I. Bem-aventurança dos Santos. Realização da Obra de Deus

I. Sermão para a Festa de Todos os Santos

SUMÁRIO

Bem-aventurança dos santos, realização da obra de Deus. Glória de Jesus Cristo e o amor de Deus Pai a iluminá-los. Ego claritatem quam dedisti mihi, dedi eis (Jo17, 22). Dilectio qua dilexisti me in ipsis sit, et ego in eis ( Jo 17, 26)

Deus ampliará as almas para que possam ter uma felicidade, suprema e uma alegria sobrenatural. Advocabit cœlum desursum et terram discernere populum suum (Sl 49, 4)

Omnia vestra sunt, vos autem Christi
Tudo é vosso e vós sois de Jesus Cristo, diz São Paulo falando aos justos.
(I Cor. 3, 22-23)

Nunca viveríamos, como vivemos, num tão claro desprezo dos interesses da nossa salvação, se gastássemos a pensar nas grandezas da eternidade metade do tempo que inutilmente dispendemos com os interesses vãos deste mundo.

Mas precipitou-nos nesta desgraça o nosso pecado. Não bastou ter-nos feito perder o reino celestial em cuja posse nos ensinaram a ter esperança. Despojou-nos por tal forma da firmeza de ânimo, que quase nem nos atrevemos já a aspirar à conquista desse reino seja qual for o auxílio que nos prestem para nele entrarmos.

Dessa ideia resta-nos simplesmente uma pálida lembrança e, se alguma recordação dessas pode sobreviver mais clara em ruína tão comum, ela, senhores, não tem a força bastante para comover-nos. Penetra-nos menos do que as fantasias dos nossos sonhos.

Daí resulta o concebermos sempre incompletamente quanto diga respeito à vida eterna cujas verdades não se radicam já nas nossas almas, de tanto que se aferram às ilusões dos sentidos.

E assim nos parecemos com aqueles loucos que, sem atentarem nos grandes desígnios por Deus concebidos para os seus santos, se julgavam condenados ao mesmo destino dos ímpios, por os verem sujeitos à mesma necessidade da morte. Videbant finem sapientis, et non intelligent quid cogitaverit de eo Dominus (Sab 4, 7).

Querereis vós, meus senhores, que, para evitarmos este juízo duro, meditemos sobre os tão admiráveis desígnios de Deus para com os bem-aventurados no dia em que a Igreja os saúda pela sua felicidade?

Porque, se tanto posso afirmar, a alegria imensa em que eles vivem só lhes permite estabelecer alguma diferença entre as vantagens da sua eleição por amarem acima de tudo a sua bem-aventurança, razão esta que também mais deve acrisolar a nossa coragem.

Falemos, pois, senhores de tão admiráveis desígnios.

Fazendo-o, descobriremos os maiores segredos das breves palavras-do Apóstolo por mim dadas como texto e assim todo o meu sermão consistirá na explicação dessas quatro ou cinco palavras.

Veremos como Deus colocou os Santos acima de todas as suas obras e como pensou neles em todas as suas empresas: Omnia vestra.

Teremos ensejo de explicar por que meios Deus tão intimamente legou os Santos à pessoa de seu Filho: Vos autem Christi.

E, depois disto, que nos cumprirá fazer senão considerar, quanto possível, a execução destes grandes desígnios de Deus? Imploremos, pois, etc.

PRIMEIRO PONTO

Sendo Deus, na sua categoria, único e incomparável, e nada vendo que não lhe seja infinitamente inferior, nada pode ver digno da sua estima que não lhe diga respeito. Portanto, nada, como Ele próprio, merece ser o fim das suas ações. Mas as suas riquezas não aumentarão, por mais que Ele se considere em todas as Suas obras. E, se, pela Sua grandeza, tem de ser Ele o único centro de todos os Seus desígnios, é porque só Ele constitui a Sua própria felicidade. Por isso, por mais grandiosas e belas obras que Deus produza, em toda a Sua omnipotência, não colhe outro bem que não seja o de beneficiar os outros. Nada mais pode ganhar do que o título de benfeitor. E os interesses das criaturas andam tão afortunadamente ligados com os Seus, que, assim como os Seus benefícios redundam em Sua glória, assim não pode ter glória maior do que conceder esses benefícios. Só por isto nós ousamos rogar-lhe graças extraordinárias.

Por esta razão nos atrevemos a esperar dEle milagres, às vezes, porque o nosso progresso é inapartável da Sua glória e porque o natural de Deus é tão magnânimo, que o Seu maior prazer é ser generoso. Isto vemos nós provado no Gênesis, quando Deus, depois de ter criado tão belas criaturas, se põe a contemplá-las uma após outra. Se víssemos fazer o mesmo a qualquer outro artista, indubitavelmente julgaríamos que examinava as suas obras para lhes descobrir os defeitos cometidos apesar do seu cuidado. Mas, com respeito a Deus, ou às suas obras, seria sacrílego tal pensamento.

Não, meus senhores. Deus trabalha sobre um original infinitamente belo e com arte infinitamente perfeita para que pudesse corrigir as Suas obras. E por isso, contempladas elas, vemos que nada teve que aperfeiçoar: Et erant valde bona. Pelo que, se nos é licito devassar os Seus desígnios, o contemplar as Suas obras significa o querer ter o gozo da sua liberalidade. É, portanto, verdadeiro, e podemos afirmá-lo com testemunho tão alto, que nada é mais digno da sua grandeza nem mais consentâneo com o seu gosto do que comunicar-se às Suas criaturas.

Ora, se assim é, será licita a dúvida de que Deus tenha preparado para os seus Santos deslumbrantes maravilhas? E, se Ele tanto se desvelou pelas naturezas carecidas de razão e de conhecimentos, dando-lhes com tanto afeto a Sua benção e ligando-as por tão belas qualidades ao seu Ser, não é de supor que terá reservado grandes dons àqueles para quem Ele construiu o Universo?

Porque, além do mais; não posso crer que tivesse complacência em derramar os Seus tesouros por criaturas, só capazes de receberem os benefícios e incapazes de os agradecerem e até de verem a mão que as embelezar.

Se há prazer e glória em dar, só pode havê-los, beneficiando pessoas que, pelo menos, conheçam as graças que lhes dispensam. É certo que as criaturas mais insensíveis possuem admiráveis predicados, mas isso mesmo me convence de que as fez Deus tão perfeitas só para as dar a quem o mereça.

Ora, se só as criaturas inteligentes podem conhecer o valor dos benefícios de Deus, só elas têm a capacidade de os receber e só elas podem abençoar o seu benfeitor. É indubitável, pois, que só para elas foram criadas aquelas criaturas insensíveis. A ordem da Providencia de Deus faz-nos aceitar esta verdade, porque o primeiro anelo do Criador é a manifestação do Seu nome. E isto requeria que primeiro visse quais as naturezas que poderiam conhecer, e, como só por elas começava os seus desígnios, tinha de formar todos os demais desígnios sobre este primeiro plano para que todos os elementos tivessem mútua e íntima relação.

Por isso, depois de ter querido baixar às criaturas, dignas de O conhecerem, um clarão da inteligência infinita que nele reside, Deus imprimiu no número imenso doutras criaturas diferentes caracteres de bondade, para que, dando umas almas a matéria para os louvores e concorrendo outras com a inteligência e com a voz, se formasse um concerto de todos os seres que compõem o mundo, proclamando, noite e dia, as grandezas do Senhor de todas as coisas.

Para realizar este desígnio, preparou para os seus Santos uma vida serena e imortal, temendo que qualquer incidente pudesse interromper o sacrifício de louvores por eles continuamente oferecidos à sua Majestade. E por isso Deus lhes fala sem a intervenção das suas criaturas, porque pretende arrancar-lhes dos lábios louvores mais dignos dEle. E, para que os Seus interesses vivam eternamente consubstanciados com os dos Seus escolhidos, não só lhes aparecerá como realmente é, para lhes dar um profundo sentimento da sua Majestade, mas torná-los-há felizes na contemplação da Sua infinita beleza.

Que mais vos direi?

Deus eleva os seus Santos acima do que nós podemos imaginar de maior, para colher assim mais glória do seu afeto. Como seria pouco ser louvado por homens, faz deles deuses e assim se comprazerá com os seus louvores.

Emfim, Deus, Nosso Pai, para satisfazer a vontade de firmar a Sua glória na magnificência, criou um povo inteiro para Si, povo em que reina mais pelos benefícios do que pelo poder, e ao qual se dará Ele mesmo, por não ter nada melhor para dar-lhe.

Ponderado isto, julgo não ser difícil concluir que Deus fez tudo para a glória dos seus Santos. Ainda que só tivessem a glória de lhe estarem ligados tão de perto, toda a restante Humanidade devia submeter-se ao império deles. E, por mais singular que esta graça nos pareça, não devemos furtar-nos todos ao império dos bem-aventurados, se eles tiveram a felicidade de nascer para possuírem Deus. E, porque assim é, o mais veemente desejo dos Santos é servirem o Criador; todos os esforços das coisas naturais é, segundo o Apóstolo, dar ao mundo filhos de Deus. E eis a razão por que no-los descreve como «nas dores do partos»: omnis creatura parturit.

Lastimam as criaturas constantemente a desordem do pecado que lhes ocultou os verdadeiros herdeiros do seu Senhor, confundindo-os com os alvos da sua cólera. Tudo que podem fazer é esperar que Deus separe os bons dos maus no grande dia do Juízo Final: Omnis creatura ingenúscit et parturit usquc adhue, revelationem filiorum Dei expectans (Rm 19, 22).

E, nesse dia, meus senhores, Deus que lhes deu esse impulso para que a Sua afeição pelos Santos seja conhecida por todos, chamará o céu e a terra para julgar o seu povo: Advocabit coelum desursum et terram discernere populam suum (Sl 49, 4).

E o céu e a terra lá irão com Deus a combater contra os insensatos (Sab 5, 21) e mais ainda para reduzir à obediência todos os Seus filhos. Porque, entretanto, havendo alguns com o cunho visível de Deus vivo nas frontes, ver-se-hão as feras mais sanguinárias rojadas aos pés deles, as chamas retirarem-se com medo de os molestarem, e uma impaciência estranha fará em mil estilhaços as rodas e cavaletes destinados aos seus martírios.

Como não seria, pois, tudo para a glória dos Santos, se os perseguidores deles os coroam e as suas vitórias são os próprios tormentos? Só na humildade são honrados: é só a fraqueza que os torna poderosos. E «os próprios instrumentos do seu suplicio são, empregados na pompa do seu triunfo»: Transeunt in honorent triumphi etiam instrumenta supplicü. (S. Leo, Serm. LXXXIII, cap. V).

Por isso, o Filho de Deus, na última sentença que há de determinar, para sempre o último estado de todas as criaturas, as chama ao reino que lhes é preparado desde a criação do mundo. E, contudo, foi feito ao mesmo tempo que o paraíso, como houve logo condenados e bem-aventurados.

É indubitável, pois, que o nosso juiz pretende ensinar-nos que a criação do mundo foi apenas um preparativo da grande obra de Deus, cujo remate será a glória dos Santos. Quando Ele dizia: «Vinde, bem amados de meu Pai, que tudo criou para vós», mal acabava de erguer os alicerces deste universo, e já começava a pensar na vossa glória: a constitutione mundi (Mt 25, 34) e nada mais fazia do que preparar-vos o vosso reino: Venite, benedicti Patris mei (Mt. Ibid.)

Nisto, meus senhores, se me afigura haver bastantes estímulos para as almas menos generosas. Que pensais vós desta honra? Achais pouco, em vosso juízo, serdes o fim das obras de Deus, o último alvo da Sua omnipotência, repousando depois toda a eternidade?

Haverá nisso com que satisfazer a Sua natureza infinita.

Ele, que julgou empresa indigna dEle a criação do Universo, ficará satisfeito completando o número dos Seus eleitos. E toda a eternidade lhes dirá: Eis a minha obra. Vede. Não tiveram o melhor êxito os meus desígnios? Podia eu almejar fim mais excelente?

Mas dir-me-heis vós: Como é possível que todos os desígnios de Deus se limitem aos bem-aventurados?

Não é Jesus Cristo o primogênito de todas as criaturas? Não foi criado nEle tudo que há de visível e de invisível? Ele é a consumação de todas as obras de Deus. E, sem irmos mais longe, as palavras do meu texto fazem-nos ver com bastante clareza que não são os Santos o fim que Deus se propôs em todas as Suas obras, por que eles mesmos só o são para Jesus Cristo: Vos autem Christi (Cor. 3, 23).

Tudo isso é verdadeiro, meus senhores. Contudo, segundo a minha opinião, isso mesmo é a melhor confirmação de tudo quanto acabo de dizer. O mesmo Apóstolo que diz ser tudo para Nosso Senhor, diz que é tudo para os eleitos. E não só o diz, deu-nos uma admirável doutrina para o compreendermos. Ensina-nos ele que Deus, para poder dar esta prerrogativa ao seu Filho sem derogar nada do que preparava para os seus Santos, achou o meio de unir tão sutilmente os seus interesses, que ficaram comuns as graças e bens deles (Rm 8, 28). E é isto que devo explicar em poucas palavras.

Se Deus me conceder a graça de poder dizer algo que se aproxime de verdades tão altas, ficaremos assombrados com a Sua afeição pelos santos e com a grandeza a que Ele os chama.

SEGUNDO PONTO

Tendo o Eterno Pai dado ao seu Filho todas as riquezas da divindade, quis que todos os povos nEle fossem abençoados. E, como Ele lhe deu as luzes mais puras, estabeleceu esta lei universal, que nenhuma graça haveria sem dEle provir. Por isso o filho, de Deus disse a seu Pai, que dera aos justos a mesma claridade que de seu Pai recebera: Ego claritatem quam dedisti mihi, dedi eis (Jo 28, 22).

E assim, como vedes, compara a santidade à luz para compreendermos que ela é una e indivisível e que assim como os raios do sol, incidindo sobre um corpo, lhe dão na verdade novo brilho e nova beleza, mas que não passam duma impressão da beleza do sol e duma efusão da luz original nele residente; assim a justiça dos eleitos é só a justiça de Nosso Senhor a derramar-se neles sem se separar da sua origem, de maneira que o esplendor deles é só a do Filho de Deus e são cercados da glória dEle, e, para falarmos como o Apóstolo, são todos revestidos por Jesus Cristo. O espírito de Deus, meus senhores, «esse imenso espírito que em si tudo compreende»: hoc quod continet omnia (Sab 1, 7), incide sobre eles para lhes dar uma vida comum. Vai-os penetrando, até ao fundo das almas; e, dentro deles, trabalha incessantemente até deixar a luz de Jesus Cristo.

E, como é de força invencível, liga-os a Si por uma união incomparavelmente mais íntima do que a estabelecida nos nossos corpos pelos nervos e pelas cartilagens, os quais, ao menor esforço, se quebram e distendem.

E é esta milagrosa ligação que faz com que Jesus Cristo seja toda a sua vida: Christus vita vestra (Cl 3, 4). Eles são «o seu corpo e a sua plenitude»: corpus ejus et plenitudo (Ef 1, 23), como diz o Apóstolo São Paulo, que é o mesmo que se dissesse faltar qualquer perfeição ao Filho de Deus, se o separassem dos eleitos, o que o mutilaria.

E é por isso que o Divino Mestre, na admirável oração que fez para os seus Santos, como se lê em São João, 17, os recomenda a seu Pai não como Seus, mas como Ele mesmo.

«Quero, dizia ele, que em toda a parte onde eu esteja estejam comigo os meus amigos» – Volo, Pater, ut ubi sum ego, et illi sint mecum

Dir-se-ia que Ele não pode passar sem eles, e que o Seu reino lhe não agradaria, se os não tivesse consigo e se Ele não fizesse deles um pedaço de Si próprio. Não quer até que seu Pai os distinga dEle na Sua afeição. Constantemente lhes significa que Ele está neles e eles nEle, que com Ele se devem confundir, formando com Ele a mesma perfeita unidade que faz com seu Pai. E parece temer que estabeleçam qualquer diferença:

Ego in eis et tu in me, ut sint consummati in unum ut sciat mundus quia dilexisti eos sicut et me dilexisti (Jo 23)

E, pouco depois:

Dilectio qua dilexisti me in ipsis sit, et ego in eis (Ibid. 26)

Eu estou neles e vós em mim, para que tudo se reluza à unidade e para que o mundo saiba que não
fazeis a menor distinção entre nós, que os amais e zelais como a mim mesmo.

Ouvindo estas palavras, meus senhores, quem será tão empedernido, que se não comova?

E são tão dignificantes para nós, que seriam injuriosas para o Divino Mestre, se Ele as não tivesse proferido. Mas quem pode duvidar de tal prodígio? E, se, a princípio, nos assaltam as duvidas, não será demais a Sua palavra para vê-las destruir?

Confiemos tenazmente nesta promessa e deixemos ao cuidado do Eterno Pai o velar pelos interesses de seu Filho; Ele saberá dar-lhe a categoria devida à Sua natureza e ao Seu mérito sem violar a unidade que Ele próprio lhe pediu com tanta instância.

Como uma boa mãe que, tendo o seu querido filho entre os braços, o acaricia em diferentes partes do corpo, segundo os sentimentos que a comovem, enfeita mais umas do que outras, conservando-as com mais transporte, apesar de animada pelo mesmo amor, assim o Eterno Pai, sem dividir o amor que tem em comum ao seu Filho, e aos Seus membros, sabe dar-lhe a predominância de chefe.

E, se algum reparo há a fazer neste exemplo, meus senhores, é que a união dos Santos com Jesus Cristo é muito mais intima, porque empregará para a fazer não só a Sua mão omnipotente como esse espírito vinculador que os Santos Padres chamaram o laço da Trindade.

Dizei-me o que vos aprouver da grandeza, das vitórias, do sacrifício do Divino Mestre; eu confessarei tudo isso, meus senhores, e ainda confessarei mais, porque nunca diremos o bastante em Sua glória. Mas continuarei a sustentar que aquele que não aspira ao mesmo reino, que não leva a sua ambição até ás mesmas honra, que não espera a mesma felicidade, não é digno do nome de cristão, nem de ser lavado com o sangue, nem de ser animado pelo espírito de Jesus Cristo.

Por quem venceu Ele, senão por nós? Não foi por nós que se imolou? Pertencia-lhe a Sua glória por direito de nascimento e, se tinha alguma coisa a conquistar, eram os fieis, que Ele chama povo de aquisição.

Avaliaremos nós quanto Ele sabe o que é devido às Suas vitórias?

Ouçamos como Ele fala no Apocalipse (Ap 3, 21):

«Venci. Sentei-me como um triunfador à direita de meu Pai e quero que os que subiram em meu nome se sentem no mesmo trono que eu» – Qui vicerit, dabo ei ut sedeat in throno meo.

Sereis capazes de supor união mais perfeita ?

Não se contenta com transportar-nos ao mesmo reino e associar-nos ao Seu império. Quer que nos sentemos no Seu trono, não por que o deixe para no-lo dar (não o quereriam os Santos com essa condição), mas para nesse trono com Ele reinemos eternamente.

E como havemos de explicar isto, senão dizendo que somos o mesmo corpo e que não se deve estabelecer a menor diferença entre Ele e nós?

Sendo tais os grandes desígnios da Providencia a respeito dos bem-aventurados, interessando-se Deus em pessoa pela grandeza deles, tomai cuidado, meus senhores, ao ouvirdes falar do reino dos céus, em o não representardes como as coisas que impressionam os sentidos, ou como os prazeres enfermos que mais iludem, do que satisfazem, a nossa imaginação.

Tudo nos parecerá novo no reino dos céus, nada teremos nunca que lhe seja semelhante: Nova facio omnia (Is 43, 19; Ap 21, 5).

Como Deus, sem olhar ao número das Suas obras, não verá senão o que delas pode fazer; como não seguirá mais a Sua natural disposição e tirará as leis só do Seu poder e amor, seria tão temerário pretendermos conceber o que faz no íntimo dos eleitos como pretender compreender a Sua omnipotência.

Colocar as coisas no estado natural em que as vemos seria bom para começar as obras de Deus. Mas, se Deus quer fazer, dos Santos, alguma coisa dEle digna, trabalhará in manu potenti et brachio extento (Dt 5, 15), quero dizer, de braço estendido, volteando as coisas por forma que as afeiçoe à Sua semelhança, e só atendendo à Sua natural disposição o preciso para as não forçar. E então dará o impulso magistral que há de tornar os Santos assombrados para sempre com a Sua própria glória. De tal maneira ficarão enriquecidos com os benefícios de Deus, que a eternidade mal chegará para completamente O reconhecerem. Onde estará o corpo outrora sujeito a tantas enfermidades? Onde aquela alma de faculdades tão limitadas?

Ser-lhes-há incompreensível que ela seja capaz de tantas maravilhas. A sua alegria será excessiva para ter os vulgares meios condutores. Será por isso que Deus os ampliará, dando-lhes, por assim dizer o seu espírito tanto como lhes dará a gozar a sua felicidade.

Ponderai um momento, eu vo-lo peço, o que será esta bem-aventurança. Nada pode encontrar a nossa alma nesta carne mortal que a satisfaça. A carne é dum humor difícil. Acha sempre que exigir.

Que alegria ter encontrado um bem infinito, uma beleza completa, um objeto que docemente se apodere da sua liberdade, que encontre para sempre todas as suas afeições, sem que o menor desejo venha perturbar ou interromper a sua felicidade!

E que pode ela conceber de maior de que possuir quem a possui, do que pertencer-lhe quem a domina? Porque nada é mais dela do que o que lhe serve de recompensa, tanto como a recompensa está ligada, a uma ação cujo domínio lhe pertence.

Como a alma louva a Deus por a ter guiado tão bem, por ter operado nela tantas maravilhas, ao mesmo tempo que o próprio Deus a louva!

Cantarão ali sempre, Senhor, os Vossos louvores; não falarão nem pensarão senão nas Vossas maravilhas; nunca se cansarão de falar da magnificência do Vosso reino:

Magnificentiam gloriae sanctitatis tuae loquentur, et mirabilia tua narrabunt (Sl 144, 6)

E vós não vos cansareis de lhes dizer que bem procederam, falar-lhes-eis dos seus trabalhos com ternura de pai, e por parte de Deus e das almas, a eternidade decorrerá em congratulações perpétuas. Oh! Como lhes parecerá pequena a terra! Como se rirão das vãs alegrias deste mundo!

E bastará isto, meus senhores, ou será preciso mais para estimular-vos? Que mais seria preciso para que o Eterno Pai a Si nos atraísse?

Chama-nos ao reino do seu Filho único, a nós que não passamos de Seus servos, e inúteis. Não quer ter segredos nem reservas para nós. Abandona-nos o objeto que lhe dá a felicidade. Sendo nós cinza e podridão, faz-nos companheiros da Sua glória e, em troca disto, apenas nos pede o nosso amor e pequenos serviços que lhe são devidos pelos inúmeros benefícios que lhe devemos, serviços excessivamente pagos pela menor das Suas graças.

E, contudo, quem o acreditaria, se uma dolorosa experiencia não no-lo ensinasse?

O insensato não quer aquelas grandezas. É tão ardente no seu amor pelos prazeres mortais, como se não tivesse nascido para uma eterna glória. E, como se quisesse ser feliz pelo seu Criador, acha, à procura da felicidade, um caminho diametralmente oposto ao que Deus lhe prescreve e só sente alegria, opondo-se à Sua vontade. E a sua loucura ainda seria desculpável, se esta vida tivesse alguns encantos capazes de a satisfazerem. Mas Deus, como um bom pai que conhece as fraquezas dos Seus filhos, e que conhece a impressão que nós recebemos das coisas presentes, quis de propósito que esta vida fosse cortada de mil tormentos, para nos elevar mais alto as nossas afeições. E se a estas dores mistura algumas doçuras, é para nos suavizar a amargura que poderia tornar-nos a vida insuportável.

Julgai por isto o que é esta vida. Só com muita habilidade e astúcia ocultar-nos as suas misérias e, contudo, ó cegueira do espírito humano! É ela que nos seduz, ela que só nos perturba e agita, ela que em nada é consistente, ela que dá tantos passos para o seu fim quantos são os momentos da sua duração, e que nos há de deixar de repente como um falso amigo na ocasião em que nos pareça dar mais repouso.

Em que é, pois, que nós pensamos?

Onde está aquela generosidade do cristianismo que fazia julgar triste a pompa do mundo aos olhos dos primeiros fiéis como inferior ao lodo, existimavi sicut stercora (Fl 3, 8); que lhes fazia dizer com tanta, resolução: Cupio dissolvi et esse cum Christo (Idem, 1, 23); que num estado de constante incerteza, numa vida continuamente dolorosa, os conserva serenos pela firmeza da esperança, spe viventes (Rm 12, 12)?

Mas ah! Como eu erro em querer encontrar entre nós a perfeição do cristianismo!

Muito já seria que nós tivéssemos qualquer pensamento digno da nossa vocação e que denunciasse um pouco o novo homem. Mas, pelo menos, meus senhores, consideremos com alguma atenção qual não será a nossa vergonha em sermos chamados à mesma felicidade que gozam os grandes homens que implantaram a Igreja à custa do Seu sangue, e termo-la perdido covardemente numa inação profunda, ao passo que os outros a ganharam, combatendo, a despeito da fúria dos tiranos, dos verdugos, do inferno.

Feliz do que ouve estas verdades e sabe prelibar? A bondade do Senhor!

«Feliz do que vai inocentemente pelo caminho dEle, e passa dias e noites a contemplar a beleza das suas leis santas! (Sl 1, 4) Florescerá, como uma árvore plantada na corrente das águas. Virá tempo em que regurgitará de frutos. Não se perderá uma só das suas folhas. O Senhor irá colhendo todas as suas boas obras e fará prosperar todas as suas ações. Ah! E assim não sucederá aos ímpios! Dissipá-los-á na impetuosidade da sua cólera, como o pó é arrebatado por um turbilhão» (Ibid. vers. 2- 3, etc.)

Ah! Senhor que enlevo dentro dos Vossos tabernáculos! Transporto-me para fora da terra, quando penso na Vossa morada. Extasiam-se-me os sentidos e desprende-se-me a alma quando penso que Vos gozarei na terra dos vivos.

Mais uma vez o digo, e não me cansarei de o repetir:

«É mais delicioso passar um só dia na vossa morada do que toda a vida nas voluptuosidades do mundo» (Ibid. 88, vers. 1, 2, 10 e 11)

Animai, Senhor, os nossos corações com esta elevada esperança.

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(BOSSUET, Jacques-Bénigne. Sermões de Bossuet, Volume I. Tradução de Manuel de Mello. Casa Editora de Antonio Figueirinhas 1909 – Porto, 1909, Tomo I, p. 23-38)