Panegírico de São João

São João, filho de Zebedeu, e irmão de São Tiago Maior, nasceu em Betsaida (Galileia). Era pescador. Chamado ao apostolado por Jesus Cristo, quando tinha 25 anos, o discípulo amado do Salvador foi testemunha de quase todos os Seus milagres e acompanhou-O ao jardim das Oliveiras e ao Calvário. Foi a ele que Jesus, antes de morrer, entregou Sua Mãe; e foi o primeiro a reconhecê-lO após a ressurreição, começando desde logo a pregar o Evangelho. Em 50 assistiu ao concílio de Jerusalém, e depois foi pregar à Ásia Menor e segundo soa, ao reino dos Parthas, vindo a ser o primeiro bispo de Éfeso. Preso por ordem de Domiciano em 95, foi conduzido a Roma e lançado numa caldeira de azeite a ferver, donde saiu ileso, sendo depois desterrado para a ilha de Patmos, onde escreveu o Apocalipse. Voltando para Éfeso, depois da morte do imperador, compôs o seu Evangelho, e morreu aos 94 anos, no ano 101 da era de Cristo, deixando ainda 3 Epístolas canônicas. A sua festa é celebrada a 27 de dezembro; e o seu emblema é uma águia.

Pregado em Metz, na Igreja de São João da Cidadella, 1657 ou 1658.

SUMÁRIO

Exordio. Hoc est perfectum quod placet ariifici suo — Por isso deve ser grande a perfeição do discípulo amado.

Proposição e divisão. — Durante toda a sua vida pública Jesus Cristo deu a São João provas da sua amizade:

«O discípulo verdadeiramente feliz a quem Jesus Cristo deu:

1.° A sua cruz para vos associardes a Sua vida de sofrimento…

2.° Sua Mãe para que vivesse eternamente na vossa lembrança…

3.° O Seu coração para com ele vos unificardes»

1.º Ponto. — A amizade de Jesus dá a cruz a São João, e o discípulo amado aceita-a. A sua vida é: Juge sacrificium, porque sofre o martírio na caldeira de azeite a ferver e sobretudo no exílio. Depois da Ascensão de Jesus Cristo e da Assunção de Nossa Senhora, disse, muitas vezes: Domine Jesu, veni.

2.º Ponto. — Onde o amor mais generosamente se manifesta é na morte. Assim, Jesus crucificado dá a Virgem Maria a São João e São João à Virgem Maria; e no céu ama Jesus a Virgem duma maneira diferente da terra, isto é, sem comoções e sem cuidados. Delega em São João a forma de amor que tinha durante a sua vida mortal: Delegat homini jura pietatis humanae. As palavras de Jesus: Fili, ecce mater tua são eficazes, formando em São João um coração de filho para com a Virgem Maria.

3.º Ponto. —Jesus convida o discípulo amado a descansar em Seu coração; e durante o seu agradável repouso obtém São João do coração de Jesus um profundo conhecimento do seu divido Mestre, que ele traduz dizendo: Nos credidimus charitati.

Peroração. — Amemos os nossos irmãos em Jesus Cristo. No céu os bem-aventurados estão unidos muito intimamente pelos laços da caridade; Amemo-nos para compartilharmos da sua bem-aventurança.

Ego dilecto meo, et ad me conversio ejus
Eu sou do meu amado, e a corrente dos seus afetos converge para mim (Ct 7, 10)

É supérfluo, cristãos, fazer hoje o panegírico do discípulo amado do nosso Salvador. Basta dizer numa palavra que era o valido de Jesus e o mais querido de todos os apóstolos. Santo Agostinho disse mui doutamente que «a obra fica perfeita quando apraz ao seu artista» – Hoc est percfetum quod artifici suo placet (1) e isto, a meu sentir, sabemo-lo nós por experiência.

Quando se nos depara um excelente pintor a trabalhar na feitura dum quadro, vemo-lo com o pincel na mão, desvanecendo agora um traço, logo outro, porque a pintura não lhe agrada, porque não exprimiu toda a sua ideia, e o quadro assim fica incompleto; mas depois de ter dado todos os contornos, e de haver combinado todas as cores, dando-lhes o maior relevo, começa a pintura a realçar, e então o seu espírito enche-se de contentamento, porque tudo se amolda as regras da arte; e a obra fica perfeita, porque apraz ao seu artista e porque ele realizou o que desejava: Hoc est perfetum quod artifici suo placet. Não duvideis, portanto, cristãos, da grande perfeição de São João, visto que ela agradou ao artista que a fez; e sendo Jesus Cristo criador dos corações, que até os cria para as boas obras, como diz São Paulo (Ef 2, 10), quis formar perfeito o coração de São João, para que ele viesse a ser o objeto do seu amor. Posto isto, eu poderia concluir aqui este panegírico, se a vossa justa curiosidade não desejasse de mim um discurso mais longo.

Ó bem-aventurada Santa Maria, impetrai-nos de Deus a luz de seu Espírito para falarmos de João, vosso segundo filho. E não se moleste com isto o vosso pudor, porque a vossa virgindade não é ofendida. Se foi Jesus Cristo quem vo-lo deu e quem vos anunciou que havíeis de ser a Mãe do seu discípulo amado, ninguém duvida de que fiásseis na palavra de Deus, quando tão humildemente vos rendestes a que o anjo vos dirigiu, dizendo ao saudar-vos: Ave-Maria.

Ao ler as Escrituras sagradas, observo três estados diferentes, pelos quais passou o Salvador, durante os dias da Sua vida terrena e no decurso da Sua peregrinação. O primeiro foi a Sua vida; o segundo a Sua morte, e o terceiro, a junção da morte com a vida, em que Jesus nem morreu nem viveu, ou para melhor dizer, morreu e viveu simultaneamente. Este era o estado em que Ele se encontrava na celebração da Ceia divina, quando, a comer na companhia dos discípulos, lhes mostrava que estava vivo; e desejando ser comido por eles, como se fora uma vítima imolada, lhes aparecia como se estivesse morto. Ao consagrar Seu corpo e sangue, mostrava que estava vivo; e separando misticamente o corpo do sangue, mostrava-Se sob as aparências da morte, e dedicava-se a cruz pôr um particular destino. Nestes três estados, cristãos, fácil me é provar-vos que João foi sempre o fiel e o amado discípulo do Salvador. Enquanto viveu com os homens, ninguém o acreditou; e quando deu a alma a seu divino Pai, nenhum dos seus recebeu dEle provas dum mais acendrado amor, assim como no momento em que deu o Seu corpo aos discípulos, todos viram o honroso lugar que Ele lhes marcou junto de Si, nessa cerimônia sagrada.

Mas o que me prova mais claramente a forte corrente de inclinações, estabelecida entre Jesus e o discípulo de que estamos falando, são três dons que Ele lhe confere nesses três estados admiráveis em que o vemos no seu Evangelho. Enquanto vivo, entrega-lhe a cruz; próximo a morte, entrega-lhe Sua Mãe; e no momento da ceia, entrega-lhe o Seu coração. Que mais deseja um amigo na vida do que associar-se com os que preza no mesmo gênero de ocupações, e que coisa haverá melhor do que a amizade nessa agradável convivência? A ocupação de Jesus era sofrer, pois foi o que seu Pai lhe prescreveu e o encargo que lhe confiou; e por isso associa São João a sua vida laboriosa e crucificada, profetizando-lhe logo os sofrimentos que lhe destina com estas palavras:

«Bebereis o cálice que eu beber, e sereis batizado com o meu batismo» (Mc 10, 39)

Este é o presente que Ele lhe faz no decurso da sua vida. Qual é a melhor maneira, por meio da qual um amigo que está a morte, aprecia a nossa amizade, senão testemunhando um ardente desejo de a conservar ainda depois da morte e de viver eternamente na nossa lembrança? Foi isto que Jesus fez a favor de João duma maneira tão maravilhosa e tão inimitável, quando, ao entregar-lhe Sua divina Mãe, seu bem mais precioso do mundo, lhe disse:

«Filho, eis aí tua Mãe» (Jo 19, 29)

Mas o que mais testemunha o Seu amor, é o belo presente que Ele lhe faz no sagrado banquete da Eucaristia onde a sua amizade, não satisfeita com dar-lhe a Sua carne e o Seu sangue como deu aos outros discípulos, a fim de com Ele se unificarem, se manifesta ainda por meio do abraço que lhe deu, estreitando-o de encontro ao peito. E porque não bastava tê-lo galardoado com tantos dons, entrega-lhe ainda a própria fonte de todas as graças, isto é, o Seu próprio coração, ordenando-lhe que nEle repouse como num precioso lugar que lhe está garantido. O discípulo verdadeiramente feliz, a quem Jesus Cristo deu a Sua cruz para vos associardes a sua vida de sofrimento; a quem deu Sua Mãe, para que vivesse eternamente na vossa lembrança, e a quem deu o Seu coração, para com Ele vos unificardes! Que haveis de fazer, ó valido amado, senão aceitar esses presentes com o respeito que é devido ao amor do vosso bom Mestre?

E com efeito ele aceita-os, cristãos. Aceita a cruz do Salvador, quando Cristo lhe diz, oferecendo-lha: «Poderás beber este cálice? — Posso», responde João, osculando-a com todo o ardor da sua alma: Possumus (Mc 5, 39). Aceita a Virgem Maria com maravilhoso prazer, considerando-a como sua própria Mãe, desde a hora em que Cristo lha deu, segundo ele mesmo nos refere: Accepit eam discipulus in sua (Jo 19, 27). E, sobretudo aceita o coração de Jesus com uma ternura inconcebível, quando sobre Ele repousa gostosa e tranquilamente, para provar um gozo consolador e uma posse garantida. Ó misteriosa caridade! Ó presentes divinos e sagrados! Onde há aí palavras bastantemente ternas e afetuosas, com que eu possa fazer compreender a este povo toda a sublimidade e maravilha que vos distingue? Procuremos, no entanto, fazê-lo, auxiliados pela graça divina.

São João Evangelista (Domenico Zampieri, 1581–1641)

São João Evangelista (Domenico Zampieri, 1581–1641)

PRIMEIRO PONTO

Cristãos, não imagineis que a amizade que o Salvador preciosamente guarda no Seu coração generoso é semelhante a essas amizades muito ternas, que se expandem em palavras meigas e obsequiosas, e que não são assaz destemidas para verem um ânimo fortificado pelos pesares e provado nos sofrimentos. A amizade que o Filho de Deus nos dedica é de natureza bem diferente; porque o seu fim é fortalecer-nos nos trabalhos e costumar-nos à luta. É uma amizade terna, mas que não entibia; ardente, mas que não enfraquece suave, mas que não lisonjeia. Porque a verdade é esta cristãos: Jesus, quando entra nalguma parte, nunca vai que não leve a Sua cruz e todos os seus espinhos, para mostrar àqueles a quem dá o Seu amor; mas como o nosso Apóstolo é o seu discípulo amado, faz-lhe presente da cruz, provando-lhe assim o Seu grande afeto por ele. E a mão que tantas vezes afagou a cabeça do discípulo, aconchegando-a com indizível ternura ao Seu bendito peito, é a mesma que lhe oferece o cálice amargo, que desborda em sofrimentos e aflições, ordenando-lhe o beba dum trago até as fezes, Calicem quidem meum bibetis (Mt 20, 23).

Confessai agora a verdade, cristãos: vós é que não desejáveis por modo algum receber semelhante presente, dado mesmo que vos pagassem para o receberdes; mas é porque não compreendeis o seu inestimável valor. Se, porém, ainda existir nas vossas almas algum vestígio do vosso batismo, indelével, apesar dos prazeres mundanos, em breve vos convencereis da necessidade dessa oferenda, tanto mais quanto o prova a doutrina de Jesus Cristo, cujas palavras textuais vos irei reproduzir, com a mesma simplicidade com que foram proferidas pelos Seus santos e divinos lábios, e sem recorrer sequer a qualquer argumento estranho.

Nosso-Senhor Jesus Cristo tinha duas coisas para legar aos homens, a Sua cruz e o Seu trono, a Sua servidão e o Seu reino, a Sua obediência até a morte e a Sua exaltação até a glória. Quando desceu a terra, ofereceu-lhes ambas as coisas: uma sintetizava o Seu espinhoso encargo, e a outra constituía o objeto da Sua embaixada. Dirigindo-se aos discípulos, falou-lhes Cristo desta sorte:

Complacuit dare vobis regnum – «Foi Deus servido legar-vos o seu reino» (Lc 12, 23)

E continuou dizendo:

Non veni pacem mittere, sede gladium – «Eu não vim ao mundo para trazer a paz, senão a guerra»

Sicut oves in medio luporum – «Ide como ovelhas para o meio dos lobos»

(Mt 10, 34. 16)

Os discípulos, ainda ignorantes e lascivos, furtavam-se a estes divinos preceitos, e não queriam aceitar a cruz que Ele lhes oferecia, instando apenas para que lhes desse o reino, que tanto ambicionavam; mas Ele, desejando habituá-los aos mistérios do seu Evangelho, falou-lhes acerca do reino muito laconicamente, como era seu costume, e logo voltou a dissertar a respeito da cruz. Isto serve para nos mostrar que devemos dividir os nossos afetos pela cruz e pelo trono; ou, para melhor dizer, dada a relação mútua que têm estas duas coisas, devemos dividir igualmente as inclinações por ambas elas.

Ó João, discípulo amado de Jesus, vinde ouvir da sua boca esta verdade. Ele já por várias vezes a tem pregado a todos os Apóstolos, vossos companheiros; mas vós, que sois o seu valido, podeis acercar-vos dEle na companhia de vosso irmão, para em particular vos ser comunicada. Foi fiada na distinção, que a vosso respeito faz o Salvador, que vossa mãe se lhe dirigiu, dizendo:

«Fazei com que os meus dois filhos se assentem, um a vossa direita, e outro a vossa esquerda, nas cadeiras do vosso reino» – Dic ut sedeant hi duo filii mei

Ao que Cristo respondeu:

«Podeis vós beber o cálice que eu hei de beber?» – Potestis bibere calicem quem ego bibuturus sum? (Mt 20, 22)

Ó meu glorioso Salvador, permiti que Vos diga que a Vossa resposta não é conveniente. Falam-nos de glória, e Vós falais de ignominia! Mas não; a resposta é conveniente, a pergunta é que o não é:

Nescitis qui petatis? «Sabeis o que pedis?». «Tomai a cruz, e tereis o reino, que s acha oculto nessa amargura, onde vereis os títulos da minha realeza. Além de quê, não é a mim que compete dar-vos o que me pedis: Non est meum dare vobis, é a vós que compete recebê-lo, segundo a parte que quereis tomar nos meus sofrimentos»

Isto fica gravado no coração de João, que deixa para logo de pensar no reino para só pensar exclusivamente na cruz; e isto nos representa ele admiravelmente no seu Apocalipse, dizendo-nos:

«Eu João, que também sou irmão vosso, e companheiro na aflição, no reino e na paciência de Jesus Cristo, estava na ilha chamada Patmos, pela palavra de Deus e pelo testemunho de Jesus Cristo; e um dia fui arrebatado em espírito» – Ego Joannes frater vester, et socius in tribulatione, et regno, et patientia, fui in insula quae appellatur Patmos, propter verbam Dei, et testimonium Jesu: fui in spiritu (Ap 1, 9, 10)

A que vem esta observação?

«Eu vi em espírito o Filho do Homem no seu trono, e ouvi o cântico dos seus louvores, porquê? Porque fui desterrado para uma ilha: Fui in insula. Outrora imaginava que não era possível ver Cristo a reinar senão estando assentado á sua direita e revestido da sua glória; mas Ele disse-me que ninguém melhor o vê do que na sua missão de sofrimento, e então a dor abriu-me os olhos, e o vento da perseguição dissipou as nuvens do meu espírito e abriu passagem a luz»

Mas vede agora mais claramente: Ego Joannes, socius in tribulatione et regno. Ele fala a respeito do reino; mas primeiro refere-se a cruz. Noutro tempo antepunha o reino a cruz; agora antepõe a cruz ao reino; e depois de ter aludido a este, refere-se incontinente aquela: Et patientia, porque teme prender-se demais com a glória, como antigamente fazia.

Vejamos, porém, qual foi a sua cruz. De todos os discípulos que teve o Salvador, foi São João o que aparentemente a teve mais leve, mas que internamente a teve maior e mais acerba, como vamos explicar. Evocando o mistério, consideremos as duas cruzes do nosso Jesus. Uma vê-se no Calvário, e parece ser a mais dolorosa; a outra foi a que Ele sofreu em todo o decurso da Sua vida, e é de todas a mais aflitiva. Desde o principio que foi destinado para ser a vítima do gênero humano, ofereceu gloriosamente dois sacrifícios, o último dos quais se operou no altar da cruz; mas sendo mister que cumprisse o que era chamado juge sacrificium (Dn 8, 11.13), foi este operado no altar e no templo do Seu coração, desse coração sempre amortecido, e sempre asseteado, ansioso de sofrimento e dum sacrifício constante! E agora não cuideis que a Sua paixão constitua o Seu sacrifício mais doloroso, porque a paixão consola-o; dá-lhe uma sede ardente que O requeima e O consome, mas que O refrigera e O tonifica razão porque talvez Ele peça que lhe deem água para refrescar o ardor da Sua sede. Na verdade, ao referir-se a esta última cruz clama maravilhosamente:

«Agora é que o Filho do Homem vai ser glorificado» – Nunc clarificatus est (Jo 13, 31)

É nestes termos que Ele se exprime depois da páscoa final, assim que Judas sai do cenáculo. Mas o sacrifício por que Ele mais anseia, é o da outra cruz, em que se sente vivamente angustiado pela demora no cumprimento desse batismo: Baptismo habeo baptizari, et quo modo coarctor (Lc 12, 50)? Um deleita-O: Nunc clarificatus est; o outro angustia-O: Coarctor. Qual é que constitui a Sua verdadeira cruz? O que O angustia e O constrange, ou o que amacia o cruciar da angustia?

A primeira cruz, tão cruciante e tão dolorosa, é que Cristo quer dar a João. Perguntava Pedro a Cristo atentando nos merecimentos do Evangelista, e apontando para Ele: Domine, hic autem quid (Jo 21, 21)? Senhor, se a mim dissestes já qual havia de ser a minha cruz, que cruz haveis de dar a este? – «Não vos dê isso cuidado, respondeu Cristo. A cruz que Eu lhe quero dar não é de impressionar os sentidos, senão os recessos da alma, onde eu próprio lha hei de gravar, e a farei pesada com a minha mão». E para que João a pudesse suportar com ânimo verdadeiramente heroico, inspirou-lhe o amor do sofrimento. Todo o homem a quem Cristo ama acrisoladamente, e em cujo coração entorna sentimentos de ternura, dedica-lhe também a Ele afeição tal, que o seu mais ardente e único desejo é ver desmoronar-se-lhe o corpo como uma barreira arruinada, que tão impiedosamente o separa do Cristo glorioso. Mas quem mais estremecidamente adora a cruz do que João Evangelista, que libara essa adoração nas próprias chagas de Cristo, e que lhe virá sair do lado o cristal puro da felicidade, estriado com o sangue do sofrimento? Ele sente-se inebriado com o ardor do martírio; e, todavia, ó Cristo, que suplícios lhe dareis? — Um exílio! – Ó crueldade lenta e covarde de Domiciano! Será possível que sejas excessivamente humano para comigo e não estejas sedento do meu sangue? Mas não tarda que o vá já derramar, pois me preparam azeite-a ferver, a fim de me atormentarem num banho ardente. Eis-vos, enfim, ó, cruz de Cristo, que eu tão fervorosamente adoro – E João arremessa-se dum golpe à caldeira de azeite fumegante e em cachão, com a mesma rapidez como nos ardores do estio nos lançamos num banho d’água para nos refrescarmos. Mas, ó surpresa maldita e cruel! O azeite converte-se subitamente num rocio cristalino e oloroso! — Ó meu divino Salvador, é este então o amor que me dais? Se me não quereis dar a morte, porque obrigais a natureza a não corresponder aos meus desejos? Algozes, trazei lume para aquecerdes o vosso azeite que inopinadamente arrefeceu. – Mas inúteis são estes clamores, porque Cristo quer prolongar-lhe a vida, agravando-lhe mais a sua cruz. É necessário que Ele viva até à decrepitude, e primeiro veja morrer todos os seus irmãos e os santos apóstolos, e sobreviva, quase a todos os filhos que há de dar a Jesus Cristo.

Como o haveis de consolar, ó Salvador das almas? Não vedes que Ele anda a morrer todos os dias, porque não pode morrer logo duma vez? E parece que não tem mais que um sopro de vida, esse velho assim com aparência de múmia e quase que só reduzido a cinzas, mas que oculta dentro em si um fogo divino, maravilhosamente instilado pelo coração do Eterno. Escutai os seus clamores:

«Amados irmãos, desde a hora presente somos filhos de Deus; mas o que seremos um dia ainda não é sabido» – Dilectissimi, nunc Filii Dei sumus, et nondum apparuit quid erimus (Jo 3, 2)

Como o haveis de consolar? Querereis glorificá-lo com visões? Mas assim aumentais a ardência dos seus desejos. Se ele vê derivar esse rio que enche de júbilo a cidade de Deus, a celeste Jerusalém, de que serve mostrar-lhe a fonte, para dela não beber mais que uma gota? Esse raio de luz provoca-lhe o desejo do esplendor, assim como essa gota que lhe entornais nos lábios úmidos lhe desperta a sede de beber no manancial. Escutai agora os seus clamores no Apocalipse:

Et Spiritus et Sponsa dicunt: Veni – «O Espírito e a Esposa dizem: Vinde»

E o divino Esposo responde-lhe:

«Não tardo, presto irei» – Etiam venio cito (Ap 17, 17.20)

«Ó instante quase eterno!» – O modicam longum! (S. August., in Joan., Tract CL, n. 6)

E de novo clama e regime com ânsia maior:

«Vinde, meu Deus, vinde, que doloroso é o meu anseio» – Veni, Domine Jesu

Que suplício, divino Salvador! Quão extremamente severo é o Vosso amor para com ele! Eu sei que na cruz que lhe dais, «há uma dor que consola» – Ipse consolatur dolor (S. August., Epist. XXVII, n.° 1) e que o cálice da vossa paixão que a longos tragos lhe dais a beber, embora amargo para os nossos sentidos, dulcifica grandemente o seu espírito, desde que uma fé ardente e viva o convenceu da verdade das máximas do Evangelho; mas não é arrojamento dizer-Vos, ó divino Salvador, que essa maneira terna e afetuosa com que haveis tratado e Vosso amado discípulo, e esses misteriosos afagos com que Vos aprouve honrá-lo, exigiam de Vós uma prova que melhor evidenciasse a ternura do Vosso coração, e que afirmasse com mais nitidez essa gloriosa familiaridade que Vos dignastes dispensar-lhe. É isto que havemos de ver no Calvário, e no excelente dom que Ele lhe confere, e na última despedida que lhe faz.

SEGUNDO PONTO

Cristãos, coisa muito para encarecer-se é a amizade e muito para se estimar quando é verdadeira; mas nunca pode ser verdadeira a amizade quando se não mostra bem a vista e bem a descoberto; e não pode haver mais atormentada nem mais sentida amizade, que aquela que se vê escondida e não pode expandir-se. Força, porém, é confessar que, na ocasião em que é mister fazer despedidas, lhe imprime a dor da separação não sei que mágoa ou que tormento, que ela manifesta-se então o mais nuamente e o mais naturalmente que é possível imaginar. Por isso as últimas despedidas que se fazem às pessoas que vos são caras conseguem comover os corações mais insensíveis, deixando gravado no espírito de todos preciosas e eternas recordações.

Até nos testamentos nós vemos clausulas desta natureza. É que o amor, que em geral vive dos olhos, ao ver aproximar-se o momento fatal da derradeira separação, e receando, portanto, a sua perda total, vendo-se ainda privado a um tempo da conversação e da vista, reúne todas as forças dos seus sentimentos para viver e perdurar na lembrança, ao menos.

Mas vede que Jesus ainda neste momento não esqueceu o seu amor; porque, quando começou a amar os Seus, amou-os até final (Jo 13, 1), e porque, é pelo Seu amor que Ele verdadeiramente morre, também é na morte que o amor se manifesta mais forte e generoso. E é ainda certamente por esta razão que Ele conduz aos pés da cruz os dois entes que mais estremece no mundo, Maria, Sua divina mãe, e João, Seu fiel e Seu bom amigo, que, recobrado dos seus primeiros terrores, vem receber os últimos suspiros do seu Mestre, sacrificado para salvação nossa.

E agora dizei-me, irmãos, para que havia Cristo de chamar a Santíssima Virgem a esse espetáculo de verdadeira desumanidade? Foi para lhe assetear o coração e lhe dilacerar as entranhas? Foi para que os seus olhos maternais se apiedassem de ver correr-lhe das chagas horrorosas do seu corpo um sangue que Ela tanto prezava? E porque foi o mais querido de todos os Seus discípulos a única testemunha dos Seus sofrimentos? Com que olhos há de Ele ver esse peito sagrado, em que há dois dias repousava, arfar angustiadamente debaixo da opressão dos últimos suspiros, soltados por entre as dores mais atrozes e mais extremamente aflitivas? E no entanto, que prazer que sente o Crucificado, ao contemplar esse valido Seu, profundamente comovido com o espetáculo de tantos tormentos, com a ideia de ver morrer aos pés da cruz aquelas amoráveis carícias que ainda tão recentemente o tinham rejubilado! Se Ele, com efeito, lhe dedica os maiores extremos de afeto, porque não lhe evita aquela profunda mágoa? Haverá dureza da sua parte em lhe recusar esta graça? Oh! Não, cristãos, não há o fim do Salvador das almas é manifesto, e mister compreendê-lo. O fim para que Jesus quis que Maria e São João assistissem a Sua morte tão afrontosa, foi para que ali ambos recebessem, com a ternura do último adeus, os presentes que Ele pretende fazer-lhes, a fim de assinalar na morte o excesso do seu entranhado amor.

Mas que lhes há de Ele dar, nu, e completamente despojado como se acha? A soldadesca avara e impiedosa tudo lhe roubou, inclusivamente as vestes; e até para escarnio aviltante, jogou a Sua túnica misteriosa, não lhe ficando um hábito sequer para se enterrar. O próprio corpo já nem ao menos lhe pertence, porque o mártir, que é a vitima de todos os pecadores, dá a última gota do Seu sangue para os remir e para cumprir os decretos da justiça, divina. Pobre escravo, que já não tem em seu poder coisa alguma de que possa testar! Até perdeu seu divino Pai, a quem esteve tão estreitamente ligado, e por quem tantas vezes se glorificou; e nem o Eterno é já agora seu Pai, senão apenas o seu Deus, nem Ele já diz como noutro tempo:

«Tudo o que é vosso é meu»

Apenas lhe pede a esmola dum olhar: Respice in me; mas não pode obtê-lo, porque Deus o abandonou: Quare me dereliquisti? (Mc 27, 46). E assim, para qualquer lado que volva os olhos já nada vê que lhe pertença (não falo bem) vê Maria e São João; todos os mais da sua corte o abandonaram, e só eles ali estão para lhe dizer:

«Somos vossos»

São eles, portanto, o único bem que lhe resta e de que livremente pode testar. Mas a quem deve Ele legar senão a eles, e não só legar-lhes senão legados? Ó amor prodigioso e criador do meu Mestre! Cumpre legar-lhes e também legá-los. É mister legar Maria ao discípulo e o discípulo a divina Maria, Ego dilecto meo, et ad me conversio ejus (Ct 7, 10), dissera Cristo; e o discípulo diz-lhe agora;

«Mestre, eu sou o vosso servo, fazei de mim o que for da vossa vontade»

E Cristo responde:

«Filho, eis aí tua Mãe»

E logo dá Maria a João e João a Maria. Oh! Quão felizes vos deveis ambos considerar, por vos possuirdes mutuamente; pois não é menor prêmio ser legado do que receber o que nos legam, nem também vos enriquecem mais pelo presente que vos fazem do que pelo que fazem de vós.

Mas penetremos mais profundamente no segredo deste admirável mistério; e indaguemos pelas Escrituras qual é esse segundo nascimento que faz com que São João seja filho de Maria, e que nova fecundidade é essa que faz com que Maria seja mãe de São João.

Desvendemos os segredos duma teologia sublime, que tornará bem conhecida e bem evidente esta verdade. São Paulo, ao referir-se a Cristo depois do ultraje da Sua morte e da glória da Sua ressurreição, disse estas belas palavras:

«Daqui por diante já não conhecemos pessoa alguma corporalmente; e se a Cristo corporalmente conhecemos noutro tempo, agora, porém, que morreu e ressuscitou, já o não conhecemos deste modo» (Lc 2, 51)

Que querem dizer estas palavras, e qual é o juízo do Apóstolo? Quererá ele dizer que o Filho de Deus se privou na morte da carne humana, e que não mais a quis reaver na Sua gloriosa ressurreição? Não, irmãos, não é isto. É preciso dar outro sentido a essas belas palavras do divino Apóstolo, que tão maravilhosamente nos mostra a luz dos seus sentimentos. Mas não vos canseis a procurá-lo, porque o sentido é este: quer Ele dizer que o Filho de Deus, na glória da Sua ressurreição, mostra a evidência a verdade da carne, mas já sem a imperfeição mais ligeira; e para penetrarmos mais no recôncavo desta excelente doutrina, fiquemos sabendo que o Homem-Deus, que é Jesus Cristo, teve dois nascimentos e duas vidas, que são infinitamente diferentes.

O primeiro nascimento originou-se no seio de Maria, o segundo no seio do túmulo. No primeiro, nasceu do Espírito de Deus, e foi gerado por uma mãe mortal, donde proveio a Sua mortalidade; o segundo operou-se com a intervenção única do Pai celestial, por cujo motivo Ele foi considerado como um fato verdadeiramente glorioso. Deus providenciara para, que os Seus sentimentos se amoldassem a estas duas espécies de vida tão opostas, razão porque na primeira não julgou Ele indignos de si os sentimentos da fraqueza humana; mas na Sua bem-aventurada ressurreição santificou Deus com grande sublimidade todos esses sentimentos, e espargiu, sobre a humanidade que Ele tomou, tudo o que a divindade tem de mais augusto. Jesus, no convívio com os mortais, teve fome e sede, foi algumas vezes dominado pelo receio e aguilhoado pela dor, e a piedade constrangeu-lhe o coração, alterou-lhe o sangue e fez-lhe verter lagrimas.

Isto não me admira, cristãos, porque na mortalidade devia Ele passar dias de humilhação; mas durante os dias da Sua glória e da Sua imortalidade, após o segundo nascimento, em virtude do qual o ressuscitou seu Pai, para o fazer assentar a Sua direita, desapareceram de todo as fragilidades, e a onipotência divina, cobrindo-o com o manto da sua virtude, dissipou-lhe todas as fraquezas. Então começa Ele a obrar inteiramente em Deus, sendo incompreensível a maneira por que o faz, e não podendo os mortais explicar tão alto mistério senão com as palavras mais maravilhosas e mais sublimes que é dado imaginar. Resta-nos, pois, o arrojamento de clamarmos, com o incomparável doutor dos gentios, que se conhecemos Cristo corporalmente, na Sua vida mortal, nunc jam non novimus; agora, porém, que Ele gloriosamente ressuscitou, já não conhecemos deste modo, porque só divinamente o podemos imaginar.

Em face desta doutrina do divino Apóstolo, não recearei afirmar que Cristo ressuscitado considera Maria duma maneira diferente da que considerava como Cristo mortal porque a Sua mortalidade colocou-O na dependência da que lhe deu o ser, «e Ele era-lhe submisso e obediente» (Lc 2, 51), como diz o Evangelista; mas, por muito divino que fosse Jesus, sempre entrava no amor que dedicava a Sua santa Mãe esse temor filial e respeitoso que os filhos das pessoas de condição nunca perdem. Acompanhavam-no todas essas doces comoções e todos esses amoráveis cuidados, que um afeto verdadeiramente sincero imprime sempre nos corações dos mortais; e tudo isto ia de molde ao tempo de humilhação. Mas eis que Jesus é finalmente crucificado; e o tempo da mortalidade vai acabar, doravante vai começar a amar Maria de maneira diversa; o Seu amor não deixará de ser menos ardente, e enquanto Cristo for homem nunca olvidará essa Mãe virginal; mas depois da Sua bem-aventurada ressurreição, tem de dedicar-lhe um amor que convenha ao estado da Sua gloria.

E que virão a ser essas homenagens, essa deferência, esse requinte de lhaneza, esses particulares desvelos, e esses ternos cuidados que acompanhavam o Seu amor? Morrerão com Jesus Cristo? E Maria ficará deles privada para sempre? Não, porque a Sua bondade não o permite. Mas visto que, pela morte, vai passar a um estado glorioso, em que já não pode represar em si esses sentimentos consoladores, comunica-os a São João, forcejando por fazê-los reviver no coração do discípulo amado. E é o que quer significar o grande São Paulino com estas eloquentes palavras (Epist., L. n. 17):

Jam scilicet ab humana fragilitate, qua erat natus ex faemina, per crucis mortem demigrans in aeternitatem Dei, ut esset in gloria Dei Patris, delegat homini jura pietatis humanae – «Prestes a passar, em virtude da morte, da cruz da fragilidade humana a glória e a eternidade de seu Pai, delega a um mortal os sentimentos da humana piedade»

Toda a ternura e respeito que o Seu amor dispensava a Sua Santíssima Mãe hão de viver agora no coração de João, porque ele será o filho de Maria; e para eternamente estabelecer entre eles essa aliança misteriosa que os há de glorificar aos olhos de Deus, dirige-lhes do alto da cruz palavras sublimes e generosas, não com aquela expressão trêmula que entremostra o paciente quando está para soltar o último suspiro, «mas com toda a energia dum homem cheio de vida e com toda a firmeza dum Deus que sabe que há de ressuscitar» – plena virtute viventis et constantia resurrecturi (Idem). E então Jesus, que tem o poder de mover os corações como Lhe apraz, com toda a onipotência da Sua palavra, opera neles tudo o que satisfaz a Sua infinita bondade, e é assim que diz a Maria que seja mãe de João, e a João que seja filho de Maria.

E quem poderá agora bastantemente exprimir a ação enérgica dessas palavras no espírito dum e doutro? Antes disso, estavam regemendo aos pés da cruz, com as almas despedaçadas pelo horror das chagas de Cristo, e os corações quase insensíveis pela extrema violência da dor; mas quando ouviram a voz moribunda de Jesus pronunciar amargamente o último adeus, de novo foram alanceados os seus corações até a última fibra, todas as entranhas de Maria se dilaceraram com a mais pungente e a mais cruciante das dores humanas, e não houve uma só gota de sangue no coração de João que naquele momento se não abalasse profundamente, e não ficasse paralisada por uma dor crudelíssima. A impressão que aquele adeus angustioso lhes deixou no mais recôncavo das almas, foi a mesma que nelas, deixaria uma seta bem aguçada que as transpassasse com a mais profunda ânsia; mas era mister que essas almas asseteadas forcejassem por rebater a amargura cruenta com que os acicates da dor as tinham assoberbado, entreabrissem nos corações passagem ao filial respeito e a ternura maternal; mais claramente: ao respeito de João, como filho, devido a Maria; e à ternura de Maria como mãe, devida a João.

Aqui temos nós, portanto, agora Maria mãe de São João. Dando que o seu amor maternal, habituado a dedicar-se a um Deus, tenha dificuldade em se dedicara um homem, e que semelhante desigualdade pareça antes recriminar-lhe o seu infortúnio do que recompensá-la da sua perda, enternece-a, contudo ainda o adeus de seu filho, e o amor que o Salvador professou a São João modificou-o de tal maneira que Maria não se ilude quando nele quer buscar a imagem de Cristo. Grande e incomparável ventura é a desse discípulo amado! Com que dons não o há de ter exornado o Salvador, e para fazê-lo, digno de substituir o seu lugar? Se o amor dedicado à Virgem Maria pôde deixar no discípulo o retrato fiel da Sua divina pessoa, que imagem viva e natural não lhe deve ele ter imprimido para que ela cuide ver no rosto de João a figura de Cristo? Que sublimidade não deve ler a fisionomia de São João, destinado a viver na terra para nela ser o legítimo representante do Filho de Deus depois da Sua morte, representante tão legítimo e tão perfeito que consegue suavizar a dor e iludir, se é possível, o amor de Sua Santíssima Mãe pela ingenuidade da semelhança? Mais. Que manancial de graças canalizava todos os dias para Ele o amor maternal de Maria, e o desejo que nela despertara de formar a Cristo na pessoa de São João? Mais. Como se ateavam todos os ardores da sua caridade pela casta comunicação dos que fermentavam no coração de Maria? E a que perfeição atingia a estremada castidade de João, continuamente purificada pelos olhares modestos da Virgem e pela sua conversação angélica e arrebatadora?

Vejamos agora, cristãos, qual é a força e o império da castidade. É ela que granjeia a São João a familiaridade do Salvador; é ela que o faz digno herdeiro do seu amor dedicado a Maria, e que o considera seu legítimo sucessor em tudo a ponto de o honrar com a sua semelhança; é ela que o faz aquinhoar de Maria Santíssima, dando-lhe uma Mãe virginal e cheia de graça; e é ela, finalmente, que lhe abre o coração de Jesus, testemunhando-lhe a posse de todos os bens que Ele lhe legou.

TERCEIRO PONTO

Cristãos, como já disse, não se satisfaz o Salvador com dar a São João todos os seus dons; quer também dar-lhe a origem deles. Ora, como todos os dons provêm do amor, foi, portanto o amor que Ele generosamente lhe deu; e como o amor nasce no coração (2), também lhe dá o coração, como sendo a árvore de todos os frutos, que ele já anteriormente havia recebido.

«Vem, ó meu discípulo amado, diz Ele, foi a ti que, antes do princípio do mundo, te escolhi para seres o ministro da caridade; vem libá-la à sua fronte sagrada, vem receber a unção das suas palavras com que tu hás de enternecer os meus fiéis; aproxima-te deste coração que apenas entorna amor no coração dos homens e para melhor compreenderes a força do meu amor, vem sentir de perto os ardores que me consomem»

Assim falou Jesus ao seu discípulo, que teve a glória de o ouvir, embevecido nas suas palavras.

Eu não me alongarei a contar-vos miudamente as glórias de São João; mas ele, que é o herói de todas elas, bem é que nos abra esse coração de Jesus, e que nos mostre todos os seus movimentos, que apenas a caridade excita. Assim o fez em todos os seus escritos, pois todos os escritos de São João timbram em explicar o coração de Jesus. Nesse coração está o resumo de todos os mistérios do Cristianismo, que são mistérios de caridade que no coração se originam; é um coração, para assim dizer, todo feito de amor; e todas as palpitações e todos aqueles latejos são produzidos unicamente pela caridade. Quereis que São João vos revele todos os segredos desse coração? Para isso, remonta Ele «ao principio», In principio (Jo 1, 1), chegando depois a esta conclusão: Et habitavit (Idem, 14) – «E habitou entre nós». Que coisa é que o fez assim habitar conosco? É claro que foi o amor.

«Foi desta maneira que Deus amou o mundo» – Sic Deus dilexit mundum (Ibid., 3, 16)

E foi, portanto, o amor que O fez baixar a terra, para se revestir da natureza humana. E que coração deu Ele a essa natureza humana, senão um coração todo feito de amor?

Deus, que forma todos os corações como Lhe apraz, governa o coração de todos os homens com extremada sabedoria, tanto de vassalos como de reis; mas o coração que Ele governa de mais perto, regulando-lhe todos os movimentos, ordenando-lhe todos os impulsos, com tal arte e com tal rigor e tão de perto a ponto de o ter na mão, é o coração de Jesus, do Filho amantíssimo do Eterno.

Cor regis in manu Dei est – «O coração do rei está na sua mão» (Pv 21, 1)

A palavra regis refere-se ao Rei Salvador, e a mais nenhum outro rei. Mas que fará o Verbo divino ao fazer-Se homem? Que rerá fazer o mesmo que o comum dos mortais? Oh! De modo nenhum. Formará, pelo contrário, um coração onde imprima essa caridade infinita que O obrigou a vir ao mundo, num coração exemplar, onde tudo o que é terno, tudo o que é bom e humano, contribua para formar um Salvador que profundamente se confranja com todas as misérias, e a quem seja insuportável o extravio das ovelhas dispersas. Um coração que tenha incrustado em si um amor tal, que o faça percorrer o mundo inteiro com risco da própria vida, que lhe faça vergar os ombros para sobre eles carregar com a ovelha que andava transviada, um coração magnânimo que o obrigue a soltar estes brados:

«Se alguém tiver sede, venha a mim, que eu lhe darei de beber» – Si quis sitit, veniat ad me (Jo 7, 37)

«Vinde a mim todos os que estais cansados, e eu vos aliviarei» – Venite ad me, omnes qui laboratis (Mc 11, 28)

«Vinde, pecadores, que é a vós que eu procuro»

Um coração, enfim, altruísta que o leve a dizer:

«Eu dou a minha vida porque me apraz» – Ego pono eam a meipso (Jo 17, 23)

«Tenho um coração amoroso que faz com que entregue o meu corpo e alma a todas as espécies de tormentos»

Ora este, irmãos, é que é o coração de Jesus; este é que é o mistério do Cristianismo, que tão sublimemente se acha compendiado na fé por estas palavras:

«Quanto a nós, cremos firmemente no amor que Deus nos tem» – Nos credidimus charitati quam habet Deus in nobis (1Jo 4, 16)

É esta também a profissão de São João. Porque não crê o Judeu no nosso Evangelho? Reconhece-lhe o poder, mas não acredita no amor, nesse amor extremo que Deus nos dedicou a ponto de nos dar seu Filho. Quanto a mim, basta-me crer na sua caridade, e nada mais. Creio que se fez homem, creio que morreu por nós, e creio no seu amor, porque quem ama verdadeiramente por tudo se sacrifica: Credidimus charitati ejus.

Mas, a crermos em tudo isto, irmãos, bem é que o imitemos. Nesse coração de Jesus, que abrange todo os fiéis, estamos nós todos reunidos, «para sermos perfeitos na vida unitiva» – Ut sint consammati in unam (Jo 17, 23). Estas palavras proferidas tão generosamente por Jesus, dirigindo-se ao Eterno: «Pai, aqueles que me deste, quero que, onde eu estiver, também eles estejam comigo» – Volo ut ubi sum ego, et illi sint mecum (Idem, 24), estas palavras foram inspiradas exclusivamente pelo coração. Ele não abre de Suas mãos os seus; chama todos para viverem no Seu seio, e todos nos devemos amar «nas entranhas da caridade desse divino Salvador» – In visceríbus Jesu Cristi (Fl 1, 8).

Tenhamos, pois, um Coração como o de Jesus Cristo, um Coração generoso, que não exclui pessoa alguma do Seu amor; e deste amor recíproco há de formar se uma corrente de caridade que partirá do coração de Jesus para todos os outros, a fim de os ligar e os unir inviolavelmente. Não a quebremos, recusando a qualquer dos nossos irmãos a entrada nessa santa união da caridade de Cristo. Todos cabem nesse glorioso recinto. Livramo-nos, portanto, sem zelos, dos bens que ela nos proporciona, porque não os perdemos se os comunicarmos uns aos outros, mas antes, os ficamos possuindo com maior segurança; e até se nos hão de multiplicar tanto mais copiosamente quanto mais generosamente os desejarmos dividir com os nossos irmãos. Não tentes, pois, subtrair teu irmão do Coração de Jesus, porque Ele, conhecendo-te o intento, expulsar-te-á para logo.

Não consente no seu seio divino fraqueza alguma que não seja primeiro separada pela caridade que nos anima. Amemo-nos, pois, no Coração de Jesus.

«Deus é a caridade, e quem persevera na caridade habita em Deus, e Deus nEle» (1Jo 4, 16)

Ah! Quem me dera amigos a quem amasse verdadeiramente pela caridade! Quando lhes abro as portas do meu coração, é o mesmo que abri-las à caridade de Deus.

«Não é, porém, a um homem que eu tão livremente o franqueia, senão Aquele em quem ele habita como tal; e, na minha justa franqueza, não tem esses arrojamentos tão mudáveis da inconstância humana» – Non homini committo, sed illi in quo manet ut talis sit. Nec in mea securitate crastinum illud humanae cogitationes incertum omnino fornido. É assim que se amam os espíritos bem-aventurados

O amor que intimamente os une entre si afervora-se cada vez mais nesses mútuos raptos dos seus corações; e eles amam-se em Deus, que é o centro dessa união, e amam-se à conta de Deus, que é todo o bem que possuem. Amam a Deus em cada um dos seus concidadãos, que sabem não se engrandecerem senão em honra dEle, e vivamente sensíveis a felicidade dos seus iguais, rejubilam de gozar neles e por eles glórias que não teriam isoladamente, ou para melhor dizer, que as teriam infinitas se isoladamente vivessem, porque a caridade apropria-lhes a universalidade dos dons de todo o corpo e consome-os nessa unidade sacratíssima que, absorvendo-os em Deus, os faz senhores dos bens de toda a cidade celeste.

Sejamos, pois, irmãos, participantes neste mundo da beatitude celeste, amando-nos; deixemos penetrar grandemente em nossos corações a caridade fraternal que, na dulcidão do seu influxo, nos dará o antegozo dessas delícias inexprimíveis que fazem a felicidade dos santos; a caridade que há de enriquecer a nossa pobreza, dando-nos todos os bens comuns, e forma de nós todos uma alma una e um uno coração e que começará também em nós essa unidade divina, que constituir a nossa eterna ventura e que em nós há de ser perfeita, quando o amor, depois de haver transformado integralmente toda a nossa potência, for tudo em todos, à semelhança de Deus.

Referências:

(1) De Genes., contra Manich., lib. I, Cap. VIII, n. 13

(2) Nota do Tradutor – Vieira, o Bossuet português, dá antes os olhos para berço do amor, o que, no nosso humilde sentir, parece ter mais razão de ser.

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(BOSSUET, Jacques-Bénigne. Sermões de Bossuet, Volume II. Tradução de Manuel de Mello. Casa Editora de Antonio Figueirinhas 1909 – Porto, 1909, Tomo II, p. 59-84)