Capítulo 24: "Tudo está consumado"

Explica-se literalmente a sexta palavra

A sexta palavra que Cristo proferiu na Cruz, é referida por São João como quase junta com a quinta. Logo que o Senhor disse: Tenho sede e bebeu do vinagre que Lhe ofereceram, acrescenta São João:

“Jesus, porém tendo tomado o vinagre, disse: Tudo está consumado” (Jo 19)

E sem dúvida aquele — tudo está consumado — à letra não quer dizer mais nada senão a obra da redenção está concluída, rematada; pois dois serviços tinha o Pai imposto ao Filho: pregar o Evangelho, e sofrer pelo gênero humano. Da primeira disse o Senhor em São João:

“Eu acabei a obra que tu me encarregaste que fizesse, manifestei o teu nome aos homens” (Jo 17)

Isto disse o Senhor depois do último e extensíssimo sermão que pregou aos Seus discípulos depois da ceia, por isso mesmo concluiu a primeira obra, de que seu Pai o encarregara. O outro serviço era beber o cálice da Paixão, e a respeito deste, diz o Senhor:

“Podeis vós beber o cálice que eu hei de beber?” (Mt 20)

E em outra parte:

“Meu Pai, se é da tua vontade transfere de mim este cálice” (Lc 22)

E em outra parte:

“Não queres que eu beba o cálice que meu Pai me deu?” (Jo 18)

Deste cálice pois diz o Senhor, próximo à morte. Tudo está consumado; pois esgotei até às fezes o cálice, nada mais resta senão deixar esta vida e, abaixando a cabeça, rendeu o espírito.

Porém, porque nem o mesmo Senhor nem São João explicaram, para não serem difusos, que era o que estava terminado, temos nós ocasião de o aplicarmos racional e frutuosamente a muitos mistérios. Primeiramente Santo Agostinho, no seu comentário a esta passagem diz, que o Está tudo concluído se refere ao cumprimento das profecias, que rezavam de Cristo.

“Sabendo, pois, que tudo estava cumprido, para se cumprir uma palavra que ainda restava da Escritura, disse — Tenho sede — diz o Evangelista

E pouco depois:

“Havendo tomado o vinagre, disse — Tudo está consumado”

Isto é, completou-se o que estava para completar, do que entendemos que Ele mesmo quis dizer que estava terminado e, completado tudo o que os profetas teriam predito da Sua vida e morte. Tudo tinha sido predito, é verdade:

A Sua conceição: A Virgem conceberá (Is 7)

O seu nascimento em Belém: E tu, Belém, terra da Judeia, etc., de ti sairá o chefe, que há de governar o meu povo de Israel (Mq 2)

O aparecimento de uma nova estrela: Nascerá uma estrela de Jacó (Nm 23)

A adoração dos Reis: Os Reis do mar e as ilhas ofertarão dádivas (Sl 71)

A pregação do Evangelho: O espírito do Senhor, que está sobre mim, me enviou a evangelizar aos pobres (Is 61)

Os milagres: Vira o próprio Deus, e salvar-nos-á, hão de então abrir-se os olhos dos cegos e ouvidos dos surdos, saltará então o coxo, como um veado, e desembaraçar-se-á, a língua dos mudos (Is 35)

O montar sobre uma jumenta e o jumento, filho dela: virá sem dúvida o teu Rei justo, e o teu Salvador; virá pobremente, e montado sobre uma jumenta e um jumentinho filho dela (Zc 9)

Finalmente toda a Paixão foi por partes descritas por Davi nos Salmos, e por Isaías, Jeremias, Zacarias, (Sl 21 e 68; Is 53; Jer 11; Zc 12) e outros; e é esta a causa porque o Senhor, quando estava para ir para ela, dizia:

“Eis aqui vamos para Jerusalém, e tudo quanto está escrito pelos profetas a respeito do Filho do Homem será cumprida” (Lc 18)

Daquilo, pois, que restava, para ser tudo cumprido, diz agora: Tudo está consumado; tudo o que se devia terminar e concluir, para se mostrar, que os Profetas tinham dito a verdade.

Além disto, o Tudo está consumado significa, segundo São João Crisóstomo, que com a morte de Cristo acabou o poder; que contra Ele foi dado aos homens e aos demônios; do qual poder o mesmo Cristo disse aos príncipes dos sacerdotes, aos magistrados do templo, e aos anciões:

“Esta é a vossa hora, e o poder das trevas”

Por isso esta hora e todo este tempo, em que, por permissão de Deus, os ímpios tiveram poder sobre Cristo, terminou, quando o Senhor disse: Tudo está consumado, pois terminou então a peregrinação do Filho, de Deus entre os homens, a qual foi profetizada por Baruc nas seguintes palavras:

“Este é o nosso Deus, e não haverá outro que se lhe oponha. Este descobriu todos os caminhos da sabedoria, e os ensinou a Jacó, seu servo, e a Israel, seu escolhido, depois do que foi visto no mundo, e habitou com os homens” (Br 23)

Juntamente com a peregrinação terminou também o estado da vida mortal, durante o qual precisava comer, de beber, de dormir, e estava sujeito ao cansaço, às injurias, à flagelação, aos ferimentos, e à morte. Assim, quando o Senhor disse na Cruz: Tudo está consumado, e, abaixando a cabeça, rendeu o espírito, concluiu-se a Sua jornada, da qual Ele tinha dito:

“Saí de meu Pai, e vim ao mundo, de onde volto para meu Pai” (Jo 16)

Terminou- se a trabalhosa peregrinação, a cujo respeito Jeremias tinha dito:

“Quem anima Israel na sua tribulação, é a esperança do seu Salvador, porque hás de tu ser como um colono na Terra, e como um que se encosta, para aí ficar?” (Jer 16)

Terminou-se a condição mortal da Sua humanidade, e terminou-se o poder de todos os inimigos sobre Ele. Concluiu-se em terceiro lugar o sacrifício dos sacrifícios, e ao qual se encaminhavam como ao verdadeiro e real sacrifício, todos os sacrifícios da antiga lei, que dEle eram figuras e sombras; assim diz São Leão:

«Atraíste tudo a Ti, Senhor, pois, rasgando o véu do templo, o Sancto Sanctorum abandonou os indignos pontífices, para que a figura se converta em verdade, as profecias em realização, e a Lei em Evangelho» (1)

E pouco abaixo:

«Agora também tendo acabado a variedade dos sacrifícios carnais, uma só oblação do Teu corpo e do Teu sangue contém em si todas as diferentes vítimas»

Pois neste sacrifício o Sacerdote é o Homem-Deus; o altar a Cruz; a vítima o Cordeiro de Deus, o fogo do holocausto a caridade, o fruto do sacrifício a redenção do Mundo.

O Sacerdote, torno a dizer, foi o Homem-Deus, superior ao qual nenhum outro pôde imaginar-se:

“Tu és um eterno Sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque” (Sl 109)

E na verdade segundo a ordem de Melquisedeque, porque ele não tem na Escritura nem pai, nem mãe, nem genealogia, e Cristo no Mundo não tem pai, no Céu não tem mãe, nem tem genealogia, pois quem poderá historiá-la? Ainda não brilhava no firmamento a estrela de d’alva, e já Ele tinha sido gerado, e a Sua existência data da Eternidade (Is 53; Sl 109; Mq 5).

O altar foi a Cruz, que quanto mais desonrosa era, antes de nela ser crucificado Cristo, tanto mais ilustre e enobrecida ficou depois, e no último dia aparecerá no Céu mais brilhante que o sol, pois dela entende a Igreja a passagem do Evangelho:

“Então aparecerá no Céu o sinal do Filho do Homem, e dela cantam: Este sinal estará no Céu, quando o Senhor vier a julgar o mundo” (Mt 24)

E o confirma São João Crisóstomo (2), observando também que quando o Sol se obscurecer e a Lua não alumiar, aparecerá no Céu a Cruz mais fulgurante que o Sol.

O sacrifício foi o Cordeiro de Deus, absolutamente puro e imaculado, de quem disseram Isaías:

“Será levado ao patíbulo manso como uma ovelha; e, como um Cordeiro em presença de quem o tosquia se fará mudo, e não abrirá a sua boca” (Is 53)

O Precursor do Senhor:

“Eis o Cordeiro de Deus; eis o que tira os pecados do mundo” (Jo 1)

E o Apóstolo São Pedro:

“Não foram reunidos por ouro, ou prata, objetos deterioráveis; mas pelo precioso sangue de Cristo, Cordeiro puro e sem mancha” (1Pd 1)

Também no Apocalipse, Cristo é chamado Cordeiro sacrificado desde o começo do mundo (Ap 13), porque o seu preço, previsto por Deus, aproveitava também aos que tinham existido antes de Cristo.

O fogo que queimou o holocausto, e que completa o sacrifício, é a caridade imensa, que, como uma fornalha muito acesa, ardia no coração do Filho de Deus, e que os grandes aguaceiros dos Seus tormentos não poderão apagar.

Finalmente o fruto do sacrifício foi à expiação de todos os filhos de Adão (Ct 8) ou a reconciliação de todo o mundo. Assim o diz São João na sua primeira Epístola:

“Ele é a propiciação pelos nossos pecados, somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo” (1Jo 2)

O mesmo dizem as palavras de São João Batista:

“Eis o Cordeiro de Deus: eis o que tira os pecados do mundo” (Jo 1)

Resta uma só questão, como pôde o mesmo Cristo ser Sacerdote e vítima: a obrigação do Sacerdote é sacrificar a vítima; e Cristo não se sacrificou, nem podia sacrificar-Se, porque o fazendo, cometia um sacrilégio, e não oferecia um sacrifício, porém Cristo não se matou, e apesar disto ofereceu realmente um sacrifício, porque de Sua livre e espontânea vontade Se ofereceu a ser sacrificado para a glória de Deus, e expiação do pecado; pois nem os soldados nem os beleguins poderiam prendê-lO, ou segurá-lO, nem os cravos transpassar-Lhe as mãos e os pés, nem a morte por-Lhe termo à vida, mesmo ainda que Ele estivesse crucificado, se Ele assim o não quisesse. Por isto com toda a verdade disse Isaías:

“Foi sacrificado, porque assim o quis” (Is 53)

E diz o mesmo Senhor:

” Eu ponho a minha vida, ninguém a tira de mim; mas eu de mim mesmo a ponho” (Jo 10)

E tão claramente, que mais não pode ser, o diz o Apóstolo São Paulo:

“Cristo amou-nos; e a Si mesmo se entregou por nós, oblação a hóstia a Deus em perfume de santidade” (Ef 3)

Assim, por modo admirável, o mal, ou pecado, ou crime, que houve na Paixão de Cristo, é todo dos Judeus, de Judas, de Pilatos, e dos soldados; e estes não ofereceram sacrifício, mas cometeram um sacrilégio; não mereceram ser chamados Sacerdotes, mas sacrílegos, o que na mesma Paixão houve de bom, de religioso e de pio, isso é tudo de Cristo, que pela Sua exuberantíssima caridade Se ofereceu como vítima a Deus, não se matando, porém sofrendo pacientíssimamente a morte, e morte de Cruz, para aplacar a ira de Deus, para reconciliar com Deus o mundo, para satisfazer a justiça divina, e para não perecer o gênero humano, o que em muito poucas palavras exprimiu São Leão (3), dizendo:

«Consentiu, que contra Si empregassem suas ímpias mãos os furiosos, que cometendo um crime, de que só eles são responsáveis, prestaram serviços ao Redentor»

Em quarto lugar, na morte de Cristo decidiu-se a grande batalha entre Ele e o Príncipe deste Mundo, da qual fala o mesmo Senhor em São João, dizendo:

“Agora é o juízo do mundo, agora será lançado fora o príncipe deste mundo, e eu, quando for levantado da terra, todas as coisas atribuirei a mim mesmo” (Jo 12)

Esta batalha foi judicial, não militar, foi como demandas dos litigantes, não como combates dos soldados; pois litigava o Diabo com o Filho de Deus a respeito da posse do Mundo, isto é, do gênero humano. Aquele se tinha desde longo tempo intrujado naquela posse, porque vencera o primeiro homem, e o fez seu escravo com toda a sua descendência, e por isso São Paulo (Ef 6) chama aos demônios Príncipes e Potestades e Governadores destas trevas do mundo; e o mesmo Cristo, como ainda há pouco dissemos, chama ao Diabo Príncipe deste Mundo, e não queria o Diabo ser só Príncipe; queria também ser Deus, e daqui vem dizer Davi no Salmo 95:

“Os deuses dos gentios são os demônios, porém o Senhor fez os Céus”

Pois adoravam os gentios o Diabo em figuras, que o representavam, e lhe faziam sacrifícios de carneiros e novilhos (Hb 1). De outra parte o Filho de Deus, como único e universal herdeiro; reclamava o principado do Mundo. Esta contenda terminou na Cruz, e a sentença deu-se a favor de Nosso Senhor Jesus Cristo, porque na Cruz satisfez pleníssimamente à justiça divina pela culpa do primeiro homem e de todos os seus descendentes; pois foi prestada pelo Filho ao Pai a obediência em maior grau ainda, do que tinha sido a desobediência do servo ao Senhor; maior foi à humildade do Filho de Deus, até por ela morrer em honra de seu Pai, do que foi a soberba, com que o servo se atreveu a injuriar Deus. Por isso Deus, reconciliado, em obséquio a seu Filho, com o gênero humano livrou-o do poder do Diabo, e transferiu-o para o Reino de seu Filho, muito amado (Col 1).

Há também outro motivo, abduzido por São Leão (4), e que nós apresentamos pelas suas mesmas palavras:

«Se o cruel e soberbo inimigo tivesse podido aventar o plano da misericórdia de Deus, antes trataria de converter em brandura a animosidade dos Judeus, do que de irritá-los com um ódio injusto, para não perder todos os seus escravos, perseguindo a liberdade de quem nada lhe devia»

Excelente razão na verdade; justo foi, pois, que o Diabo perdesse o seu império sobre todos aqueles que pelo pecado tinha feito seus escravos, pois teve o atrevimento de levantar as suas mãos contra Cristo, e de persegui-lO até á morte, não sendo Ele seu servo e não tendo nunca o Diabo podido obrigá-lO a penar.

Mas, sendo isto assim, se a contenda terminou, se o Filho de Deus ficou vitorioso, e, se Ele quer que todos os homens se salvem (1Tm 2), como é que são ainda tantos os escravos do Diabo nesta vida, e na outra são arrastados para os tormentos do inferno? Respondo em muito poucas palavras — porque assim o querem: — pois Cristo, voltando vitorioso do combate, fez ao gênero humano dois grandes benefícios: um abrir aos justos as portas do Paraíso, às quais desde a queda do primeiro homem tinham sido fechadas até então, e no mesmo dia da Sua vitória disse: Hoje serás comigo no Paraíso, ao ladrão, que em virtude do sangue do mesmo Cristo tinha sido justificado pela fé, esperança e caridade; pelo que a Igreja canta cheia de júbilo:

«Tu, aniquilado o aguilhão da morte, abriste aos crentes os Reinos dos Céus»

Outro foi instituir os Sacramentos, que tivessem poder de transmitir os pecados e conferir a graça; e enviar a toda a parte do mundo, quem em alta voz pregasse:

“A quem crer, e for batizado, será salvo” (Mc 16)

Assim o Senhor, vencendo a batalha, abriu a todos o caminho para a glória de filhos de Deus; e se muitos não querem caminhar por Ele, perdem-se por sua culpa, e não porque o Redentor não pudesse abrir-lhes o caminho, ou fosse negligente em abri-lo.

Em quinto lugar finalmente o Tudo está consumado pode muito bem entender-se da conclusão do edifício da Igreja, pois ensinam, que ela começada no batismo de Cristo, foi concluída na sua Paixão, os Santos Padres, Epifânio no livro 3.° contra os hereges (5) e Santo Agostinho no livro da cidade de Deus (6); os quais dizem que Eva, edificada de uma costela de Adão, enquanto ele dormia, fôra o tipo da Igreja, que foi formada do lado de Cristo, enquanto Ele dormia o seu sono depois da Sua morte; e notam eles que não sem mistério a Escritura diz que Eva foi edificada, e não formada. Que o edifício da Igreja começou do batismo de Cristo prova-o Santo Agostinho (7) do Salmo 71:

“Dominará de mar a mar, e do rio até os confins da terra”

O reino de Cristo, que é a Igreja, começou do batismo de Cristo, no qual Ele, sendo batizado por São João, consagrou as águas e instituiu o batismo, que é a porta da Igreja, e foi manifestamente proclamado por voz de seu Pai, baixada do Céu:

“Este é o meu amado Filho, no qual tenho posto toda a complacência: dai atenção ao que ele disser” (Mt 3)

E desde então começou a pregar e reunir discípulos, que foram os primeiros que entraram na Igreja. Posto que, porém o lado de Cristo fosse aberto depois da Sua morte, e então corresse sangue e água, que significam os dois principais Sacramentos da Igreja, o Batismo e a Eucaristia; contudo da Paixão de Cristo recebem todos os Sacramentos a sua virtude; e o sangue e água, que assim correu, foi declaração dos mistérios e não instituição. Muito bem, pois se diz que o edifício da Igreja ficou concluído quando Cristo disse: Tudo está consumado; pois então nada mais restava senão a morte, que imediatamente se seguiu e pôs o remate ao preço da redenção.


Referências:

(1) Serm. 8 de passione Domini
(2) Hom. 77 in cap. 24, Mat.
(3) Serm. 10 de Pass.
(4) Serm. 10 de Pass.
(5) Haeres. 78
(6) Cap. 17
(7) Liv. 27 de Civit. cap. 8

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(BELARMINO, Cardeal São Roberto. As Sete Palavras de Cristo na Cruz. Antiga Livraria Chadron, Porto, 1886, p. 205-220)