Propter vos egenus factus est, cum esset dives; ut illius inopia vos divites essetis — “Sendo rico, se fez pobre por vosso amor, a fim de que vós fôsseis ricos pela sua pobreza” (2 Cor 8, 9)

Sumário. Ó Deus, quem não teria compaixão se visse um jovem príncipe, filho de um grande monarca, nascer em tão grande pobreza, que, necessitado de tudo, até se fazia mister deitá-lo numa manjedoura? Tal é exatamente o estado de Jesus-Menino, Filho de Senhor do céu e da terra. Os anjos, é verdade, estão ali para o adorar; não, porém, o socorrem. Mas como Jesus abraçou tão apertada pobreza unicamente para nos fazer ricos dos seus bens e nos obrigar a amá-lo, quanto mais pobre se fez, tanto mais amável se nos mostra.

I. Ó Deus, quem não se compadeceria, se visse um jovem príncipe, filho de um grande monarca, nascer em tamanha pobreza, até ser deitado numa gruta úmida e fria, sem leito, sem criados, sem fogo, sem os paninhos necessários para o resguardar do frio? Ah, Jesus! Vós sois o Filho do Senhor do céu e da terra, e nessa gruta fria não tendes senão uma manjedoura para berço, um pouco de palha para sobre ela repousar, e uns pobres paninhos para Vos cobrir. Os anjos Vos cercam e louvam, mas nenhum alívio trazem à vossa pobreza.

Ó Redentor meu, quanto mais pobre sois, tanto mais Vos tornais amável, pois abraçastes esta grande pobreza para melhor atrairdes o nosso amor. Se houvésseis nascido num palácio, se fôsseis logo reclinado num berço de ouro e fôsseis servido pelos maiores príncipes da terra, inspiraríeis aos homens mais respeito, porém menos amor; ao passo que a gruta onde estais, os panos grosseiros que Vos cobrem, a palha sobre a qual repousais, a manjedoura que Vos serve de berço, ó, como isso atrai os nossos corações ao vosso amor! Quanto mais pobre Vos fizestes por amor de mim, direi com São Bernardo, tanto mais caro Vos fazeis: Quanto pro me vilior, tanto mihi carior.

Vós Vos fizestes pobre para nos enriquecer com as vossas riquezas, isto é, com a vossa graça e glória: Egenus factus est, ut illius inopia vos divites essetis — “Fez-se pobre, para que vós fôsseis ricos pela sua pobreza”. A pobreza de Jesus foi para nós uma grande riqueza, porque nos excita a procurar os bens do céu e a desprezar os da terra. A Vossa pobreza, ó meu Jesus, é que obrigou tantos santos a deixarem tudo, riquezas, honras e até coroas, para viverem pobres convosco. Por piedade, ó meu Salvador, desapegai-me do todos os bens terrestres, a fim de que me torne digno de obter o Vosso amor, e por ele Vos possuir, a Vós que sois o bem infinito!

II. Ó santo Menino — pudera eu dizer com o vosso querido São Francisco — meu Deus e meu tudo: Deus meus et omnia! Oxalá que de hoje em diante eu não suspirasse por outras riquezas senão pelo vosso amor, e que este meu coração não fosse mais dominado pela vaidade do mundo, mas reconhecesse por único Senhor só a Vós, meu amor! Infeliz de mim! Pelo passado busquei os bens terrenos e não achei senão espinhos e fel. Mais contente estou agora por me achar aos vossos pés para Vos agradecer e amar, do que jamais me achei em toda a minha vida pecaminosa.

Um só temor me aflige: o temor de que talvez não me tenhais perdoado. Mas, as Vossas promessas de perdoar ao que se arrepende; a vista da Vossa pobreza por meu amor; os convites que me fazeis para Vos amar; as lágrimas e o sangue que derramastes por mim; as dores, as ignomínias e a morte amargosa que por mim sofrestes, consolam-me e me fazem esperar firmemente o perdão. Se porventura não me tivésseis ainda perdoado, dizei-me: que deveria fazer?

Ó Senhor, quereis que me arrependa? Pesa-me de todo o coração de Vos ter desprezado. Quereis que Vos ame? Amo-Vos mais que a mim mesmo. Quereis que renuncie a tudo? Sim, renuncio a tudo e entrego-me a Vós. Sei que me acolheis, pois que, aliás, não teria nem arrependimento, nem amor, nem desejo de me dar a Vós. A Vós me entrego, e Vós já me acolheis. Amo-Vos e Vós também me amais. Não permitais que o amor entre Vós e mim venha a extinguir-se. Maria, minha Mãe, alcançai- me que eu sempre ame a Jesus, e seja sempre por ele amado.

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(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II: Desde o Domingo da Páscoa até à Undécima semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 380-382)