R, resolução; e de fazermos muitas vezes estes ato.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra que São Paulo nos diz de Jesus Cristo:

“Ofereçamos por Jesus Cristo a Deus sem cessar sacrifício de louvor” – Per ipsum offeramus hostiam laudis semper Deo (Hb 13, 15)

Meditação para o Dia

Adoremos Jesus Cristo no Santíssimo Sacramento como objeto de toda a complacência do Pai celestial. Este, diz Ele, como outrora na margem do Jordão, é o meu Filho amado, em quem me comprazo (Mt 3, 17). Unamo-nos à complacência do Pai em seu Filho, e glorifiquemos por isto este divino Salvador.

PRIMEIRO PONTO

Ocupações de Jesus Cristo na Eucaristia

Jesus, no Seu tabernáculo, não está morto nem ocioso; está ali cheio de vida e em contínua ação. Ocupa-Se em contemplar Deus seu Pai, em Se comprazer nas Suas perfeições infinitas, em louvá-las, exaltá-las, adorá-las, amá-las, confessando que diante de tanta majestade nenhum ser criado é digno de subsistir; e com este intuito, sente prazer em concentrar-Se atê em uma partícula, a fim de glorificar a Deus com este prodigioso abatimento. Cuida ao mesmo tempo dos nossos mais caros interesses, agradece a Deus por nós, roga-Lhe continuamente por nós, pede-Lhe perdão para as nossas culpas, faz-Lhe reparação delas, e oferece-Se em nosso lugar como hóstia de expiação. E quem poderia dizer a extensão destes obséquios? Presta-os em todos os tempos e lugares: em todos os tempos, pois que nunca os interrompe um só momento do dia e da noite; em todos os lugares, pois que multiplica para isso a Sua presença sobre todos os altares do mundo: de sorte, ó admirável espetáculo para o céu! Que a cada instante chegam de todas as partes da terra ao trono de Deus os obséquios deste divino Pontífice, que deliciam o coração do Pai. Quem poderia dizer principalmente o valor destes obséquios? Ele é infinito, quer porque a união hipostática com a divindade, comunica a todos os atos de Jesus um mérito infinito, quer porque este divino Salvador, sendo incomparavelmente mais perfeito, mais instruído sobre as perfeições divinas que todos os anjos e santos juntos, presta, por isto mesmo mais glória a Deus, que todo o céu Lhe pode render. É ali que Deus é mais conhecido, mais louvado, mais honrado, mais amado do que por todas as criaturas juntas, ainda que o seu culto houvesse de prolongar-se por toda a eternidade.

Avaliemos depois disto a excelência das ocupações de Jesus na Eucaristia; alegremo-nos de ver Deus tão magnificamente honrado, e unamo-nos ao culto que Ele presta a este supremo Senhor.

SEGUNDO PONTO

Parte que nos cumpre tomar nas ocupações de Jesus na Eucaristia

Cumpre-nos:

1.° Oferecê-las a Deus.

Senhor, devemos nós dizer-Lhe, só é no sagrado interior do Vosso divino Filho que Sois conhecido, honrado e glorificado como mereceis sê-lo. O meu culto é mesquinho, incapaz de Vos honrar dignamente. Para suprimir a minha insuficiência, ofereço-Vos o que o meu divino Salvador Vos rende: ofereço-Vos a Sua adoração cheia de humildade, os Seus louvores tão dignos de Vós, os Seus profundos abatimentos, as Suas excelentes graças, as Suas onipotentes orações; Vo-las ofereço por mim, por toda a Igreja, por todas as criaturas juntas, e aplaudo de toda a minha alma a glória que esse culto Vos alcança. Não sabendo por mim mesmo falar-Vos dignamente, digo-Vos o que Vos diz no Santíssimo Sacramento o meu divino Jesus, o sumo sacerdote de toda a criatura. É por mim que Ele Vos adora, que Vos louva, que Vos agradece, que Vos pede perdão e misericórdia: digo Amen a todas as efusões do Seu coração; Vo-las ofereço como minhas, em virtude da minha união com Ele e da cedência que me fez dos Seus méritos.

2.° Imitá-las.

Cumpre-nos imitar as ocupações de Jesus no Santíssimo Sacramento. Todas as vezes que estivermos diante do sacrário, ou que no nosso oratório orarmos, afiguremo-nos em que se ocupa Jesus na Eucaristia, entremos nos mesmos sentimentos, façamos os mesmos atos de adoração a Deus, de profundo respeito, de completa submissão à Providência, de reconhecimento, de expiação, de humilhação de todo o nosso ser diante da majestade divina, de desejo das Sua maior glória, de caridade para como próximo, principalmente para com aqueles que nos tem ofendido, de compaixão pelos pecadores; roguemos pela sua conversão e pela nossa, e procuremos aproximar-nos o mais possível da maneira com que Jesus faz todas estas santas coisas.

É este o modo mais perfeito de honrar a Deus, assim como o meio mais seguro de obter graças. Empregamos nós este meio? Quando estamos diante do Santíssimo Sacramento, oferecemos nós por Ele, nEle e como Ele o nosso culto à beatíssima Trindade? Por não nos entregarmos a estas santas ocupações, que tempo perdido diante do Santíssimo Sacramento! Que visitas infrutuosas!

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo III, p. 161-164)