Capítulo VI

Per viscera misericordiae Dei nostri in quibus visitavit nos oriens ex alto – “Pelas entranhas de misericórdia do nosso Deus: com que lá do alto nos visitou este sol no Oriente” (Lc 1, 78)

Se o filho de Deus desceu do céu à terra para remir-nos, nem a necessidade, nem o próprio interesse o impeliu, que sua glória e felicidade são de todo independentes, não do homem somente, mas ainda de todas as criaturas. “Ele é o Senhor“, diz o Salmista, “e não precisa dos nossos bens“.

Quem o forçou a vir foram as entranhas da sua misericórdia, foi a compaixão das nossas misérias, foi o desejo de nos querer provar seu amor, trazendo um remédio eficaz para todos os males. E é isto o que canta a Santa Igreja, ao oferecer o Santo Sacrifício, dizendo:

“Jesus Cristo desceu do céu por nós outros e por nossa salvação”

Não diz que desceu que se incarnou, que sofreu, que foi sepultado, por seu próprio interesse; não, por nossa salvação. Que bondade e misericórdia, a do nosso Deus! Que! Senhor meu, pois por terdes compaixão do homem perdido, era necessário que viésseis à terra vós mesmo? Então para resgatar-nos já não bastava enviardes um anjo? Não, não, responde o Verbo Eterno; quero ir eu mesmo para que o homem fique sabendo até onde vai o meu amor para com ele.

Santo Agostinho nos ensina que uma das principais razões que levaram Jesus Cristo a descer á terra, para vos fazerdes amar, que homens são os que verdadeiramente vos amam? Ai! Pobre e infeliz de mim! Que motivos não tenho eu, eu particularmente, para corar de vergonha e confusão! Porquanto vós, meu deus, bem sabeis quão pouco vos hei amado, bem conheceis o desprezo que fiz do vosso amor! Ah! Que eu não possa morrer de dor! Querido Redentor meu, arrependo-me de tanto vos ter desprezado, e por minha penitência quero tudo reparar. Que pesar é o meu, ó luz tão doce e majestosa, que pesar sinto de tão tarde vos conhecer! As minhas paixões me haviam posto diante dos olhos uma como espessa nuvem que me impedia o ver a luz da vossa justiça e verdade. Estava cego e amava a minha cegueira, porque me dava licença de seguir as minhas paixões.

E quem é que me curou da minha cegueira? Quem dissipou esta nuvem? Quem me estendeu a mão para me tirar do atoleiro, em que estava profundado? Eu não chamava por este libertador, e ele veio procurar-me, não o implorava, e ele veio socorrer-me. Quem pois é esse libertador tão bom e misericordioso? Ah! Meu Jesus! Doce Jesus meu! Sois vós! Descestes do céu à terra para arrancar-me das minhas desordens, e acolher-me em o número dos vossos filhos. E por um tal benefício que hei de eu retribuir-vos?

Do caminho dos vossos mandamentos me desgarrara, fugira para longe de vós, e vós tivestes a bondade de ir atrás de mim, de me embargar a fugida, e arrancar-me do meu desvario. Ó meu Jesus! Que retribuirei eu, repito, por um amor tão terno? Ah! Amar-vos-ei de todo o meu coração, de todas as minhas forças, mais do que todas as criaturas, mais do que a mim mesmo. Ajudai a minha fraqueza.

Se Jesus Cristo nos amou tanto, que veio à terra resgatar-nos e arrancar-nos do lodo das nossas iniquidades, como não nos consagramos inteiramente ao seu serviço? Porque em face de um tão ardente amor nosso coração não se derrete, como uma cera? Será possível não queiramos sofrer mil martírios por quem tanto quis sofrer por nós? Não, não, assim não será; também havemos de saber amar a um Deus que por sua morte nos deu a vida, que das trevas nos fez passar à luz, do exílio à pátria, das lágrimas à alegria, e de misérias sem fim a uma glória eterna.

Ó Jesus meu! Vós que por meu amor não vos poupastes a vós mesmo, feri, eu vos suplico, feri do vosso amor a este coração, por modo que ao vosso ele possa amar. Toda a minha consolação seja convosco estar crucificado, seja toda a minha ventura em vós pensar noite e dia. Ó Jesus, a quem de presente de todo o coração quero amar, mas a quem caí na desgraça de tanto ofender; ó Jesus, perdoai-me, e concedei-me a graça de verdadeiramente vos amar. Não permitais que por mais tempo desconheça o tão extremoso amor que me testemunhastes. Na doce confiança de que vos amo estou eu, mas ainda é tão pouco, e vós mereceis um amor infinito: fazei que eu ao menos vos ame de todas as minhas forças.

Ó Salvador meu, ó minha alegria, minha vida, meu tudo, se a vós, que sois infinito amor, eu não amo, a que amarei? Submeto a minha vontade à vossa vontade, e em reconhecimento dos tormentos que por mim sofrestes ofereço-me a sofrer por vós tudo quanto vos aprouver. Afastai de mim todas as ocasiões de ofender-vos, não me deixeis cair em tentação, mas livrai-me do mal. Livrai-me do pecado e depois disponde de mim como for vosso agrado. Amo-vos, ó bondade infinita! E antes venham sobre mim todos os males, antes volte ao mesmo nada, do que viver sem vos amar! Oh! Quem me dera poder apagar com a minha vida os dias infelizes que passei a ofender-vos tão indignamente! Ó meu Jesus, dai-me a graça de por uma sincera penitência expiar tantos pecados que contra vós cometi. Assim seja.

RESOLUÇÕES PRÁTICAS

O Recolhimento

Faze todos os esforços por este dia o passares todo em recolhimento, nada poupes para adquirir hábito tão santo. Sem recolhimento impossível é progredir na virtude, orar com fervor, velar sobre si mesmo, descobrir as suas faltas. O recolhimento adquire-se e conserva-se pela oração e mortificação de que adiante falaremos. Meios eficazes são também para o alcançar o silêncio e repetidos impulsos do coração para Deus.

1º Pelo Silêncio

Põe um freio à tua língua e fala pouco e com descrição: “Se algum pois cuida que tem religião, não refreando a sua língua, mas seduzindo o seu coração, a sua religião é vã“, diz São Tiago. Fala pouco, porque, segundo a Escritura, o muito falar é distintivo do insensato! Stultos verbo multiplicat. Fala pouco porque a intemperança da língua nem só ao recolhimento é obstáculo; ela é ainda a origem de muitos pecados; sem medo pode asseverar-se muito bem que um grande palrador comete um grande número de faltas que um homem prudente evitará. Fala pouco porque por um pecado que se cometa calando quando deveríamos falar, cem se cometem falando em todas ocasiões. Fala pouco, porque se em uma alma o silêncio conserva o precioso tesouro do espírito de Deus, a abundância de palavras o dissipa, o extingue. “Um homem que não reprime a sua língua“, diz o Espírito Santo, “assemelha-se a uma cidade por todos os lados patente; está exposta aos insultos dos seus inimigos e é impotente para se defender“. Fala então pouco se queres estar recolhido.

2º Pelas elevações do coração a Deus

Toma o santo hábito de a todo instante do dia e da noite, quando acordares, recitar o que se chama orações jaculatórias, que para te conservar no recolhimento não há coisa melhor. Eis aqui algumas:

Meu Deus, amo-vos de todo o meu coração

Meu Deus, por vosso amor recebo esta afronta, esta humilhação, esta doença

Senhor, quando vos amarei como mereceis?

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(Pinnard, Abade Dom. As Chamas do Amor de Jesus ou provas do ardente amor que Jesus nos tem testemunhado na obra da nossa redenção. Traduzido pelo Rev. Padre Silva, 1923, p. 42-46)