Capítulo 8. Regresso ao Nada - Livro Rumo à Felicidade, de Fulton Sheen
FEZ-NOS Deus do nada… do nada absoluto… e é bom que lembremos, de vez em quando, este fato. Porque Deus nos fez, somos preciosos; mas, porque viemos do puro nada, jamais podemos vangloriar-nos de autossuficiência. E, porque viemos de Deus, temos um desejo insaciável de voltar a unir-nos com a Sua Vida, Verdade e Amor. Mas, como também somos filhos do nada, estamos tão dependentes d’Ele, como, os raios solares, do sol.

Quando São João Batista viu, pela primeira vez, Nosso Senhor, o seu sentimento do nada obrigou-o a dizer:

«Convém que Ele cresça, mas que eu diminua»

Esta atitude não implica qualquer humildade falsa, nem fingimento, desmentido pelos fatos, de que ele ou o seu trabalho fossem sem valor algum. Foi antes o simples reconhecimento de que até a estrela mais brilhante tem de se ofuscar ao raiar do sol nascente.João humilhou-se, diante de Deus; o mesmo podíamos fazer nós, lembrando-nos, uma vez ou outra, de que a nossa origem é o nada. Pode fazer-se isto pela prática da humildade, e, por ela, reviver a nossa criação. Psicologicamente, podemos voltar ao seio do nada, nossa mãe, despojando-nos de tudo o que não é Deus, e, desse modo, regressando ao simples zero, donde Ele nos tirou.

Quando olhamos de frente o que de verdadeiro se passa com a nossa existência, hemos de ver que Ele é o tudo e que nós nada possuímos que não tivesse vindo d’Ele. Compreenderemos, então, que Ele nos conserva no ser, de momento a momento. Tornamo-nos conscientes de que, sem Ele, nada podemos. O Divino Salvador advertiu os discípulos do seu nada relativo, quando descreveu como se hão de comportar os cristãos num banquete: não devem sentar-se à cabeceira da mesa, como os fariseus viperinos, mas sim portar-se como sendo ninguém, e nunca procurar apresentar-se como sendo alguém. Mais tarde, no Seu Ministério, voltou ao assunto e louvou o publicano que, reconhecendo o seu nada, demandou o fundo do templo, ao contrário do Fariseu que se dirigiu para a frente. Nosso Senhor pronunciou, então, o veredicto divino:

«Todo o que se exaltar será humilhado, e todo o que se humilhar será exaltado»

O preceito da humildade não quer dizer que, pela vida, andemos, sob um «complexo de inferioridade». Não havemos de procurar o vale da humilhação, para nos esconder na obscuridade, mas, pelo contrário, para, deste vale, podermos descortinar as montanhas de Deus e encontrar aí a nossa exaltação. Foi belamente expresso nas palavras de Maria, Mãe de Jesus, o surto do sentimento da própria pequenez para a alegria na grandeza do Senhor:

«Ele olhou, benignamente, para a humildade da Sua Serva»

O reconhecimento de Maria do seu «nada», em relação a Deus, levou-a a baixar na sua própria estima, mais do que ninguém em tempo algum. Por isso a sua exaltação foi também a mais sublime.

Quanto mais pensarmos em nós, menos pensamos em Deus; todos os egoístas são antirreligiosos. O requisito espiritual para ver a Deus, é não se deixar cegar pelo próprio eu, com o seu orgulho, vaidade e deificação. Só pode encher-se o que está vazio; só o que se despir do eu será vestido do Divino. A água da fonte nada poderá acrescentar a um copo que já extravasar de lama; somente pode ser cheia das Águas da Vida Eterna a alma humilde, a alma vazia. Muitas vezes, durante a vida, enchemos os nossos copos de lama e de pedras de amor-próprio. Esta lama, este falso orgulho, este exagero do valor próprio, com exclusão de Deus, é o que complica a vida e impede a alma de se unir Àquele para quem foi criada. Como o nevoeiro impede os raios de sol de brilhar sobre a terra, assim o eu, negando o nada que é a sua realidade, nos isola de Deus. Mas, como o sol pelo calor desfaz, a seu tempo, o nevoeiro, também Deus pode consumir, inteiramente, o nosso orgulho e atingir a alma.

O próprio Deus nos mostrou o caminho da humildade; desceu ao nada, quando Se humilhou até à morte abjeta da Cruz, mas desceu para ressuscitar, gloriosamente, erguendo-Se pela força irresistível do Poder Divino. Para nós também o único caminho para Deus está na crucifixão de nós mesmos. O homem feito por si mesmo constrói no próprio eu… e, geralmente, revela-se um pobre arquiteto. O homem, porém, feito por Deus — demasiado desdenhoso do seu eu para o usar como viga mestra ou pedra angular — deixa Deus erigir o edifício da sua vida. É como São Paulo: «Eu sou o que sou pela graça de Deus», e é feliz nesta humildade sincera.

Voltar para o Índice do livro Rumo à Felidade, de Fulton Sheen

(SHEEN, Dom Fulton. Rumo à Felicidade – WAY TO HAPPINESS. Tradução de Dr. A. J. Alves das Neves, pároco de São Pedro da Cova. Livraria Figueirinhas, Porto, 1956, p. 28-30)