Haec dicit Dominus: Dispone domui tuae, quia morieris tu, et non vives — “Eis aqui o que diz o Senhor: Dispõe da tua casa, porque morrerás e não viverás” (Is 38, 1)

Sumário. É na hora da morte que se acaba a coroa dos escolhidos, porque é então que se recolhem mais merecimentos. Então pode-se mesmo ser mártir, aceitando tudo com resignação e pelo amor de Deus. Mas por ser difícil que então tenha estes bons sentimentos aquele que não os tiver praticado na vida, convém que se renove cada mês a protestação para a boa morte. Imaginemos, pois, que estamos para morrer, e abraçando o Crucifixo, digamos de coração a Jesus o que lhe quiséramos dizer nesses derradeiros momentos.

I. É na morte que se acaba a coroa dos escolhidos, porque é então que podemos recolher mais merecimentos, aceitando com resignação as dores e a morte. Estejamos certos de que a aceitação da morte, para se cumprir a vontade de Deus, nos faz merecer uma recompensa semelhante à dos mártires, que são mártires exatamente porque aceitaram os tormentos e a morte a fim de agradarem a Deus. Mas como é difícil que tenha semelhantes bons sentimentos na hora da morte aquele que neles não se exerceu durante a vida, alguns devotos costumam, com grande proveito, renovar todos os meses a protestação para a boa morte, com os atos cristãos, tendo-se primeiro confessado e comungado como por viático, e figurando-se que estão já moribundos e prestes a sair desta vida.

Meu irmão, imita tão belo exemplo; imagina que o teu anjo da guarda te anuncia que a tua morte está próxima e te diz:

“Dispõe da tua casa porque morrerás”

Abraça-te em espírito com Jesus crucificado, e dize-lhe de coração: Meu Deus, adoro-Vos, prostrado na vossa presença, e quero fazer o seguinte protesto, como se já estivesse prestes a passar desta vida para a eternidade. Meu Senhor, porque sois a verdade infalível, e o tendes revelado à santa Igreja, creio no mistério da Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, mas um só Deus, que recompensa eternamente os justos no paraíso e pune os pecadores no inferno. Creio que a segunda Pessoa, isto é, o Filho de Deus, se fez homem, e morreu pela salvação dos homens; e creio tudo o que crê a santa Igreja. Graças Vos dou por me haverdes feito cristão, e protesto querer viver e morrer nesta santa fé.

Deus meu e esperança minha, confiado nas Vossas promessas, espero obter da Vossa misericórdia, não pelos meus merecimentos, mas pelos merecimentos de Jesus Cristo, o perdão dos meus pecados, a perseverança na Vossa graça e, depois desta vida miserável, a glória do paraíso. Se na hora da morte o demônio quiser tentar-me para me fazer desesperar à vista dos meus pecados, protesto querer sempre confiar em Vós, meu Senhor, e quero morrer entregando-me nos braços amorosos da vossa bondade.

Ó Deus, digno de amor infinito, amo-Vos de todo o coração, amo-Vos mais que a mim mesmo, e protesto querer morrer fazendo um ato de amor, a fim de continuar a amar-Vos eternamente no paraíso: eis o que Vos peço e desejo obter. Se, pelo passado, em vez de Vos amar, ó Senhor, desprezei a vossa bondade infinita, arrependo-me agora de todo o coração e protesto querer morrer chorando e detestando as ofensas que Vos fiz. Para o futuro, proponho antes morrer do que tornar a pecar. Pelo vosso amor perdoo a todos aqueles que me hajam ofendido.

II. Aceito, ó meu Deus, a minha morte e todos os sofrimentos que hão de acompanhá-la; uno-os aos sofrimentos e à morte de Jesus Cristo. Eu Vo-los ofereço para honrar o vosso supremo domínio e para satisfazer pelos meus pecados, Aceitai, Senhor, o sacrifício que Vos faço de minha vida, por amor do grande sacrifício que de si mesmo fez o vosso divino Filho sobre o altar da cruz. Desde agora, e para a hora da minha morte, resigno-me inteiramente à vossa divina vontade, e protesto que quero morrer dizendo: Senhor, seja sempre feita a vossa vontade.

Ó Virgem Santíssima, minha advogada e minha Mãe, Maria, depois de Deus sois e sereis sempre a minha esperança, e a minha consolação na hora da minha morte. Desde agora recorro a vós, e vos rogo que me assistais nessa passagem. Minha querida Rainha, não me desampareis no meu momento derradeiro; vinde então tomar a minha alma e apresentá-la a vosso Filho. Desde agora vos aguardo, e espero morrer debaixo do vosso manto e abraçado aos vossos pés. São José, meu protetor, São Miguel, arcanjo, meu santo anjo da guarda, vinde todos em meu socorro, no meu último combate com o inferno.

E Vós, ó meu amor crucificado, meu Jesus, que para me alcançar uma boa morte quisestes escolher para Vós uma morte tão amargosa, lembrai-Vos então que sou uma daquelas ovelhas que remistes pelo vosso sangue. Quando na terra todos me tenham abandonado, e ninguém mais me possa valer, só Vós me podereis consolar e salvar. Permiti que então Vos possa receber em viático e não permitais que me condene para sempre, para estar eternamente longe de Vós no inferno. Meu amadíssimo Salvador, acolhei-me então nas vossas chagas sagradas; desde agora abraço-me convosco, e no meu último suspiro quero exalar a minha alma na chaga amorosa do vosso lado, dizendo desde já para então: Jesus, José e Maria, eu vos dou o meu coração e a minha alma. Jesus, José e Maria, assisti-me na minha última agonia. † Jesus, José e Maria, expire a minha alma em paz na vossa companhia (1).

Referência:
(1) Indulgência de 100 dias cada vez por cada uma destas jaculatórias.

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(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Duodécima semana depois de Pentecostes até ao fim do ano Eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 443-446)