Meditação para a Sexta-feira da 1ª Semana do Advento. Reino de Jesus Cristo em nós

Meditação para o Sexta-feira da 1ª Semana do Advento

Sumário

Depois de ter meditado a vinda do Salvador no fim dos séculos, meditaremos hoje a sua vinda e o seu reino nos nossos corações pela Sua graça; e veremos:

1.° Que este reino é cheio de doçura e de alegria;

2.° Que todos os prazeres do mundo lhe não são comparáveis.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De pôr a nossa alegria em Deus só, e toda a nossa complacência na Sua vontade;

2.° De conservar, pelo hábito da contemplação, o reino de Jesus Cristo em nós; e Lhe rogaremos com frequentes aspirações que viva para sempre nos nossos corações.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra de São Paulo:

“Alegrai-vos Incessantemente no Senhor” – Gaudete in Domino semper (Fl 4, 4)

Ou a palavra de Santo Agostinho:

“Tudo me seja amargo para que só Vós sejais doce à minha alma” – Omnia mihi amarescant, ut tu solus dulcis appareas anima mea (Slil., XXII)

Meditação do Dia

Adoremos Jesus Cristo vindo trazer o verdadeiro prazer ao mundo no Seu nascimento. “Eis-aqui vos anuncio um grande gozo” – Ecce evangelizo vobis gaudium magnum (Lc 2, 10), diz o anjo aos pastores. Antes da Sua vinda, os homens punham o prazer nos falsos bens da terra; não buscavam satisfazer-se senão nas criaturas, nos prazeres da vida, e as maiores abominações eram tidas como divertimento ou brinco – Sedit populus manducare et bibere, et surrexerunt ludere (Ex 32, 6);  mas depois da Sua vinda, aprenderam a alegrar-se em Deus e a pôr a sua felicidade na posse de Deus – Exultavit spiritus meus in Deo salutarei meo (Lc 1, 47). Agradeçamos ao Verbo Encarnado esta mudança, que a Sua vinda trouxe ao mundo.

PRIMEIRO PONTO
O reino de Jesus Cristo em nós é cheio de doçura e alegria

O que o profeta dizia da vinda do Messias à terra, pode muito bem dizer-se da vinda de Jesus Cristo à alma cristã: Consolai-vos, meu povo, diz Deus em Isaías, consolai-vos – Consolamini, consolamini, popule meus (Is 40, 1); rompei em alegres cânticos, porque o Senhor vem consolar o seu povo – Gaudete et laudate simul… quia consulatus est Dominus populum suum (Sl 52, 9). Com efeito, bem-aventurada a alma em que Jesus Cristo vier nascer espiritualmente, nestes dias abençoados, para nela viver e reinar para sempre! Apreciará quão doce é o Senhor, quão deliciosos são os prazeres inseparáveis da Sua presença no meio de um coração. Estes gozos enchem a alma toda e nenhum vácuo, nenhum lugar nela deixam para a aflição, turbação e inquietação. É porque só em Deus se encontra a felicidade que pode satisfazer-nos plenamente; e é, diz Santo Agostinho, como um antegosto do paraíso, de sorte que ninguém pode alegrar-se na criatura, e que tudo o que não é Deus ou para Deus enfastia – Ipsa est beata vita gaudere de te, ad te propter te (Confi., lib. X, XXII).

Uma só gota desta doçura, continua o mesmo santo padre, desgosta de todo o resto – Unam guttam fillius dulcedinis qui gustavit, omnem aliam fastidit dulcedinem (Solil., XXII)

Estes prazeres tão puros e tão santos têm ainda a grande vantagem, que não podem ser-nos tirados mau grado nosso – Gaudebit cor vestrum, et gaudium vestrum nemo tollet a vobis (Jo 16, 22). Todos os outros prazeres são passageiros, e o medo de os perder envenena muitas vezes a sua posse: mas os gozos, que sentimos em Deus, nada pode tirar-no-los. Ninguém pode tirar-me Jesus Cristo, dizia um antigo religioso aos que lhe perguntavam a razão de seu contínuo prazer – Christum a me tollere nemo potest. São prazeres que dão a tranquilidade durante a vida, a paz na morte, o paraíso na eternidade. Ó Jesus, ó rei cheio de doçura, vinde pois nascer, viver e reinar em mim com a Vossa formosura, a Vossa doçura, que enche o coração de consolação – Specie tua et pulchritudine tua intende, prospere procede, et regna, propter veritatem et mansuetudinem (Sl 46, 3)

SEGUNDO PONTO
Todos os gozos do mundo não são comparáveis com os que acompanham o reino de Jesus Cristo em nós

Não há no mundo prazeres que satisfaçam completamente o coração. Salomão, que os havia desfrutado todos, declara não ter achado neles senão vaidade e aflição de espirito – Vanitas vanitatum, et omnia vanitas… Vidi cuncta quae fiunt sub sole, et ecce universa vanitas, et afflictie spiritus (Ecl 1, 2, 14) Fui tudo o que se pode ser, dizia um imperador romano, e isto de nada me serviu – Omnia fui, et nihil expedit. Estes falsos prazeres param à superfície da alma, não afetam senão a carne e os sentidos; por conseguinte nunca satisfazem. Quantos mais se tem, tantos mais se quer ter – Semper dicit: Affer, affer; nunquam dicit: Satis est (Pv 30, 15ss); e ainda quando os possuíssemos todos, não ficaríamos satisfeitos; porque nos fizestes para Vós, ó meu Deus, e o coração fora de Vós está sempre inquieto – Fecisti nos ad te, Domine, et inquietum est cor nostrum, donec requiescat in te (Conf., lib I, cap. 1).

O olho não se farta de ver, nem o ouvido de escutar – Non saturatur oculus visu, nec auris auditu impletur (Ecl 1, 8)

Finalmente os prazeres do mundo tem alguma coisa de pior ainda: distraem e enervam o coração a ponto de o tornar incapaz de toda a virtude sólida; submergem-o nos sentidos corrompendo-o com a sua falsa doçura; desgostam-o de Deus e das coisas espirituais; e em última análise, causam-lhe amargos dissabores, profunda tristeza durante a vida, desesperação na hora da morte, raiva na eternidade (1). Aprendamos daqui a não buscar mais a felicidade na terra, mas sim a buscá-la unicamente em Deus: porque é somente em Deus que ela se acha. São estas as nossas disposições?

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Amata inquinat, possessa onerant, amissa cruciant (São Bernardo)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo I, p. 42-45)