Desprendimento, Tesouros de Cornélio à Lápide

É preciso que sejamos desprendidos

A fim de que o espírito, ocupado tão somente com os bens temporais, não ponha menos cuidado em possuir os eternos, o cristão deve ter tanta confiança na divina Providência, diz São Gregório, que, ainda quando não se possa procurar o necessário para a vida, deve estar bem convencido de que o necessário nunca este haverá de lhe faltar: Tanta debet esse in Deum fidúcia, utpraesentis vitae sumptibus quamvis non provideat, tamem sibi hos non desse certissimar sciat; ne dum mens ejus occupatur ad temporalia, minusprovideat aeterna (Pastor.).

Não leveis ouro, nem prata, nem dinheiro algum em vossos bolsos, disse Jesus Cristo a seus discípulos: Nolite possidere aurum, neque argentum, neque pecuniam in zonis vestris (Mt 10, 9). Quando viajares, não leveis nem alforje, nem duas túnicas, nem duas sandálias, nem tampouco cajado: Non meram in via, meque duas tunicas, neque calceamenta, neque virgam (Mt 10, 10)[1].

Não ajunteis tesouros na terra, onde a ferrugem e a traça corroem, onde os ladrões matam e roubam; ajuntai, pelo contrário, tesouros no Céu, onde não há ferrugem, nem traças, nem ladrões.

Não vos entristeçais pelo cuidado de encontrar o que comer para sustentar vossa vida, ou onde encontrareis vestes para cobrir vosso corpo. Olhai as aves do Céu, como não semeiam, nem colhem, nem possuem celeiros; e, contudo, vosso Pai Celestial as alimenta. Não valeis vós muito mais em comparação com elas? Contemplai como crescem os lírios dos campos; eles não lavram, nem fiam; e, contudo, Eu vos asseguro que nem mesmo Salomão, com toda a sua glória, vestiu- se com tanto primor como um deles. Se Deus veste assim a erva dos campos, a qual hoje existe e amanhã é lançada ao fogo. Quanto melhor Ele não vos vestirá a vós, homens de pouca fé? Assim, pois, não fiqueis tristes dizendo: Onde acharemos o que comer e beber? Onde acharemos com que nos vestir? Assim fazem os pagãos, que são aqueles que andam ansiosos atrás de todas essas coisas; pois vosso Pai sabe o que vos faz falta. Buscai, antes de tudo, o reino de Deus e sua justiça, e todas as demais coisas vos serão dadas com excesso. Não andeis, pois, preocupados pelo dia de amanhã, pois o dia de amanhã trará cuidados por si. Basta-vos, portanto, a cada dia, o seu próprio afã ou tarefa (cf. Mt 6, 20-34).

Aquele que é maior que o mundo, diz São Cipriano, não deve desejar buscar o que pertence ao mundo: Nihil appetere jam, nihil de saeculo desiderare potest, qui saeculo major est (Serm. in Orat. Dom.).

Fique isenta de avareza a vossa vida, diz o grande Apóstolo; contentai-vos com o que tendes no presente, posto que Deus mesmo diz: Não te desampararei, nem jamais te abandonarei: Sint mores sine avaritia, contenti praesentibus, ipse enim dixit: Non te deseram, neque derelinquam (Hb 13, 5).

Marta, Marta, – disse Jesus Cristo àquela mulher que trabalhava preocupada com mil cuidados – vós vos inquietais demasiadamente, e vos turbais por muitas coisas; e, sem embargo, uma só coisa é necessária: Martha, Martha, sollicita es, et turbaris ergaplurima; porro unum est necessarium (Lc 10, 41-42).

Vantagens do desprendimento

Certamente é um grande tesouro da piedade, a qual se contenta com aquilo que basta para viver, disse São Paulo a Timóteo: Est autem quaestus magnus pietas cum suficientia (1 Tm 6, 6).

Nada trouxemos a este mundo, e, sem dúvida, que tampouco nada poderemos levar: Nihil enim intulimus in hunc mundum; haud dubium quod nec aufere quid possumus (1 Tm 6, 7). Tendo, pois, o que comer, e com o que nos cobrirmos, contentemo-nos com isso: Habentes alimenta et quius tegamus, his contenti sumus (1 Tm 6, 8).

Porém – acrescenta aquele grande Apóstolo – Aqueles que se pretendem enriquecer, caem na tentação e no laço do demônio e em vários desejos inúteis e danosos que afundam aos homens no abismo da morte e da perdição: Nam qui volunt divites fieri, incidunt in tentationem et in laqueum diaboli, et desideria multa inutiliza et nociva, quae mergunt homines in interitum etperditionem (1 Tm 6, 9).

Aqueles que praticam o desprendimento evitam todos os males.

Já sabeis, disse São Paulo aos Hebreus, que tendes bens maiores que este mundo, e que jamais acabarão (Hb 10, 34). Se não tendes nada, diz São Jerônimo, estais livres de um grande peso; segui em vossa nudez a Jesus Cristo nu: Si non habes, grandi onere liberatus es: nudum Christum nudus sequere (Ad Rust.).

Pobreza não é mesquinharia, é uma glória.

Por outro lado, aquele que nada deseja e é rico em Deus, não é pobre. O Céu compra-se com o desprendimento e o desprezo dos bem perecedouros.

Deixai os bens da terra, diz Santo Agostinho, e recebereis os do Céu; porque o Reino dos Céus compra-se com o desprendimento (Lib. de Civit.). Aqueles que são desinteressados, diz São Gregório, não tocam o solo, voam, porque nada desejam da terra: Volant qui terram quase non tangunt, qui in ipsa nhil appetunt (Moral).

Aquele que quer possuir, diz São Próspero, renuncie ao mundo, a fim de que Deus seja sua feliz possessão: Quivult possidere, renunciat mundo, ut sint illi Deus beata possessio (Lib. II, De Vita Contempl.).

O homem desprendido é semelhante a Deus, diz o filósofo Sixto (Sentent., c. IV). Grande tesouro é para a alma, diz Sêneca, não pedir nada a terra, não rogar a ninguém, e poder dizer: “ – Fortuna, nada te peço; não me ocupo de ti!” Porventura, tem pouco aquele que não teme o frio, nem a fome, nem a sede? Nem Júpiter é mais rico! Aquilo que basta é muito; e o que não basta é muito pouca coisa.

Alexandre, dono do mundo, era pobre, porque não estava satisfeito. Aquilo que basta para toda a natureza, não haveria de bastar ao homem? Há muitos que levam seus desejos muito além de tudo quanto existe: tanta é a cegueira de seu espírito! Tanta est coecitas mentium (In Prov.).

Exemplo de desprendimento

Abraão deixou seu país, seus parentes e suas riquezas para obedecer a Deus. Jesus Cristo não buscava mais que almas. Os Apóstolos não tinham nem ouro, nem prata. Não tenho desejado, diz São Paulo, nem a prata, nem o ouro, nem vestes de ninguém: Argentum, et aurum, aut vestem nullius concupivi (At 20, 33).

Contemplai a Santo Antônio, a São Francisco de Assis, a todos os anacoretas etc. É certo que os Santos de todos os séculos e de todos os lugares praticam um desprendimento heroico.

Entre todas as virtudes, o desprendimento é a que, ainda neste mundo, é a mais louvada e estimada. Quando se quer exaltar a um homem virtuoso, não se diz que é casto, doce, humilde etc., senão que é um homem desprendido. Esta virtude é tão preciosa, que se pode dizer que ela sozinha é o bastante.

O que se há de fazer para obter o desprendimento

Depositai no seio de Deus, diz o Apóstolo São Pedro, todas as vossas solicitudes, porque Ele mesmo vela por vós: Omnem sollicitudinem vestram projicientes in eum, quoniam ipsi cura est de vobis (1 Pd 5, 7).

Santo Agostinho pergunta-nos: Como é que Aquele que teve cuidado de vós antes de vosso nascimento, não haverá de o ter agora que sois aquilo que Ele quis que fosseis? Deus não vos faltará em nenhuma circunstância. Não Lhe falteis, nem vos falteis tampouco a vós mesmos: Qui habuit tot curam antequam esses, quomodo non habebit curam cum jam hoc est voluit ut esses? Nusquam tibi deest; tu illi noli desse; tu tibi noli deesse (Serm.).

O cristão deve agir em relação a Deus como uma criança que não se inquieta por nada e descansa tranquila no seio de sua madre, deixando-lhe a ela todos os cuidados. Deus é nosso Pai e também ama-nos como mãe.

Vós, ó Deus, que sois bom e onipotente, diz Santo Agostinho, cuidareis de cada um de nós, como se não houvesse senão um, e de todos os homens, como se somente um existisse: O tu, bone Omnipotens, qui sic curas unumquemque nostrum, tamquam solum cures; et sic omnes tamquam singulos (Ut supra).

Como Deus é o criador de todas as coisas, é também o Conservador delas e sua Providência.

Não vos inquieteis por vossos negócios, diz São João Crisóstomo; confiai-os, antes de tudo, a Deus; porque, se vos ocupais deles, vós o fareis com a inteligência e o poder do homem, e vossos negócios irão mal; porém, se vos confiais a Deus, Ele cuidará deles: Ne cures tua, sede a Deo permite; nam si satagis, tamquam homo satages: si vero dimittas, Deus providebit (Homil. ad pop.). Confiando tudo a Deus, Ele proverá perfeitamente em todo o relativo ao temporal, ao espiritual etc.

É preciso nos submeter à vontade de Deus e dar-lhe graças por tudo, à imitação do santo varão Jó; o qual, depois de haver sido cumulado de bens, foi sobrecarregado de males durante algum tempo, merecendo, mais tarde, por sua resignação e sua paciência, que Deus lhe devolvesse todos os seus bens, e ainda os aumentasse.

Deus tudo me deu, e tudo me tirou; assim, fez-se o que era de Seu agrado. Bendito seja o Nome do Senhor: Dominus dedit, Dominus abstulit; sicut Domino placuit, ita factum est: Sit nomem Domini benedictum! (Jó 1, 21).


Referências:

[1] Segundo a Glosa, São Jerônimo é do parecer que Aquele que proibiu as riquezas representadas pelo ouro, pela prata e pelo cobre, vem a proibir quase até o necessário para a vida, a fim de que os Apóstolos da verdadeira Religião, a qual estabelecia que tudo era dirigido pela divina Providencia, manifestassem-se sem preocupação de nenhum gênero por seu porvir. […] E ao comentar as seguintes palavras de Jesus Cristo: “…

nem calçado”, o mesmo Doutor relembra: Platão indica que, para evitar as molezas, é preciso deixar a descoberto as duas extremidades do corpo, a cabeça e os pés: porque quanto maior firmeza tem estas duas partes, mais robustez adquirem as demais. E às palavras “… nem báculo”, comenta: Para que necessitam da defesa do báculo aqueles que estão protegidos por Deus?

Copilado pela Glosa, São João Crisóstomo comenta que este preceito tem por objeto:

1° elevar seus discípulos acima de qualquer suspeita;

2° deixá-los livres de toda preocupação, a fim de que possam empregar todo o tempo na pregação; e

3° manifestar seu poder, pelo que depois lhes disse: “Porventura, quando Eu vos mandei sem bolsa,

nem dinheiro, faltou-vos alguma coisa?” (cf. Luc. XXII, 35 – Hom. inMatth, XXXII, 1).

Já Santo Agostinho, também recolhido pela Glosa, assegura que aquelas palavras de São Marcos, de que os Apóstolos calçavam-se com sandálias, tem um sentido místico: este calçado deixa descoberto o pé por cima e coberto por baixo. Desta maneira, o Evangelho não se deve ocultar nem se deve apoiar nos interesses terrenos. E ao proibir que se levem duas túnicas, e mais expressamente o cobrir-se com elas, aconselha-nos que nossa conduta deve ser simples e não devemos viver com duplicidade. É indubitável que tudo aquilo que o Senhor disse, acrescenta Santo Agostinho, disse-o parte em sentido figurado, parte em sentido próprio; e que os Evangelistas dão, em seus escritos, esses dois sentidos às palavras do Senhor. Quem tiver a opinião de que o Senhor não podia falar em uma mesma passagem ora em sentido figurado ora em sentido próprio, que observe as demais partes do Evangelho e verá como sua opinião é atrevida e irreflexiva (De Consensu Evang. II, 30). [Notas do tradutor].