Capítulo 58. A revolução começa pelo Homem - Livro Rumo à Felicidade, de Fulton Sheen
SÃO muitas e variadas as teorias sociais e econômicas que hoje se discutem; mas todos os planos para mudar o mundo podem reduzir-se a dois: uns pretendem reformar as instituições, outros, o homem.

Muitos escritores que apresentam para esta reforma os seus planos, partem do pressuposto de que todos os males da humanidade podem ser imputados a uma instituição, a uma coisa: mudai-a, dizem-nos, e tudo ficará bem. Alguns dos seus programas acusam a propriedade privada como responsável pelo nosso mal-estar, e «reformá-la-iam» convertendo-a em propriedade coletiva. Outros acusam os nossos sistemas parlamentares, e apresentam-se para os «reformar», passando-os a ditadura. Outros acusam a política do ouro, e mandam-nos «reformá-la» estabelecendo a política da prata. Em qualquer caso, porém, a revolução será feita contra alguma coisa exterior ao homem; a culpa dos males é atribuída à propriedade, ao governo, à finança, e a essas mesmas coisas se vai buscar a solução. Os reformadores hodiernos nunca responsabilizam o homem pelas desgraças do mundo, nem procuram reformar o indivíduo.

Esta confiança nas instituições como panaceia universal tornou-se tão grande que muitos reformadores gizam um plano para a paz e prosperidade… e exigem depois que o próprio homem mude a sua natureza para se adaptar ao seu plano. A pessoa humana tornou-se insignificante para eles; o Estado já não se considera como existindo para serviço do homem, mas diz-se que o homem tem a sua razão de ser somente no serviço que pode prestar ao Estado. O homem, em tal sistema, é desumanizado, despersonalizado, vazado num molde ditatorial, de maneira a transformar-se num mero servo de uma nação, raça ou classe.

Este culto obstinado de uma teoria tem tido as mais trágicas consequências em nossos dias. Ao teórico não parece importar que nações inteiras sejam privadas de liberdade, que milhões de homens morram de fome, que milhares sejam liquidados… contanto que a teoria prevaleça. Em vez de fazer com que o chapéu da política dos governos se adapte à cabeça do homem, a tendência moderna é cortar a cabeça, se não lhe serve o chapéu, é reclamar que as instituições, as ideologias políticas e as teorias sociais triunfem, muito embora isso tenha como preço a destruição do próprio homem.

Há, porém, um segundo método de reformar o mundo. Este método é baseado na convicção de que a reforma deve começar pelo homem. Defende que importa, na verdade, ajustar a sua natureza… mas ajustá-la a um plano muito mais amplo que qualquer teoria temporal, que qualquer governo ou instituição, ou bosquejo para a ordem do mundo. Este segundo método concorda que deve haver uma revolução, mas não uma revolução contra algo exterior ao homem. Urge uma revolta contra o mal interior do homem, contra o seu orgulho, egoísmo, amor-próprio, inveja e avareza.

A segunda espécie de reforma revolucionária não atribui a culpa das nossas desgraças às instituições mas à humanidade… não ao modo como o homem governa a sua propriedade, mas ao modo como se governa a si mesmo. Este método de reforma desperta menos simpatias que o primeiro; todos nós preferimos culpar qualquer outra coisa, que não nós mesmos, pelos nossos males. A criança dá pontapés na porta, em que bateu com a cabeça; o jogador de «golf» quebra a clava, porque não meteu a bola no buraco. Todavia, a culpa de ter falhado é do jogador… e não da clava, nem de Deus contra quem, na sua cólera, talvez blasfeme. O mundo é como o jogador de «golf»: o homem insiste em lançar a culpa da sua infelicidade para longe do único a quem ela cabe, que vem a ser ele mesmo.

Enjeitar a culpa dos nossos males não lhes traz a solução, nem jamais a trará. Com efeito, o mal-estar do mundo é no homem que está. Pouco importa que se transfira o título de propriedade de uns tantos capitalistas para outros tantos comissários, se ambos os grupos são igualmente avaros e fraudulentos. De nada vale dar um novo arranjo às leis ou instituições parlamentares, uma vez que o mal não está nelas, mas no egoísmo dos homens que as aplicam. Se quisermos refazer o mundo, devemos começar por refazer o indivíduo; então, as instituições serão boas, porque se assemelharão aos homens bons que as fizeram.

E esta é a razão por que as instituições e os planos devem ser bastante maleáveis e elásticos, para se adaptarem ao espírito livre e magnânimo dos homens que se nobilitam e ampliam a sua visão, à medida que se aproximam de Deus. Não há objetivo, a não ser o próprio Deus, que seja grande que reclame do homem a transformação da sua natureza; nem há instituição humana que tenha o direito de lhe limitar as aspirações. O homem é a criatura maior da terra; tem mais importância que todas as teorias, todos os governos, todos os planos, porque o mundo e tudo o que ele contém não valem tanto como uma alma imortal. Pereçam as instituições, lancem-se à fogueira os planos, caiam os governos. Tudo isto são meras bagatelas, comparadas com a tremenda pergunta feita a todos nós:

«Que interessa ao homem ganhar o mundo inteiro, se afinal vier a perder a sua alma?»

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(SHEEN, Dom Fulton. Rumo à Felicidade – WAY TO HAPPINESS. Tradução de Dr. A. J. Alves das Neves, pároco de São Pedro da Cova. Livraria Figueirinhas, Porto, 1956, p. 234-237)