Capítulo 51. Incitamento à Vida Interior - Livro Rumo à Felicidade, de Fulton Sheen
UM pai deu a seu filho um jogo de paciência, constituído por recortes do mundo, e disse-lhe que os recompusesse. O rapaz acabou por formar o mapa do mundo num espaço de tempo extraordinariamente breve. Quando o pai, admirado, lhe perguntou como é que ele o tinha conseguido, o rapaz respondeu:

«Havia a figura de um homem do outro lado; quando reuni devidamente as peças relativas ao homem, aquele saiu perfeito»

É esta a chave para compreender todos os problemas políticos e econômicos dos nossos dias. Nada acontece no mundo que não tenha sucedido antes no íntimo do homem. Não são feitas as guerras pela política, mas por políticos com uma certa filosofia da vida. Nunca nenhuma explicação da guerra foi tão clara como a da Bíblia, em que se declara que as guerras são castigos do homem pelos seus pecados. Isto não quer dizer que Deus mande a guerra como um pai que pune o filho por um ato de desobediência; mas antes que a guerra se segue a uma quebra de moralidade, como o trovão se segue ao relâmpago e a cegueira à amputação dos olhos.

Os homens de meia-idade têm vivido numa época, em que a guerra é mais «normal» que a paz. Cumpriu-se, literalmente, o que Nietszche profetizou, isto é, que o século XX seria um século de guerras. A guerra é um sintoma de colapso da civilização. Apenas há, entre os combatentes, diferentes graus de culpa. Nem tudo é branco dum lado, nem tudo é negro do outro. Quando o corpo adoece, o gérmen não se localiza só num órgão com exclusão de todos os outros; infecciona todo o fluxo do sangue. Assim o mal do nosso tempo não é o mal de Leste ou de Oeste, mas do mundo. É do mundo, porque os homens, geralmente, afastaram-se do verdadeiro centro da sua vida espiritual. Tendo deixado de temer a Deus, no sentido de um temor filial, como o filho tem pelo seu pai, começaram a temer o homem com um temor servil, como o escravo tem pelo tirano.

O homem moderno tornou-se passivo perante o mal. Pregou, durante tanto tempo, a doutrina da falsa tolerância; acreditou, por tanto tempo, que o bem e o mal eram apenas pontos de vista diferentes, que, agora, quando o mal se lhe patenteia na prática, ele sente-se impossibilitado de fazer qualquer coisa contra ele. Injustiça política, falcatruas nos altos poderes, crime organizado deixam-no frio. Embora viva muito ocupado e ativo no exterior, no interior está passivo e inerte, porque, raramente, ausculta o próprio coração. O remediar o mal cabe, por conseguinte, a agências e organizações burocráticas externas ao homem. Nenhum governo ou estado pode oprimir a liberdade pessoal, a não ser base de toda a liberdade, isto é, a sua responsabilidade para com Deus.

Tendo perdido a sua unidade interior, o homem é cada vez mais compelido a procurar a unidade fora de si, na unidade da organização. Renunciando a toda a responsabilidade, entrega-se cada vez mais ao Estado. As ovelhas que não querem obedecer ao pastor têm de ser reconduzidas por um cão que ladra atrás delas. Os cidadãos que não querem obedecer às leis morais de Deus, têm de ser organizados por um ditador, que lhes dilacera as almas. O enfraquecimento da vida espiritual interior é a causa basilar da desarmonia e da discórdia que reinam no mundo. A urgente organização do caos, criado pelo entorpecimento do sentido moral, clama sempre por algum ditador que julga a lei pessoal e não reflexo da Eterna Harmonia que nos céus impera.

Um grande encargo impende sobre aqueles homens que se chamam religiosos. Nesta hora fatal, todas as suas energias devem ser despendidas em relembrar ao homem o seu destino espiritual, e convencê-lo a invocar a Deus que o criou. Em vez disso, há quem acuse o seu próximo, que também acredita em Deus, de ser desleal à pátria, ou, ainda, tente impor a sua fé, à força, aos seus concidadãos. Tais mentiras prestam um mau serviço a Deus e à pátria. E a sua suposta fé em Deus pode discutir-se, porque ninguém que ama a Deus odeia o próximo, nem tenta incitar cidadãos contra cidadãos, mediante a calúnia. Que aqueles que se chamam católicos, protestantes ou judeus, se lembrem que a função da sua religião é intensificar a vida espiritual do homem, e não inocular dentro dos corações as redomas de azedume, excitando uns contra os outros. Não é dos políticos, dos economistas e dos reformadores sociais que devemos esperar as primeiras diligências nesta reconquista espiritual; é daquele que se confessa religioso. O que não é religioso pode cooperar, repudiando aqueles que se aproximam dele em nome de Deus ou da América, e dizem que o seu próximo nem ama a um nem a outra.

A Religião não pode ser a capa que encubra a adaga do ódio!

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(SHEEN, Dom Fulton. Rumo à Felicidade – WAY TO HAPPINESS. Tradução de Dr. A. J. Alves das Neves, pároco de São Pedro da Cova. Livraria Figueirinhas, Porto, 1956, p. 206-209)