Capítulo 3. Egoísmo - Livro Rumo à Felicidade, de Fulton Sheen
O EGOÍSMO é uma mentira em ação: supõe que os caprichos, paixões e desejos instintivos têm precedência sobre a lei moral, a fraternidade dos outros seres humanos e a vontade do próprio Deus. O egoísta é como um pêndulo que pugna pelos seus direitos contra os do relógio ou como uma nuvem em rebelião contra o céu, ou como um braço, que teima ignorar o corpo de que faz parte. Fazendo apenas o que os seus desejos interesseiros reclamam, o egoísta acaba por odiar tudo o que faz. É como uma criança da escola progressiva, que se lamenta:

«Mas tenho de fazer sempre aquilo que quero?»

Com o tempo o amor-próprio leva-o ao ódio de si mesmo. A criança, que comeu o gelado que era para a família inteira, chega a aborrecer até a vista dessa iguaria; e a este asco meramente animal e, digamos, inerente à sua condição, junta-se a repugnância por si mesma, de ter cometido o pecado de gula. Este ódio a si próprio é o castigo moral que se sofre pela gula, assim como a aversão pelo gelado é o efeito físico, corpóreo, da mesma falta.

Os homens, cujo tédio de si mesmos lhes causa náuseas, esmagam, instintivamente, o coração, tentando expulsar o mal da cidadela íntima da sua alma. Os ateus são mais propensos a este rancor que os crentes: visto que não reconhecem a Misericórdia e o Amor de Deus, que nos curará da aversão a nós mesmos, podem levar o seu desespero até a loucura do suicídio. A autodestruição é uma projeção, uma repercussão externa da tragédia íntima, na qual o mesquinho eu desafiou o que era mais nobre do que ele e, enojado pelos efeitos desta rebelião, chegou ao ódio antinatural da vida. Tanto Pedro como Judas, quando negaram a Nosso Senhor, se revoltaram contra a Vida. Ambos eles foram prevenidos de tal revolta; ambos, por causa da sua falta, foram chamados «demônios»; e ambos se arrependeram. Mas Judas arrependeu-se fechado em si mesmo, agarrado ao seu eu, na inútil agonia do desespero. Pedro, arrependendo-se em Deus, esvaziou-se do pecado pela humildade e recuperou a alegria.

Somente pode curar o desespero a submissão de si mesmo a alguma coisa de mais elevado do que nós; de fato, esta humildade não só tira da alma o orgulho, mas até o julgamento de si próprio, dando lugar ao afluxo da Verdade e do Amor Divino. «O que se humilhar, será exaltado; o que se exaltar será humilhado»… mas a aversão de si mesmo é a exaltação do eu, como juiz severo e definitivo. Enquanto a tabuleta com «escritos» não estiver suspensa da alma vazia de preocupações consigo mesmo, não poderá entrar o Divino Locatário.

A nossa atitude para com o louvor é uma prova de verdadeira humildade. É orgulhoso o que gosta da publicidade porque está procurando justificar-se, perante os homens; o humilde, na verdade, refere todo o louvor a Deus. Se tiver talento, sabe que Deus lho deu e que deve ser usado no serviço do seu real Senhor. É como uma janela, contente por deixar brilhar, através dela, a luz do Sol de Deus, sem pensar que a luz é uma criação sua. O humilde aceita não só o louvor, mas também a censura, como dons de Deus: tanto o desagradável como o agradável vem d’Aquele que o ama. Dirá como Job:

«O Senhor o deu, o Senhor o tirou; bendito seja o Senhor»

O egoísta, porém, não pode esquecer-se de si mesmo, ainda que suspeite ou se ofenda da sua pequenez: pensa que pode ocultar a sua inferioridade pela constante jactância de si mesmo. Cativo de Deus e não do desespero é o humilde, porque sabe que é amado pelo Próprio Amor. O egoísta está, constantemente, a lamentar-se de que não é bastante apreciado pelos outros, e não consegue descortinar que isso é o resultado de se centrar em si mesmo. Deriva o seu sofrimento — como quase todas as formas de infelicidade — da obstinada recusa em render a sua vontade.

O tempo mais feliz é aquele em que nos esquecemos de nós, para, amavelmente, nos lembrarmos dos outros. Esse breve momento de auto-abdicação é um ato de verdadeira humildade: o homem que se perder, encontrar-se-á e encontrará a sua felicidade.

O tédio e o desespero são doenças a que só os egoístas são propensos. O remédio para eles é sempre o mesmo: a humildade. E isto significa estarmos mais enamorados de Deus do que de nós mesmos.

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(SHEEN, Dom Fulton. Rumo à Felicidade – WAY TO HAPPINESS. Tradução de Dr. A. J. Alves das Neves, pároco de São Pedro da Cova. Livraria Figueirinhas, Porto, 1956, p. 10-12)