2º Domingo da Quaresma - Sermão da Pregação Evangélica

Sermão para o 2º Domingo da Quaresma

Pregado em Paris, na capela das Carmelitas do faubourg Saint-Jaques, no dia 13 de março, de 1661 (1).

SUMÁRIO ESCRITO POR BOSSUET

Exordio. — O altar e o púlpito. Aliança.

1.º Ponto. — Disposição do Pregador. Et si habes brachium sicut Deus, et si voce simili tonas… Non exigitur donatur. – São Pedro Crisólogo.

2.º Ponto. — Atenção: sua espécie; onde deve existir; no coração e não no espírito.

3.º Ponto. — Doutrina como na comédia. Movimentos artificiais, enganadores e de pouca duração. Espécies de ensinamentos divinos. Justificação pelas obras. Modéstia perante o sermão.

Hic est Filius meus dilectus in quo mihi bene, complacui; ipsum audite 
Este é o meu amado filho, em quem me comprazo; escutai-o (Mt 17)

Uma coisa, porém, noto eu, cristãos: é que ao mesmo tempo que se ouve a voz do Pai Eterno, ordenando-nos que escutemos seu Filho, Moisés e Elias desaparecem, e Jesus fica só. Et dum fieret vox, inventas est Jesus solus (Lc 9, 36). Porque é que Moisés e Elias se retiram ao ouvirem tais palavras? Aqui é que está o segredo, cristãos, que o Apóstolo passa contudo a desvendar. Diz Ele: Noutro tempo falava Deus diversamente pela boca dos seus profetas (escutai isto e notai muito: falavam os profetas noutro tempo) agora, porém, nestes últimos tempos, fala-nos Deus pela boca do seu próprio Filho. E aqui está porque ao mesmo tempo que Jesus Cristo aparece na qualidade de mestre, Moisés e Elias se retiram. A lei, com ser imperiosa, compraz-se em obedecer-Lhe; os profetas, com serem clarividentes, vão contudo esconder-se na nuvem: Intrantibus illis in nubem, nubes obumbravit eos; como se assim dissessem tacitamente ao Salvador! Antigamente falamos nós em nome e por ordem de vosso Pai; agora que abris a boca para explicar os segredos do céu, temos dada por finda a nossa missão, porque, confundindo-se a nossa autoridade com a autoridade suprema, e não passando nós duns servos humildes, é também humildemente que cedemos a palavra ao Filho de Deus.

Ora é essa palavra do filho de Deus, cristãos, que de toda a parte se repercute nas tribunas evangélicas; não já na tribuna de Moisés, onde não estamos, mas na tribuna de Jesus Cristo, donde fazemos ecoar a Sua voz e donde pregamos o seu Evangelho. Vinde aprender a escutar a nossa palavra, ou antes a palavra do Filho de Deus, por meio das preces daquela que o concebeu, em primeiro lugar pela audição, como diz Santo Agostinho, e que, pela obediência que prestou à palavra eterna, se tornou digna de O conceber nas suas benditas entranhas. Ave-Maria. (2)

O templo de Deus, irmãos, tem dois lugares augustos e veneráveis, que são o altar e o púlpito. Naquele apresentam-se as petições, neste publicam-se os resultados dessas petições; no altar, os ministros das coisas sagradas falam a Deus da parte do povo; no púlpito, falam ao povo da parte de Deus; no altar, faz-se Jesus Cristo adorar pela verdade do Seu corpo; no púlpito faz-se reconhecer pela verdade da Sua doutrina. Há, portanto, uma íntima aliança entre estes dois lugares sagrados, e as obras que neles se realizam relacionam-se admiravelmente.

O mistério do altar prepara o coração para o púlpito; o ministério do púlpito convida à adoração do altar. Tanto dum lugar como doutro deriva para os fiéis um alimento celestial; e Jesus Cristo em ambos evangeliza.

No altar, recordando-nos a memória da Sua paixão e ensinando-nos a sacrificarmo-nos com Ele, evangeliza-nos tacitamente; no púlpito dá-nos vivos ensinamentos pela palavra falada.

E se quiserdes ainda maior relação, vede que no altar, pela eficácia do Espírito Santo e por meio de palavras místicas em que se não deve pensar sem temer, transformam-se. os dons oferecidos no corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo; no púlpito, pela eficácia do mesmo espírito e ainda pelo poder da palavra divina, devem ser secretamente transformados os fiéis de Jesus Cristo, a fim de se modelarem a rigor o seu corpo e os seus membros.

Ora, é por esta admirável relação entre o altar e o púlpito que outros doutores antigos aconselharam energicamente aos fiéis que se aproximassem dum e doutro com igual veneração; e a este respeito, ides ouvir, cristãos, umas palavras notáveis de Santo Agostinho, altamente conceituadas pelos sábios, e que eu vou reproduzir integralmente já ao começo deste discurso, ao qual devem servir de fundamento.

São a§ seguintes as palavras desse grande bispo (Homilia 26, dentre as suas Cincoenta):

«Dizei-me, irmãos, qual das duas coisas vos parece que tenha maior dignidade, a palavra de Deus ou o corpo de Jesus Cristo? Se quiserdes dizer a verdade, respondereis certamente que a palavra de Jesus Cristo não vos parece menos digna de apreço do que o Seu corpo.

E portanto, quanto maior for a precaução que tenhamos para não deixar cair por terra o corpo de Jesus Cristo que nos oferecem, tanto maior há de ser o cuidado que devemos ter para não deixar cair do coração a palavra de Jesus Cristo que nos anunciam; porque, aquele que escuta indiferentemente a palavra sagrada, não é menos criminoso do que o que deixa cair por culpa sua o próprio corpo, do Filho de Deus»

Quid vobis plus esse videtur, verbum Dei, an corpus Christi? Si verum vultis respondere, hoc utique dicere debetis, quod non sit minus verbum Dei quam corpus Christi ministratur, ut nihil ex ipso de nostris manibus in terram cadat, tanta sollicitudine observemus ne verbum Dei, quod nobis erogatur, dum aliud aut cogitamus aut loquimur, de corde nostro depereat: quia non minus reus erit qui verbum Dei negligenter audierit quam ille qui corpus Christi in terram cadere negligentia sua permiserit (S. Agost., Serm. CCC, n.2 – Append.)

São estas as palavras textuais de Santo Agostinho, que me permitem examinar hoje mais profundamente a secreta relação que existe entre o mistério da Eucaristia e o ministério da palavra. É que eu acho que não há nada mais eficaz do que a palavra para atrair o respeito pela doutrina sagrada, nem mais conveniente para explicar os estados de espírito em que essa palavra deve ser ouvida.

A relação a que nos referimos consiste em três coisas para as quais vos peço a maior atenção. A primeira é que, assim como desejais que vos deem no altar, com grande religiosidade, a verdade do corpo de Jesus Cristo, assim deveis desejar que vos preguem no púlpito, com a mesma religiosidade, a verdade da Sua palavra. Este é o primeiro estado de espírito, mas que só por si ainda não é suficiente.

A segunda é que, assim como não basta que recebais externamente a verdade desse pão celestial, e que sejais compelidos a abrir antes a boca do coração do que a do corpo, assim também, para compreenderdes verdadeiramente a palavra sagrada, deveis escutar intimamente a voz do coração.
Mas ainda isto não é suficiente, e só a terceira coisa poderá realizar a perfeição da aliança e o complemento do mistério.

Essa terceira clausula é que, assim como ao receberdes no coração o alimento sagrado deveis proceder de maneira que pareça ao vosso espírito terdes sido alimentados à mesa do Filho de Deus, assim também deveis aproveitar convenientemente a Sua palavra divina, por forma a parecer-vos sempre que sois instruídos na sua escola.

Ora, se o vosso espírito se encontrar hoje nestes três estados de pureza, escutareis Jesus Cristo da maneira que Ele deseja que o escutem: Ipsum audite.

Escutareis externamente a verdade da Sua palavra; e internamente a Sua doutrina íntima. Finalmente, haveis de escutá-lo por meio duma prática fiel, mostrando-vos seus discípulos pela obediência: Ipsum audite.

Senhora: Este assunto é digno da audiência que hoje nos dá Vossa Majestade. É principalmente aos reis da terra que convêm ensinar a escutar Jesus Cristo nas prédicas sagradas, para que eles ouçam ao menos em público essa verdade, que particularmente lhes dissimulam por tantas espécies de artifícios, e para que a palavra de Deus, que é um amigo que não lisonjeia, os desiluda das lisonjas dos seus cortesões. Vossa Majestade, real Senhora, pouca atenção poderá dar às adulações; porque, albergando em seu íntimo um grande amor pela verdade, facilmente adivinhará que o que eu vou agora provar é que se não deve buscar nos púlpitos senão a verdade eterna.

PRIMEIRO PONTO

Os cristãos mais exigentes que, não conhecendo a cruz do Salvador, que é o grande mistério do Seu  reino, procuram por toda a parte o que os lisonjeia e os delicia, inclusive no templo de Deus, julgam-se inocentes por desejarem encontrar nos púlpitos os discursos que agradam e não os que comovem e que edificam, enervando assim por este meio toda a eficácia do Evangelho.

Para os desiludir hoje deste erro tão pernicioso, avanço a dizer que, assim como não há homem algum bastantemente insensato que queira procurar no altar a verdade do mistério, assim também não deve haver homem temerário bastante que deseje encontrar no púlpito a pureza da palavra. É isto o que eu vou demonstrar neste primeiro ponto, esperando que a demonstração seja concludente.

Para estabelecer a relação entre estes dois princípios, é necessário assentar no seguinte fundamento indispensável: Segundo a vontade de Deus na dispensação do mistério do Verbo Encarnado, devia Ele aparecer aos homens de duas maneiras diferentes. A primeira, na verdade da Sua carne; a segunda, na verdade da Sua palavra. E a sólida razão destas diferentes aparições é que, em virtude de Ele ser o Salvador do mundo, necessariamente devia aparecer ao mundo inteiro; pois não basta que apareça na Judeia ou em qualquer parte da terra, mas em todos os lugares onde a vontade de seu Pai lhe preparou eleitos. De maneira que esse mesmo Jesus que apenas apareceu na Palestina pela verdade da Sua carne, apareceu depois em todo o universo pela verdade da Sua palavra (3); e é assim, cristãos, que Ele agora se nos manifesta, enquanto não chega o dia bem-aventurado em que o havemos de ver em toda a Sua glória.

Este mistério que eu vos anuncio acha-se mais claramente demonstrado no nosso Evangelho da Transfiguração. É uma coisa digna de notar-se que na mesma ocasião em que São Pedro, ao admirar Jesus cheio de luz divina, pretende domiciliar-se no Tabor para gozar eternamente da sua vista, nessa mesma ocasião, cristãos, adhuc eo loquente, desaparece a glória de Jesus Cristo, do céu desce uma nuvem a envolver os discípulos, e dessa nuvem sai esta voz do Eterno Pai:

«Este é o meu amado filho, escutai-O»

Era como se dissesse a São Pedro, ou antes pessoalmente aos fiéis que haviam de vir: Não é nesta vida mortal e efêmera que se deve admirar Jesus Cristo.

Quando Ele regressar à glória do seio paterno, descerá do céu uma nuvem que o há de esconder da vossa vista. Não imagineis, porém, que O deixareis de ver completamente; pois que, deixando de o ver na verdade do Seu corpo, podereis sempre contemplá-lo na verdade da Sua doutrina.

Basta que o escuteis e que admireis esse divino mestre na Sua palavra em que Ele propriamente se concentrou. Ipsum audite.

É isto que faz dizer a Tertuliano, no livro da Ressurreição, que a palavra vida é como a carne do Filho de Deus: Itaque sermonem constituens vivificatorem…, eumdem etiam cantem suam dixit (De Ressurrect., Carn., n. 37, p. 406); e ao sábio Orígenes (Homilia XXXV, em S. Mateus), que a palavra que alimenta as almas é uma espécie de corpo que o Filho de Deus tomou: Panis quem Deus corpus suum esse fatetur, verbum est nutritorium animarum. Que querem eles dizer com isto, senhores, e que semelhança puderam achar entre o corpo do nosso Salvador e a palavra do Seu Evangelho? A ideia deste pensamento é a seguinte: É que o Filho de Deus, ao afastar de nos essa visível aparência, e desejando contudo ficar ainda na companhia dos Seus fiéis, tomou como que um novo corpo, que vem a ser a palavra do Seu Evangelho, que efetivamente é uma espécie de corpo em que a verdade se envolve; e nesse novo corpo ainda Ele nos vê a nós e conversa conosco, opera e continua trabalhando para a nossa salvação, prega e todos os dias nos dá ensinamentos da vida eterna.

É por este motivo que os santos doutores tantas vezes comparam a palavra do Evangelho com o sacramento da Eucaristia, e que Santo Agostinho temerariamente preconizou que a palavra de Jesus Cristo não é menos venerável do que o Seu próprio Corpo.

Talvez estar palavras ainda venham a propósito noutro lugar. Agora, porém, para não confundirmos, raciocinemos acerca de toda a doutrina que já ficou expendida. Se bem a compreendestes, cristãos, deveis estar, convencidos de que os pregadores do Evangelho não sobem aos púlpitos com o fim de proferirem discursos vazios de sentido, e que se sirvam para passatempo de quem os ouve.

Nada disso, nem Deus queira que tal imaginemos! Sobem, ao púlpito com a mesma intenção com que sobem ao altar: é para nele celebrarem um mistério muito semelhante ao da Eucaristia que no altar é celebrado.

É que o corpo de Jesus Cristo não existe com mais realidade no sacramento adorável do que existe a Sua verdade na doutrina evangélica. No mistério da Eucaristia, as espécies que vedes representam símbolos; mas o que neles se encerra é o próprio corpo de Jesus Cristo.

Nos discursos sagrados, as palavras que ouvis também representam símbolos; mas o pensamento que os produz, e o que vos é comunicado, representa a própria verdade do Filho de Deus.

Interrogue agora cada um a sua consciência e veja qual o estado de espírito com que ouve a palavra divina. Pondere cada um na presença de Deus se não é um crime gravíssimo considerar, segundo o nosso costume, como um divertimento e um joguete, a mais nobre, a mais importante e a mais indispensável missão da Igreja, pois é assim que os sagrados concílios entendem o ministério da palavra.

Mas imaginai agora a audácia dos que esperam ou exigem até dos pregadores outra coisa além do Evangelho; que pretendem que se melhore as verdades cristãs, ou que, para as tornar agradáveis, se misturem com invenções do espírito humano! Com a mesma licenciosidade(4) poderiam ter o louco desejo de ver violar a santidade do altar, por meio da falsificação dos mistérios. Causa-vos horror este pensamento? Mas sabei que há a restrita obrigação de tratar com verdade a santa palavra e os mistérios sagrados. Donde se conclui, para temor simultâneo de pregadores e ouvintes, que, assim como praticariam um crime aqueles que fizessem ou exigissem a celebração dos divinos mistérios de maneira diferente da que Jesus Cristo nos ensinou, assim também cometeriam um atentado os ouvintes e os pregadores, quando aqueles desejam que estes deem à palavra do Evangelho uma orientação diferente da que deu à Sua Igreja o célebre pregador cuja doutrina ordena que ouçamos: Ipsum audite.

Ora, é de harmonia com estes princípios que o apóstolo São Paulo aconselha aos pregadores que, em vez de forcejarem por criar reputação com a eloquência, «se tornem antes recomendáveis à consciência dos homens pela manifestação da verdade» – In manifestatione veritatis commendantes nosmetitipsos ad omnem conscientiam hominum coram Deo (2Cor 4, 2). E a propósito disto ensina-lhe em que lugar e por que meio eles se devem tornar recomendáveis. O lugar é nas consciências, e o meio é pela manifestação da verdade, visto que uma coisa é a consequência da outra. Adular os ouvidos com a cadência e com a boa disposição das palavras, recrear a imaginação com a delicadeza dos pensamentos, convencer, às vezes, o espírito com a verosimilhança do raciocínio, é uma coisa à primeira vista encantadora; mas a consciência quer a verdade, e como é à consciência que se dirigem os pregadores, devem eles recorrer, não a brilhantes que deslumbrem, nem a uma harmonia que deleite, nem a figuras de retórica que deliciem, mas a relâmpagos que impressionem, a trovões que abalem, a raios que despedacem os corações.

Ora tudo isto só se encontrará na verdade luminosa e na palavra sagrada de Jesus Cristo. Deus é o senhor das tempestades; e se só Ele é que pode fazer ecoar nas nuvens o som do trovão, muito melhor poderá relampaguear e trovejar nas consciências, e despedaçar os corações duros com feixes de raios.

Se houvesse um pregador bastantemente temerário que conseguisse da sua eloquência estes poderosos efeitos, inclino-me a crer que Deus lhe diria como disse a Jó: Si habes brachium sicat Deus, et si voce simili tonas – «Se imaginas ter o poder de Deus e trovejar com voz semelhante» (Jó 40, 4), completa a tua obra e sê Deus em tudo: «eleva-te nas nuvens, mostra-te cheio de glória, lança por terra os soberbos com a tua cólera», e dispõe das coisas humanas a teu talante: Circumda tibi decorem, et in sublime erigere, et esto gloriosus… Disperge superbos in furore tuo (Jó 3, 6).

Como pode uma voz tão débil imitar o trovão do verdadeiro Deus! Não finjamos imitar a força onipotente da voz de Deus, por meio da nossa fraca eloquência.

Se quiserdes agora saber qual o papel que pode desempenhar a eloquência nos discursos cristãos, Santo Agostinho vos dirá que só neles é permitida em resultado da sabedoria: Sapientiam (5), etc. Quanto a isto, há uma ordem que é preciso respeitar: a sabedoria caminha à frente como senhora; e a eloquência vem logo atrás como serva (6).

Não notais a gravidade de Santo Agostinho, quando diz que a eloquência deve vir sem ser chamada? Quer ele dizer que a eloquência, para ser digna de tomar lugar nos discursos cristãos, não deve ser escrupulosamente procurada.

É necessário que venha quase espontaneamente, atraída pela magnificência das coisas e para servir de interprete à sabedoria que pontifica. Mas que sabedoria há de ser essa que deve pontificar nos púlpitos, senão Nosso Senhor Jesus Cristo, que é a sabedoria do Eterno Pai, a qual nos ordena que ouçamos hoje? Por isso, o pregador evangélico dá a palavra a Jesus Cristo.

Não lhe imprime uma linguagem humana, porque receia dar um corpo estranho à verdade eterna; mas recorre as Escrituras, bebe nelas o espírito divino, e serve-se inclusivamente dos termos sagrados que elas encerram, não só para fortificar, mas também para embelezar o seu discurso (7).

No empenho de conquistar as almas, só fala das coisas e dos sentimentos. Não é porque despreze, como diz Santo Agostinho (8), os ornamentos da elocução, quando os encontra de passagem e os vê brilhar na sua frente pela energia dos bons pensamentos que os produzem, mas também não finge adornar-se excessivamente com eles.

Todo o ornato lhe parece bom, contanto que seja um espelho em que Jesus Cristo se possa refletir em toda a Sua verdade, um canal donde brotem em toda a Sua pureza as águas vivas do Seu Evangelho, ou, para maior viveza, um interprete fiel que não altere, nem destrua, nem confunda, nem restrinja a Sua santa palavra.

Por aqui vedes, cristãos, o que deveis esperar dos pregadores. Eu sei que é pena não se seguir muitas vezes em toda a linha a orientação que deixo apontada; mas, se assim é, a culpa é unicamente vossa, irmãos, porque vós é que tendes obrigação de formar os pregadores. Talvez vos pareça mistério o que vos vou dizer; pois aos ouvintes é que compete formar os pregadores, não são os pregadores que se formam a si próprios: Não imagineis que a palavra divina se vai buscar ao céu quando se quer; pois não é a força do gênio, nem o trabalho assíduo, nem a veemente contenção que a obrigam a descer. Ela não pode ser violentada, diz um eminente pregador; é necessário que venha espontaneamente: Non exigitur, sed donatur (9). Deus nem sempre fala quando apraz ao homem; «fala aonde quer» – Spiritus ubi vult spirat (Jo 3, 8), e quando quer. A palavra divina que dirige a nossa vontade não é dos impulsos desta que recebe a lei: Dominatur divinus sermo, non servit; et ideo non, cum jubetur, loquitur, sed jubet (10). Quereis saber quando Deus se compraz de falar? É quando os homens estiverem dispostos para o ouvir. Perfilhai a rigor a sã doutrina, e Deus vos dará verdadeiros pregadores. Preparado o campo convenientemente, não faltarão o bom grão, nem o lavrador, nem o orvalho do céu. Se, porém, fordes dos que não querem ouvir a verdade, e só desejam contos e agradáveis quimeras: Ad fabulas autem convertentur (2Tm 4, 4), então Deus mandará às nuvens que não chovam sobre a terra – Nubibus mandabo ne pluant super eam (Is 5, 6), fará desaparecer a sã doutrina da boca dos pregadores, e, na Sua cólera, enviará profetas insensatos e temerários que proclamem a paz onde a paz não existe (11), e que invoquem o nome do Senhor, não os tendo Ele encarregado de comissão alguma (12).

Tal é o mistério que eu vos prometi. São, portanto, os fiéis ouvintes que formam os pregadores evangélicos, porque, sendo os pregadores feitos para os ouvintes, recebem uns do céu o que outros merecem: Hoc doctor accipit, quod meretur auditor (13). Amai, pois, a verdade, cristãos, e ela vos será anunciada; ambicionai esse pão celestial, e ele vos será oferecido; desejai ouvir a palavra de Jesus  Cristo, e Ele fará ecoar a Sua voz até aos arcanos do vosso coração. É assim que conseguireis desenvolver a atenção no vosso espírito, e é isto que eu tentarei provar-vos na segunda parte deste discurso.

SEGUNDO PONTO

A segunda analogia que notamos entre a palavra de Deus e a Eucaristia é ambas terem de dirigir-se ao coração, embora por caminhos diferentes: uma pela boca, outra pelo ouvido. Assim como o que bebe e come o seu julgamento, ao aproximar-se do mistério, prepara somente a boca do corpo e fecha a Jesus Cristo a boca do coração (13), assim também o que é condenado, ao ouvir falar Jesus Cristo, só o escuta externamente, ficando intimamente surdo à voz desse mágico celestial: Incantantis sapienter (Sl 57, 6), o que equivale a não ouvir a sua voz divina.

Se me perguntardes agora o que é escutar intimamente, dir-vos-ei numa palavra que é ouvir com muita atenção. Mas a atenção a que me refiro não é talvez a que imaginais; e então, para evitar um mal-entendido, vou explicar duas coisas: a suprema necessidade da atenção, e a parte da alma em que ela deve existir.

Para bem compreendermos qual a atenção que devemos prestar à palavra divina, é necessário possuirmo-nos inteiramente dessa verdade cristã que, além do som que nos impressiona o ouvido, tem uma voz secreta que fala dentro de nós, constituindo esse discurso espiritual e interior a verdadeira doutrina, sem a qual será inútil tudo o que disserem os homens: Intus omnes auditores sumus (14).

Não consente o Filho de Deus que tomemos audaciosamente o título de mestres:

«Ninguém se chama mestre a si próprio, diz Ele, porque só há um único mestre e um único doutor» – Unus est enim magister vester (Mt 23, 8)

Se atendermos ao verdadeiro sentido destas palavras, notaremos, diz Santo Agostinho (15), que nenhuma pessoa nos pode ensinar, a não ser Deus. Nem os homens, nem os anjos são capazes de tal.

Poderão realmente falar-nos da verdade, e, para assim dizer, apontar-no-la com precisão; mas só Deus a poderá ensinar, porque só Ele nos dá luz para distinguirmos os objetos. A este respeito elucida-nos Santo Agostinho, por meio da comparação da vista. Inútil será designarem-nos com o dedo as diferentes pinturas desta igreja e chamarem-nos a atenção para a delicadeza dos traços e para a beleza das cores, se o sol não propague a sua luz, de maneira a podermos distinguir tudo o fitamos. E então, no meio de tantos objetos que nos preocupam o entendimento, por maior cuidado tenhamos em separar o verdadeiro do que é falso, nunca conseguiremos, sem Aquele «que alumia todo o homem que vem a este mundo» – Lux vera, quae illuminat omnem hominem venientem in hunc mundum (Jo 1, 9) não fizer incidir uma luz invisível sobre os objetos e sobre a inteligência.

É, portanto, por meio da sua luz que conseguiremos estabelecer a diferença das coisas; Ele é que nos dá um determinado senso, chamado o «senso de Jesus Cristo» – Quis cognovit sensum Domini qui instruat eum? Nos autem Christi habemus (1Cor 2, 16); por meio do qual apreciamos o que é Deus; e é Ele também que nos abre o coração e que nos diz ao nosso íntimo: Se vos pregam a verdade, recebei-a, que ela é a verdadeira doutrina. O que fez dizer a Santo Agostinho:

«Tenho um grande segredo a comunicar-vos, irmãos» – Magnum sacramentum, fratres

«O som da palavra impressiona-nos os ouvidos, mas o mestre está no nosso íntimo»

Fala-se do púlpito, mas a prédica incide no coração: Sonus verborum (nostrorum) aures percutit, magister intus est (16). É que há apenas um único mestre que é Jesus Cristo, e só Ele ensina os homens. Muitas vezes repetiu esse Mestre celestial estas palavras:

«Quem tem ouvidos para ouvir, que ouça» – Qui habet aures audiendi, audiat (Mt 13, 9)

Bem sabia Ele que não falava a surdos; mas também não ignorava que há certos «que vendo não veem, e que ouvindo não ouvem» – Videntes non vident, et audientes non audiunt (Mt 13, 13); que há ouvidos internos onde não penetra a voz humana e onde só Ele tem o direito de Se fazer ouvir. Ora são esses ouvidos que é necessário abrir para ouvirem a prédica. Não basta somente fitardes este púlpito material; é prêmio da boa dicção. Deste modo, concordo em que haja atenção da parte dos ouvintes, mas não a atenção que Jesus requer. Onde deve ela residir, irmãos? Onde existe esse lugar oculto em que Deus fala? Onde se realiza essa lição secreta de que Jesus disse no Seu Evangelho:

«Todo aquele que de meu Pai ouviu e aprendeu, aproxime-se de mim?» (Jo 6, 45)

Onde se dão esses ensinamentos e onde existe essa escola, em que o Pai celestial fala tão energicamente do Filho, e em que o Filho ensina reciprocamente a conhecer o Pai celestial? Escutai a este respeito Santo Agostinho na obra admirável da Predestinação dos Santos:

Valde remota est a sensibus carnis, haec schola, in qua Pater auditur vel docet, ut veniatur ad Filium (17) – «Quão afastada dos sentidos da carne se acha essa escola celestial, em que o Pai ensina o Filho a aproximar-se! Quão afastada dos sentidos da carne, torna ele, se acha essa escola onde Deus é o Mestre!» Valde, inquam, remota est a sensibus carnis haec schola, in qua Deus auditur et docet.

Mas ainda mesmo que Deus falasse ao entendimento pela manifestação da verdade, ainda isso não, bastaria. Enquanto a sabedoria divina se limitar simplesmente à inteligência, não constitui a lição de Deus nem a escola do Espírito Santo, porque então, como diz Santo Agostinho (18), ensinava-nos Deus apenas de harmonia com a lei, e não de harmonia com a graça; ensinava-nos segundo a letra que mata e não segundo o espírito que vivifica. Ora, para estar atento à palavra do Evangelho, não é no sítio, onde se medem os períodos que se deve fixar a atenção, mas no lugar onde se regulam os costumes; não devemos concentrar-nos no sítio onde se apreciam os belos pensamentos, mas no lugar onde se produzem os bons desejos; não é tão pouco para o lugar onde se formam os conceitos que nos devemos afastar, mas sim para aquele onde se tomam resoluções. Finalmente, se algum sítio há ainda mais profundo e mais recôndito onde o coração delibere, onde se terminem todos os seus desígnios e se manifestem todos os seus impulsos, esse sítio é em Jesus Cristo, onde é preciso, estar para O ouvir com a maior atenção.

Se lhe prestardes atenção, que é o mesmo que vos concentrardes no meio das palavras que ouvis e dos pensamentos que nascem no espírito, vereis como que um raio de luz entrar de repente no vosso coração e descer até à origem das vossas enfermidades (19). É que não foi sem razão que São Paulo disse que «a palavra de Deus é viva, eficaz e mais penetrante do que uma espada de dois gumes; desce até a medula do coração e até á divisão da alma e do espírito; é, conforme ele explica, a separação de todos os pensamentos e dos secretos desígnios cordeais (20). E foi isto que fez dizer ao mesmo Apóstolo que a prédica é uma espécie de profecia: Qui prophetat, hominibus loquitur ad aedificationem, et exhortationem, et consalationem (1Cor 14, 3), por que Deus manda, às vezes, dizer aos pregadores qualquer coisa de incisivo que, através dos nossos caminhos tortuosos e das nossas multiplicadas paixões, vai dar com o pecado que escondemos e que dorme no fundo do coração. É então, irmãos, que é necessário escutar atentamente Jesus Cristo que contraria os nossos pensamentos, que nos perturba nos nossos prazeres e que põe o dedo nas nossas feridas; é então que devemos fazer o que diz o Eclesiástico: Verbum sapiens quodcumque audierit scius, laudabit et ad se adjiciet (Ecl 21, 18).

Se o golpe não for bastante profundo, peguemos nós mesmo na espada e façamos com que ela penetre mais fundamente. Oxalá profundássemos tanto o golpe que a ferida ficasse em carne viva, e o sangue nos corresse dos olhos, isto é, as lágrimas, a que Santo Agostinho chama tão elegantemente o sangue da alma! (21) Mas ainda não é bastante. É necessário que da angústia do coração nasçam as boas intenções, e que as boas, intenções derivem em resoluções determinadas, e que essas resoluções tomadas santamente se apliquem a boas obras, escutando nós sempre Jesus Cristo muito humildemente, e testemunhando-lhe uma fiel obediência à Sua palavra.

TERCEIRO PONTO

O Filho de Deus disse no seu Evangelho:

«Aquele que comer a minha carne e beber o meu sangue permanecerá em mim e Eu nele» – Qui manducat meam carnem et bibit meum sanguinem, in me manet, et ego illo (Jo 6, 57)

Quer isto dizer que se sairmos da mesa sagrada nauseados com os prazeres mundanos, se uma divina ternura nos ligou para sempre e fielmente a Jesus Cristo e à Sua doutrina, é indício certo de que apreciamos verdadeiramente a mansidão do Senhor. O mesmo se dá com a palavra divina que ainda se relaciona com a divina Eucaristia. Assim como só ficamos sabendo que recebemos dignamente o corpo do Salvador, quando temos a impressão de que é um Deus que nos dá alimento, assim também só temos a consciência de que escutamos realmente a Sua divina palavra, quando nos pareça que é um Deus que nos dá ensinamentos.

E, porque sucede muitas vezes qualquer homem enganar-se com imitações de verdadeiros sentimentos que lhe possam nascer no coração, é que se não deve acreditar em favores nem em desejos imperfeitos. A realidade ou a ficção desses sentimentos só as obras o podem demonstrar: Operibus credite (Jo 10, 38).

A este respeito, noto eu que um dos mais eloquentes pregadores, senão o mais eloquente, por certo que em todo o tempo edificou a Igreja, quero referir-me a São João Crisóstomo (22), censura muitas vezes os seus ouvintes por ouvirem os discursos eclesiásticos como quem assiste a uma comédia. Ora eu que encontrava a miúdo esta censura nas suas prédica divinas, tive o máximo empenho em desvendar o fundo daquele pensamento, e eis o que consegui saber: Há diversões que só têm por fim recrear o espírito, sem despertarem sentimentos afetivos, nem fazerem acionar as molas do coração. Outro tanto se não dá com esses espetáculos cheios de vida que se dão nos teatros. São perigosos, porque não agradam, se não comovem, se não interessam o espetador, e se não lhe fazem representar também o seu papel, embora não pisem o palco nem façam parte da tragédia (23).

É nisto que esses espetáculos são para temer, porque o coração começa insensivelmente a agitar-se de boa fé, e então comove-se, sente-se transportado, rejubila e entristece-se com coisas que fundamentalmente lhe são indiferentes! E uma prova irrefragável de que esses impulsos não afetam o coração, é que desaparecem com a mudança de lugar.

Essa comoção que fazia chorar, e essa cólera que enrubescia os olhos e o rosto, não eram mais do que falsas aparências com que o coração armava ao efeito, e que todavia produziam o mesmo resultado que as verdadeiras paixões; tal a facilidade que temos em nos enganarmos, tal o prazer que sentimos em nos tratarmos com ludibrio!

Quando o sábio São João Crisóstomo receava que os seus ouvintes assistissem aos seus sermões como quem assiste a uma comédia, é porque via muitas vezes que eles se sentiam abalados, elevando-se no seu auditório gritos e vozes confusas que indicavam uma excitação nos corações, devido às palavras que proferia. Um homem que fosse, menos experimentado acreditaria numa conversão da parte dos seus ouvintes; mas São João Crisóstomo, que receava que tudo aquilo não passasse de sentimentos teatrais, artificiosamente provocados, achava que só tinha motivo para rejubilar quando visse os costumes corrigidos, porque só então é que tinha a certeza de que fora escutada a palavra de Cristo.

Não vos fieis, portanto, cristãos, nessas visíveis comoções, se às vezes as sentirdes nas prédicas sagradas.

Se tais sentimentos experimentardes, não imagineis que ouvis a palavra de Cristo, senão a do homem. Pode a sua voz comover, como comove um instrumento quando é bem tocado. Nunca, porém, conheceis que sois verdadeiramente edificados por Deus senão pelas obras. Santo Agostinho alude à maneira especial como Deus edifica, maneira tão elevada, tão insinuante, etc., que não consiste apenas na demonstração da verdade, senão na inspiração da caridade, que não só vos ensina aquilo que deveis amar, como também vos ensina a amar o que já conheceis: Si doctrina discenda est…, altius et inferius…, ut non ostendat tantummodo veritatem, verum etiam impertiat charitatem (24).

De maneira que os que verdadeiramente pertencem à escola de Jesus Cristo, em breve o demonstrarão por meio das suas obras. E assim nos assegura São Paulo, quando escreve aos fiéis de Tessalônica:

De charitate autem fraternitatis non necesse habemus scribere vobis – «Não haveis mister de que vos falem da caridade fraternal», ipsi enim vos a Deo didicistis ut diligatis invicem – «porque Deus vos disse que vos amasseis uns aos outros»

E logo prova esta verdade, dizendo:

«Com efeito, praticais fielmente o conselho de Deus para com os irmãos de Macedônia» – Etenim illud facitis (1Ts 4, 9-10)

Deste modo, a prova irrefutável que o Filho de Deus vos edifica, é quando praticais os Seus ensinamentos, que são o distintivo que podeis, receber do divino Mestre (25).

Os homens que se entremetem a edificar os outros, mostram-lhes quando muito o que necessitam saber; só ao divino Mestre, porém, a quem devemos escutar, compete ensinar-nos ao mesmo tempo o que nos convêm e dar cumprimento ao que já conhecemos: Simul donans et quid agant scire, et quod sciunt agere (26). Se, portanto, quiserdes pertencer ao número dos que O escutam, escutai-O verdadeiramente e obedecei às Suas palavras: Ipsum audite. Não sejais como aqueles de quem zomba o divino Salmista, como essas flores que só servem para iludir esperanças, que nunca vingam para dar fruto, ou como esses frutos que não amadurecem e que são o joguete dos ventos e a presa dos animais. Semelhantes árvores é que Deus não consente no seu jardim de delícias (27),

Não vos fieis em afetos estéreis e infrutíferos, que nunca se traduzem em resoluções inabaláveis. Discípulos ou soldados com tal índole expulsa-os Jesus Cristo da Sua escola e do Seu exército. Escutai como Jesus, por assim dizer, zomba deles, pela boca do divino Salmista:

Filii Ephrem intendentes et mittentes arcum, conversi sunt in die belli – «Os filhos de Efrem, que armavam o arco e preparavam as flechas, recuaram no dia da batalha» (Sl 77, 9)

Ao ouvirem a doutrina de Deus, pareciam afiar as armas contra os seus vícios; no dia da tentação, porém, entregaram-nas vergonhosamente. Durante o exercício davam muitas esperanças; mas no começo do combate começaram a fraquejar. Animados a princípio com o som da trombeta, debandaram logo, quando foi preciso lutar: Filii Ephrem, etc.

Concluamos finalmente este discurso, do qual deveis ficar sabendo que para escutar Jesus Cristo é necessário cumprir a Sua santa palavra. Ele não fala para nos agradar, senão para nos edificar nas nossas consciências.

«Eu sou o Senhor, diz Ele, que vos ensina coisas úteis» – Ego Dominus docens te utilia (Is 48, 17)

Ele não institui pregadores para serem ministros da voluptuosidade e vítimas da curiosidade pública, mas para consolidarem o reino da verdade, provando assim que não quer na Sua escola contempladores ociosos, mas fiéis obreiros. Finalmente, quer ver nela discípulos que honrem com a sua vida exemplar a autoridade dum tal Mestre. Ora, para não termos receio doravante de sair da Sua escola sem melhorarmos os nossos costumes, escutemos de que maneira Ele se dirige aos que não aproveitam os Seus preceitos sagrados: Ipsum audite. Escutai, que é Ele próprio que vos fala:

«Se alguém ouvir as minhas palavras e não tiver o cuidado de as cumprir, eu não o julgo, non judico eum, porque não vim para julgar o mundo, senão para o salvar» – non enim veni ut judicem mundum,  sed ut salvificem mundum (Jo 12, 47)

Não imagine, contudo, esse alguém que deve ficar sem ser julgado, porque lá diz o divino Mestre:

«Aquele que me desprezar e não receber as minhas palavras, tem um determinado juiz», habet qui judicet eum.

Quem será esse juiz?

«A palavra que eu preguei é que o há de julgar no dia final» – Sermo quem locutus sum, ille judicabit eum in novissimo die (Jo 12, 48)

Faltava-nos ainda isto para estabelecer a autoridade santa da palavra de Deus; faltava-nos ainda esta nova relação entre a doutrina sagrada e a Eucaristia. Esta, ao aproximar-se dos homens, vem distinguir as consciências com uma autoridade e um olhar justiceiro. Recompensa uns, e condena outros. Assim a divinal palavra, esse pão auricular, esse corpo espiritual da verdade. Aqueles a quem ela não consegue comover, julga-os; os que não converte, condena-os; e os que não alimenta, mata-os.

Creio ser agora desnecessário exortar-vos com um longo discurso. Os que têm ouvidos cristãos prevenirão por meio dos seus sentimentos o que eu poderia dizer, porque estou certo de que estas verdades angélicas penetraram fundamente nas suas consciências. Mas se alguma coisa provei, se hoje vos mostrei a sagrada aliança que existe entre o púlpito e o altar, em nome de Deus vos peço, irmãos, que não violeis a santidade dessa aliança. Enquanto todos se reúnem para ouvir a divina palavra, de Cristo, quaisquer ares de desprezo, um simples murmúrio e às vezes um riso escandaloso bastariam para deslustrar publicamente a presença de Jesus Cristo! Templos augustos, altares sacrossantos, e vós, santo tabernáculo do verdadeiro Deus, havereis de ser privados da adoração que Vos é devida, por causa da tribuna evangélica? E nós, cristãos, em que pensamos? Queremos começar de honrar o púlpito com o desprezo do altar? Será por nos prepararmos para receber a palavra divina que faltamos ao respeito à Eucaristia? Se assim procederdes doravante, de nada vale o que eu disse, nem vós acreditastes nas minhas palavras.

Meus irmãos, entre estes mistérios há a mais perfeita harmonia; não tenhamos a audácia de a quebrar. Adoremos Jesus Cristo antes de ouvirmos a Sua voz, e contemplemos no altar, com todo o respeito e com o maior silêncio, esse divino Verbo, antes de Ele vos edificar neste púlpito. Abramos os nossos corações à doutrina celeste, preparando-nos agora santamente! Fazei uso dessa doutrina, cristãos, e sirva-vos de mestre Nosso Senhor Jesus Cristo.

Oxalá as águas sagradas do seu Evangelho intimidem as vossas almas de tal forma que elas se convertam numa fonte perene na vida eterna, que eu vos desejo, em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Referências:

(1) Ms. t. XII, 117. – Déforis, 189 – Lachat, IX, 112 – Gander 249

(2) Este último parágrafo é tirado dum exórdio emendado por Bossuet, em 1666, mas é indispensável para inteligência do discurso e prende-se afinal com o antecedente.

(3) Compare-se esta passagem com uma passagem idêntica do Panegírico de São Paulo.

(4) Esta palavra licenciosidade ou licença, permissão de fazer tudo e abuso que se faz dessa permissão, é muito enérgica em Bossuet. Noutro lugar dirá ele: sofreia a licença.

(5) Bossuet escreveu Sapientiam, etc; mas os beneditinos completaram a citação: Sapientiam de domo sua, id est pectore sapientis, procedere intelligas, et tanquam inseparabiliem famulam, etiam non vocatam, sequi eloquentiam (S. Agost., De doct. christ., IV, 10).

(6) É este o pensamento da idade média: Ancilla theologiae philosophia.

(7) No manuscrito lê-se, nesta altura, uma frase que Bossuet riscou:

«Ele só pretende agradar para atrair, e atrair só para converter. Da boca sai-lhe a palavra do Evangelho, viva, penetrante, animada, cheia de espírito e de calor»

(8) São as seguintes as próprias palavras de Santo Agostinho (Doc. christ., IV, 57): «Illa eloquentia… nec inornata relinquitur, nec indecenter orantur, nec solum hoc appetit ut delectet».

(9) São Pedro Crisólogo, Serm., LXXXVI

(10) São Pedro Crisólogo, Serm., LXXXVI

(11) Dicentes: Pax, pax, quum non esset pax (Jr 8, 2)

(12) Dicentes: «Ait Dominus» quum Dominus non miserit eos (Ez 13, 6)

(13) Tradução da seguinte passagem de São Paulo (1Cor 11, 29): Qui manducat et bibit indigne, judicium sibi manducat et bibit, non dijudicans corpus Domini.

(14) S. Agost., Serm., CLXXIX, n. 7.

(15) De Peccat. merit. et remiss., lib. I, n. 37

(16) Tract. III, in Espist. Joan, n. 13

(17) De Praedest. Sanct., n. 13

(18) Quando Deus docet, non per legis litteram, sed per spiritus gratiam, ita docet ut quod quisque didicerit non tantum cognoscendum videat, sed etiam volendo appetat, agendoque perficiat – S. Agost., De Grati. Christ., 15.

(19) Em vez desta frase, escrevera Bossuet a princípio as seguintes linhas:

«A palavra sagrada desce até ao coração, e Jesus Cristo, que é a palavra original, entra nele com a palavra do Seu Evangelho. Mas entra como um juiz que faz uma busca rigorosa e interroga todos os nossos pensamentos. Toma-nos o pulso como um médico, diz Santo Agostinho, ou, para melhor dizer, não se contenta com tomar o pulso, nem com ajuizar do coração pelo movimento de artéria; para nele descobrir a origem da doença»

É porque vê que há nele muito que estudar.

(20) «Vivus est enim sermo Dei, et efficax, et penetrabilior omni gladio anticipiti: ac perstringens usque ad divisionem animae et spiritus, compagnum quoque ac medullarum, et discretor cogitationum et intentionum cordis».

(21) «Inde quidam sanguis animi confitentis per lacrimas profluat» – Serm., CCCLI, n. 7.

(22) São João Crisóstomo disse, na verdade, referindo-se dos ouvintes: «… eorum conditionem usurpant qui in externorum theatris certamina spectaturi sedent» – De Sacerd., V, I (ed Montfaucon, I, 415).

(23) «O primeiro princípio discutido pelos poetas trágicos e cômicos é a necessidade de interessar o espectador. E se o autor ou o ator duma tragédia não consegue fazer-lhe sentir vivamente a paixão que pretende exprimir, o espectador cairá na indiferença, no tédio, no ridículo, segundo as regras dos mestres da Arte. Aut dormitabo, aut ridebo» (Bossuet, Max. da Com., IV)

(24) S. Agost., De Grat. Christ., n. 14.

(25) Este distintivo é o sinal que o divino Mestre colocaria na fronte dos seus eleitos.

(26) S. Agost., loco mox cit.

(27) Esta bela frase foi registrada em nota por Gandar, que não quis inseri-la no texto com receio de que ela tivesse um sentido duplo. Mas, colocando-a como nós fazemos, depois de ipsum audite, deixa de ser uma frase dúbia. O próprio ms. autoriza esta disposição das frases; Bossuet, por falta de espaço, é que escreveu entre-linhas.

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(BOSSUET, Jacques-Bénigne. Sermões de Bossuet, Volume II. Tradução de Manuel de Mello. Casa Editora de Antonio Figueirinhas 1909 – Porto, 1909, Tomo II, p. 257-286)