Meditação para a Sexta-feira do Corpo de Deus. A Eucaristia, mistério de Sabedoria, Poder e Generosidade

Meditação para a Sexta-feira do Corpo de Deus

SUMARIO

Consideraremos a Eucaristia, esse dom tão excelente em si mesmo, e na sua perpetuidade, como a obra prima da sabedoria, do poder, e da generosidade de Deus, segundo a bela palavra de Santo Agostinho:

“Deus, sendo sapientíssimo, não soube dar mais; sendo poderosíssimo, não pôde dar mais; sendo riquíssimo não teve mais que dar senão a Eucaristia” – Cum sit sapientissimus, plus dare nescivit; cum sit potentissimus, plus dare non potuit; cum sit dissimus, plus dare non habuit

— Tomaremos a resolução:

1.° De agradecermos muitas vezes a Nosso Senhor com aspirações de amor esta magnífica instituição;

2.° De Lhe fazermos no dia uma fervorosa visita de ação de graças.

As palavras de Santo Agostinho nos servirão de ramalhete espiritual.

Meditação para o Dia

Transportemo-nos pelo pensamento para diante dos santos tabernáculos, adoremos ali Jesus Cristo, juntos com os anjos, que Lhe formam, de dia e de noite, uma guarda invisível em redor do santuário. Recolhamo-nos dentro em nós, louvemos como eles o Deus do céu, que está presente no meio de nós.

PRIMEIRO PONTO

A Eucaristia obra-prima da Sabedoria Divina:
Cum sit sapientissimus, plus dare nescivit

A suprema sabedoria consiste em termos em vista os melhores fins e em consegui-los pelos melhores meios. Ora é exatamente o que achamos na Eucaristia.

1.° Jesus cristo queria voltar para seu Pai, mas sem nos deixar: estes doIs desígnios pareciam incompatíveis; a sabedoria divina cumpriu-os admiravelmente pela Eucaristia.

2.° Era desígnio do Pai, que a Igreja vivesse na fé de seu Filho permanecendo entre os homens; mas ainda aqui aparecia uma incompatibilidade: como conciliar a presença do objeto com o mérito da fé? Verdade é que, antes da morte do Salvador, se podia vê-lo e crer nEle, porque o seu corpo passível e sujeito à dor encobria a divindade, em que se cria; mas depois da Sua ressurreição, os esplendores do Seu corpo glorioso teriam destruído o mérito da fé. Que fez a sabedoria eterna? Ocultou os seus esplendores sob os véus eucarísticos, e ocultando-os, deixou um duplicado mérito à nossa fé, o mérito de crer o que se não vê, e o mérito de não crer o que se vê, pois que já não é pão nem vinho o que nos aparece; de onde resulta para a nossa fé um exercício contínuo tão honroso para Jesus Cristo como meritório para nós.

3.° Se o Salvador tivesse ficado no brilho da Sua glória, a nossa vista não teria podido suportá-la, e não teríamos ousado aproximar-nos dEle. Que fez a Sua sabedoria? Por uma misericordiosa condescendência, temperou esse brilho, encobrindo-o com os véus eucarísticos.

4.° Ele queria ensinar-nos com o Seu exemplo a simplicidade e a modéstia dos vestidos, que cobrem o nosso corpo: podia consegui-lo melhor do que escondendo o Seu como Ele fez?

5.° O Seu plano era ensinar-nos pela Eucaristia a humildade, a vida retirada, a abnegação, a caridade que se sacrifica; e para isto, concentra-se até numa partícula.

6.º Queria induzir-nos. a recebê-lO frequentemente, todos os dias na comunhão; e para isto, deixa a Sua primeira forma de carne e de sangue, porque temos uma natural repugnância em comer carne humana e em beber sangue humano; substitui-lhe as aparências do pão e do vinho de que toda a gente gosta e nelas se encerra todo inteiro, até na mais pequena hóstia, ocultando tão grandes e divinas coisas debaixo de tão mesquinhas aparências, a fim de se dar até aos enfermos, que não pudessem recebê-lO sob uma forma maior.

Pode haver fins mais excelentes e meios melhores? Sem dúvida teria podido encobrir-Se debaixo de outras aparências; mas preferiu a aparência do pão para nos fazer compreender, que é o pão de Deus descido do céu, que dá vida ao mundo (Jo 6, 33); que Ele alimenta e sacia divinamente os que O comem como convém; que todos os cristãos juntos devem formar um mesmo corpo e como que um mesmo pão pelo vínculo da caridade. A espécie do pão junta a espécie do vinho, para nos dar a entender, por um lado, que a Eucaristia é uma completa refeição, onde, ao pão dos escolhidos, que é o Seu corpo, se junta o vinho, que forma as virgens; por outro lado, que a vida é o sacrifício do Calvário continuado, onde a separação do Seu sangue do Seu corpo é representada pela espécie do vinho separada da do pão; que finalmente a Eucaristia produz nas almas, que a recebem dignamente, um fervor e uma força, uma alegria e uma embriaguez todas divinas, ó Sabedoria infinita! Reconheço-Vos e adoro-Vos sob os véus que Vos cobrem e repito-Vos com júbilo a palavra do Vosso servo Agostinho:

Sendo sapientíssimo, não soubestes dar-nos mais

SEGUNDO PONTO

A Eucaristia obra-prima do Poder Divino:
Cum sit potentissimus, plus dare non potuit

Com efeito aqui, Jesus Cristo acumula os milagres até ao infinito: milagre da mudança do pão na substância do Seu sagrado corpo, e da mudança do vinho na substância do Seu precioso sangue; milagre da Sua presença em corpo, alma e divindade nos nossos altares, sem que deixe de estar presente no céu; milagre da multiplicação desta presença em tantos lugares quantas hóstias consagradas há na terra; milagre da Sua presença em cada hóstia, até em cada parte de cada hóstia, à maneira dos espíritos, que não ocupam espaço; milagre das aparências do pão e do vinho conservados sem nenhuma substância que as sustentem, de brancura sem nenhum corpo branco, do gosto sem nenhum corpo que tenha sabor; milagre da produção de todos estes admiráveis efeitos por quatro ou cinco palavras, que o sacerdote pronuncia no altar, ó milagre de um poder incompreensível, ao qual nada é comparável senão a ingratidão do homem que corresponde tão mal a tanta bondade, e a paciência de Deus que o sofre!

Em verdade, meu Deus, é justamente o caso de Vos repetir ainda a palavra de Santo Agostinho: Sendo poderosíssimo, não podíeis dar mais; é compreendo porque é que, antes de referir a última ceia, em que instituístes a Eucaristia, São João lembra que Deus Pai depositou nas Vossas mãos todas as coisas (1).

TERCEIRO PONTO

A Eucaristia obra-prima da Generosidade Divina:
Cum sit dissimus, plus dare non habuit

A generosidade reconhece-se nos sacrifícios, que se fazem pela pessoa amada, principalmente quando nada se lhe deve e nada se espera dela. Ora que faz por nós Jesus na Eucaristia? Não nos dá somente as Suas graças; dá-Se Ele mesmo, para estar sempre conosco, para nos unir a Ele, e nos transformar nEle; dá-Se e por que preço? Derribando todas as leis da natureza pelos milagres mais pasmosos, tornando-Se pequeno por amor de nós, sujeitando-Se a sofrer as irreverências, os ultrajes, os sacrilégios e as profanações, a que está exposto desde o dia da ceia. E que nos devia Ele para Se dar assim todo inteiro? Nada. Que esperava de nós? Menos que nada. Ele sabia, que só recebia as mais das vezes do homem a indiferença, a frieza, o abandono, algumas vezes até os mais cruéis ultrajes. Ó generosidade divina! Vós fizestes a Vossa obra-prima. Sendo riquíssimo, não tivestes mais que dar-nos; e todavia amo-Vos tão pouco; honro-Vos tão mal, sou tão tíbio, tão frio para conVosco! Ah! Na verdade eu envergonho-me de mim mesmo e clamo-Vos: Misericórdia! Perdão! Quero pôr-me de todo o coração a amar-Vos!

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Setens quia omnia debit et Pater in manus (Jo 13, 3)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo III, p. 156-161)