Capítulo 10. A necessidade de Revolução - Livro Rumo à Felicidade, de Fulton Sheen
NIETZSCHE, filósofo do século XIX, tentou exprimir a índole da sua época, afirmando:

«Deus morreu»

E, com isto, quis dizer que, neste período, os homens iam perdendo a fé. Lançou também olhar profético para o futuro e predisse que o século XX seria de guerras e revoluções. Estas duas afirmações estão ligadas por lógica mais profunda do que o inventor da filosofia do «super-homem» imaginava. Na verdade, os homens que deixaram de amar a Deus, não amarão, por muito tempo, o próximo, e encontrarão particular dificuldade em procurar amar este próximo especial, que é o seu inimigo.

É este, de fato, um século de revoluções. É preciso, no entretanto, que não passe à história como um período, em que as revoluções foram exclusivamente econômicas e políticas. Temos sempre a possibilidade de tornar o nosso tempo uma época de revoluções gloriosas, de revoluções contra nós mesmos. Sempre que uma alma destrona o eu que a dominava e, para ocupar esse lugar, se submete ao princípio do amor, dá início a uma revolução. O mesmo acontece, quando em nós a humildade substitui o orgulho e abandonamos o louco empenho do êxito e da notoriedade.

Este tipo de revolução, no foro íntimo da alma de cada um, tem o seu modelo no que fez o próprio Senhor: na noite antes de morrer pela redenção do mundo, ajoelhou-Se aos pés dos Seus discípulos, como se fosse o último deles. Já antes, durante a Sua Vida de Mestre, lhes tinha dito, muitas vezes, que não buscassem os primeiros lugares à mesa, nem desejassem ser conhecidos pelos homens. Quando os Apóstolos disputavam entre si qual deles seria o maior, Ele exigiu uma revolução na sua escala de valores. Disse-lhes:

«Os reis dos gentios dominam sobre eles, e os que gozam de autoridade sobre eles chamam-se benfeitores. Não assim entre vós; não deve haver diferença alguma, no meio de vós, entre o maior e o mais pequeno, entre o que governa e o que serve. Dizei-me qual é maior: o que está sentado à mesa, ou o que serve? — Certamente, o que está sentado à mesa. Pois, eu estou aqui no meio de vós, como vosso servo»

Nosso Senhor tinha pregado antes, por palavras, a revolução da humildade; agora põe-na em prática, na Última Ceia, quando «depôs o manto, tomou uma toalha com que se cingiu; e, depois de lançar água numa bacia, começou a lavar os pés dos discípulos, limpando-os com a toalha de que estava cingido». Naquele tempo, os trabalhos humildes como este eram reservados aos escravos. Ter-se ajoelhado o Senhor dos senhores, o Rei dos reis, diante de vinte e quatro pés calosos e suados, e limpá-los — como com a Sua Absolvição ainda limpa os nossos corações endurecidos e as nossas almas manchadas foi um «sucesso», às avessas, e de proporções gigantescas. Todos os valores humanos foram, para sempre, invertidos na espantosa revolução que Cristo declarou por estas palavras:

«O que se exaltar será humilhado, e o que se humilhar será exaltado»

No momento em que foram pronunciadas estas palavras, César perdeu o seu trono. Foi pulverizado o princípio de exploração dos fracos, e à arrogância e orgulho apontou-se a porta de saída. De agora em diante, todos os cristãos ficavam prevenidos contra o julgar à maneira do mundo, contra o procurar recompensas que o mundo pode dar. À medida que a água caía das Suas mãos nessa noite, os velhos sistemas de moralidade tornavam-se obsoletos, e os mais nobres conceitos dos antigos tornavam-se inadequados ao homem. De agora em diante, ficavam a ser conhecidas as piores de todas as possíveis desordens da alma, a saber: a incapacidade de servir os outros e o reputar-se com direito a especiais privilégios. Uma nova lei nasceu, que revelou a igualdade de todos os homens perante Deus, e veio demonstrar a beleza da humildade. Aquele que se tinha humilhado fazendo-se homem, multiplicou o dom e acentuou a lição, quando reduziu a sua Infinidade ao serviço dos seus servos.

A revolução na alma é a aventura a que é chamado o cristão. Nenhum ódio exige, nenhuns direitos pessoais reclama, nenhuns títulos esplendorosos reivindica, nenhumas mentiras profere. Nesta revolução, o amor que, dentro de nós mesmos, emaranhados e desordenados, vai penetrando e minando como Quinta duna, fiel a Deus. Tal revolução destrói o orgulho e o amor próprio, a inveja, o ciúme e a «ânsia de ser o primeiro», que nos faz intolerantes dos direitos dos outros. A espada que empunha não está voltada contra o nosso próximo, mas contra o exagerado apreço de nós mesmos. Nas outras revoluções, fácil é lutar, porque é contra o inimigo perverso que estamos em guerra. A revolução cristã, porém, é difícil, porque o inimigo que hemos de atacar, faz parte de nós mesmos. No entretanto, é esta a única revolução da qual flui a verdadeira paz. As outras revoltas nunca têm fim, porque param longe do seu objetivo; deixam o ódio ainda a referver na alma humana.

O pensamento contemporâneo está dirigido no sentido de uma revolução no mundo exterior das nações e das classes, das raças, dos partidos e das facções. Nosso Senhor, porém, não considerava a revolução social como a sua principal tarefa; primeiramente, refez o homem pela Ressurreição e, só mais tarde, derramando o Seu Espírito no homem, regenerou a sociedade do velho mundo.

Santo Agostinho disse:

«Os que perturbam a paz em que vivem, fazem-no não porque a odeiem, mas para mostrar o seu poder alterando-a»

Vêm as guerras, quando os homens projetam, no mundo exterior, os seus conflitos interiores; advirá a paz, quando muitos homens empreenderem a revolução interior, pela qual o seu orgulho seja aniquilado e a sua ambição egoísta extinta. À paz, que se sucede a esta luta espiritual, pode estabelecer um contágio feliz de alma para alma, levando a paz à terra a todos os homens de boa vontade.

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(SHEEN, Dom Fulton. Rumo à Felicidade – WAY TO HAPPINESS. Tradução de Dr. A. J. Alves das Neves, pároco de São Pedro da Cova. Livraria Figueirinhas, Porto, 1956, p. 35-38)