Capítulo 7. Desprendimento - Livro Rumo à Felicidade, de Fulton Sheen
PARECE banal e insípida a vida para muita gente. Admiram-se por que não progridem ou se desenvolvem, por que não se aperfeiçoam ou aprendem. Julgam ter caído em marasmo e gostariam de saber como sair dele.

É simples a resposta a este problema, embora a sua aplicação não seja fácil. É de desprendimento que tais homens e tais mulheres precisam.

O desprendimento é uma questão de quebrar todos os laços que nos prendem à terra, permitindo assim que a nossa alma voe livre para Deus. Somos como balões. E podemos estar presos à terra tanto por cabos de aço, como por débeis fios de teias de aranha; mas, se não são cortados, nunca estaremos livres da prisão das bagatelas, que, cá em baixo, nos prendem e escravizam.
Podem as almas estar inibidas por um sem número de trivialidades do mundo exterior. Põem-se talvez na dependência de uma série de prazeres, de surpresas, dos noticiários de cada hora, de festins mundanos, de tal maneira que dificilmente há lugar para a vida interior. Sempre que nos tornamos dependentes do mundo exterior, de modo tal que não possamos encontrar felicidade sem ele, a nossa vida interior fica diminuída: todos os «extras», que o corpo exige, são lançados à conta da alma. A frase «eu posso servir-me disto ou deixá-lo intacto» mereceria ser aplicada a muitas coisas, além da bebida: devia ser a nossa atitude para com todo o sustentáculo exterior da felicidade.

Se «necessitamos» do que está fora de nós, somos por isso literalmente absorvidos, e a nossa existência dispersa-se. Somos como uma fonte constantemente exaurida, cujas águas foram absorvidas por outra terra. Algumas pessoas entregam-se tanto ao que é externo que, se forem privadas de alguns prazeres ou bens, quase lhes parece que nem sequer vivem. Aprenderam a apreciar o seu valor mais em relação ao ter do que a ser. Se forem privadas das suas economias e da sua riqueza, estas almas poderão chegar à loucura do suicídio. É tão profunda a sua vassalagem às coisas, que perderam todo o conhecimento da sua verdadeira submissão a Deus.

O remédio para este estado perigoso e infeliz de afeição desordenada é um gradual afrouxamento dos laços que nos encadeiam às coisas externas. Devemos pôr cobro a sermos possuídos por outrem… pelo álcool ou pela barafunda, pelo triunfo ou pelo prazer. Neste assunto tão simples, como lançar mão dum cigarro, o melhor é deixar a vontade humana decidir pró ou contra, em vez de seguir o primeiro impulso. Até aos prazeres legítimos e inocentes se deve às vezes renunciar, para não sermos dominados por eles, nem pelos nossos caprichos egoístas. Porque aquele que vive só para os seus impulsos está em muito má companhia.

Certos indígenas da Austrália só sabem contar até três. Dizem: «Um. Dois. Três. Pronto». A sua filosofia em economia impõe um limite ao que é externo e, provavelmente, tornados mais isentos de cuidados do que a nós que contamos por bilhões.

Os homens vivem pelos seus desejos, mas há em nós a faculdade de escolher se havemos de desejar o que é do espírito ou o que é do mundo. O homem ou a mulher que faz um exame ao dia que acaba, e pode contar cinco vezes em que não cedeu ao capricho do momento, está no caminho do aperfeiçoamento interior: dominou-se e rejeitou a escravidão das coisas.

O apego é limitação; o desprendimento, expansão. O materialista tem uma personalidade limitada, porque vive num universo fechado, que tem por limite as coisas que, pelos sentidos, pode atingir. O egoísta vive num mundo mais estreito ainda: na cela almofadada do seu amor-próprio. O crente rompeu as cadeias do cativeiro e pode, livremente, elevar-se ao Céu na terra, em que a sua natureza pode expandir-se numa alegria abnegada e sem limites.

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(SHEEN, Dom Fulton. Rumo à Felicidade – WAY TO HAPPINESS. Tradução de Dr. A. J. Alves das Neves, pároco de São Pedro da Cova. Livraria Figueirinhas, Porto, 1956, p. 25-27)