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A Vida da Graça e a Vida da Glória

Meditação para o Dia 29 de Fevereiro

A vida da graça é o gérmen do qual a vida da glória é o desabrochar. Passamos uma a lutar, na prova, e a outra, na felicidade em triunfo. Quanto ao fundo, porém, consistem na mesma vida sobrenatural e Divina, que começa aqui na terra e se consuma no Céu. Aliás, a vida da graça é a condição indispensável da vida da glória, da qual determina e marca a medida. Deve-se, pois, desejar uma como se deseja a outra. Deus assim o quer, porque este é o fim supremo de nossa existência. Nosso Senhor se ocupa em nos perder. Continue reading

São João na porta Latina. São João em Patmos

Capítulo 18: São João na porta Latina. São João em Patmos

I

No entanto, João atingia a velhice, e não estava livre da grande tristeza de que são acometidos aqueles que Deus condena a viver, que veem desaparecer em roda de si todos os seus, e que ficam sós no mundo para deles dar o testemunho e a lembrança.

São Paulo, mártir em Roma, terminara ali a sua carreira, começada, havia trinta anos no caminho de Damasco, Cursum consummavi; Pedro abraçara aquele grande companheiro no caminho do suplício, e no mesmo dia teve a honra de, por sua vez, subir à cruz de seu Mestre, no alto de uma colina de onde abençoara a Cidade e o universo. Foi igualmente nos braços de uma cruz, que André havia adormecido do sono da morte, o que era digno do irmão do príncipe dos apóstolos. Depois de Tiago o Maior, depois de Tiago o Justo, Simão oferecera em Jerusalém o sacrifício de seu sangue. Tomé, presumia-se, terminara a carreira nas Índias, depois de ter levado mais longe do que todos os outros, essa fé em Jesus que mais do que os outros lhe custara alcançar. Mais perto de João, na Frígia, em Hierápolis, no seio mesmo dessa Ásia governada pelo apóstolo, Felipe tivera um martírio glorioso. Assim, pouco a pouco haviam caído todos os irmãos, e o Senhor reconstituíra quase inteiramente no céu aquela família do cenáculo da qual dizia:

“Oh! Pai, eu vos dou graças, porque de todos os que me destes, não perdi nenhum”

Só um restava ainda. Vendo a existência de João prolongar-se desse modo, os discípulos podiam crer que ele não devia morrer, e espalhou-se essa notícia entre eles, como o próprio João o declara (1). Mas, a vida era-lhe cheia de amarguras. O apóstolo parece que só tinha vivido tanto tempo para ver um imenso desastre mais inconsolável do que todos os outros: Jerusalém já não existia. Depois de desolações que enchem de pasmo a história, Vespasiano e Tito tinham armado suas tendas na mesma colina onde o discípulo vira um dia o Mestre chorar sobre a cidade culpada, que matava os profetas. A cidade estava em ruínas, o templo era um montão de cinzas; e aqueles que puderam, fugiram naqueles dias de morte e incêndio, dispersando-se pelo mundo, e João fora informado de que, dos lugares onde vivera junto de Deus e de sua Mãe, nada mais existia.

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Primeira Epístola de São João. Prefácio de seu Evangelho. A lei da Caridade

Capítulo 17: Primeira Epístola de São João. Prefácio de seu Evangelho. A lei da Caridade

I

Estando escrito o Evangelho, era mister fazê-lo conhecido das Igrejas cristãs; São João dizia mais tarde no Apocalipse:

“Vi um anjo voar pelo meio do céu, levando o Evangelho eterno, para o anunciar aos que habitam na terra, e a toda a nação, tribo, língua e povo. Dizendo em alta voz: Temei ao Senhor e o honrai; porque chegou a hora de seu juízo. Adorai aquele que fez o céu, a terra, o mar e as fontes das águas” (1)

Esta divulgação universal devia ser em breve a do Evangelho de São João.

O apóstolo começou por endereçá-la em pessoa aos fiéis da Ásia. Esse é, cremos, o fim de sua primeira Epístola. Seu Evangelho dizia: No princípio era o Verbo… A Epístola, fazendo alusão a isso, começava por estas palavras idênticas: O que foi desde o princípio, o Verbo da vida, vo-lo anunciamos. Pediram-lhe que escrevesse o Evangelho, acabava de fazê-lo; e desta satisfação dada à Igreja dizia:

“Escrevemos estas coisas para que vos alegreis, e que a vossa alegria seja completa” – Et haec scribimus vobis, ut gaudeatis et gaudium vestrum sit plenum (1Jo 1, 4)

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A teologia do Evangelho de São João

Capítulo 16: A teologia do Evangelho de São João

I

O Evangelho de São João não era unicamente uma narrativa e uma história; era a exposição de uma teologia inspirada. Primeiro, a geração eterna do Verbo, Sua operação no mundo e nos espíritos, Sua encarnação realizada e perpetuada; depois, como explicação e razão destas maravilhas, o amor de Deus, um amor eterno, infinito, dando por si só a chave de todos os mistérios: tal é o assunto e o fundo dessa teologia, a mais admirável que se possa ler.

Assim como a Bíblia começava pelo Gênesis, que é a criação do mundo; o Evangelho de São João começa pela geração do Verbo, que é o gênesis do Filho de Deus. São Boaventura faz a seguinte observação:

«Moisés disse os princípios da sabedoria divina, João proclamou sua consumação» – Moysés dívinae sapientiae inchoator Joannes divinae sapientiae terminator

Este nome de Verbo, Jesus Cristo não se servira dele para designar-se a Si mesmo; também João nunca o põe em seus lábios divinos no correr do Evangelho. E ele, João, e só ele, que, para adaptar-se à linguagem de alguns de seus contemporâneos, faz uso desta palavra, a fim de fazê-los compreender, e melhor do que o faziam eles, como e por quem Deus se exprime no mundo.

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O Evangelho de São João

Capítulo 15: O Evangelho de São João

I

A vasta coligação do mal e do erro, que acabamos de descrever, pedia um testemunho brilhante da verdade cristã e da santidade de Deus. Foi então que João escreveu seu Evangelho.

O que primitivamente se chamava um Evangelho, não era um livro, era uma palavra. Jesus Cristo tinha ensinado. Seus apóstolos fizeram como Ele: não escreveram, pregaram. A palavra, inspirada diretamente por Deus, provada pelos milagres, derivada de lembrança de fonte fresca e pura, devia ser suficiente para a fundação do reino de Deus. Era este o sopro do qual dizia a Escritura, que renovaria a face da terra. Era um sopro de fogo; mas apenas um sopro.

Esta palavra, no entanto, não tardaram muito em escrevê-la. Uns expuseram primeiro a doutrina conforme a necessidade dos tempos: foi o fim das Epístolas. Outros redigiram a vida mesma de Jesus: é o que conhecemos e veneramos particularmente com o nome de Evangelho.

Se procuramos a razão e o caráter próprio das três primeiras narrativas, chamadas sinóticas, notaremos primeiro que foram feitas ao jeito das três grandes famílias de povos entre os quais se dividiam a supremacia dos espíritos e o império das coisas. Continue reading

São João e as Heresias

Capítulo 14: São João e as Heresias

I

O mal fez suas represálias. Travou-se grande luta contra a verdade, e Éfeso não tardou em ver cumprir-se a predição que São Paulo fizera aos Anciãos em sua última despedida:

«Sei que depois da minha partida, muitos dentre vós se levantarão ensinando mentiras, com o fim de arrastar após si alguns discípulos» (At 20, 30)

Escrevendo a seu filho Timóteo, dizia-lhe ainda:

«Guarda bem o depósito da fé que te foi confiado, fugindo às notícias profanas e às antíteses de uma ciência falsa. Foi por havê-la seguido que muitos naufragaram na fé» (2Tm 1, 14; 1Tm 6, 20)

Mas, como ele o temia, já «os lobos famintos tinham entrado no redil», e Paulo achava que era um dever prevenir seu discípulo para que não se perdesse nas fábulas, mitos e genealogias intermináveis, «os quais são antes próprios a promover discussões do que a edificar a obra de Deus» (1Tm 1, 4).

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Sobre o nome Católico e o Sacramento da Penitência

Epistola 1 de São Paciano de Barcelona (310 – 391)

Paciano de Barcelona foi uma Padre da Igreja, do século IV, anterior a Santo Agostinho, vivendo entre 310 até 391 d.C. Sua Primeira Carta a Simproniano, embora pequena, é riquíssima e trata do nome «católico» e seu uso na Igreja, além de uma defesa apologética do sacramento da Penitência. Apreciem a tradução inédita feita por um excelente sacerdote, que por humildade optou pelo anonimato.

Paciano saúda o seu irmão Simproniano.

I. Meu senhor, e não é uma intenção carnal, como eu estou convencido, mas sim um chamamento espiritual, o que te leva a querer saber de mim a fé da verdade católica, tu, que por teres bebido muito longe do rio, pelo que consta, afastado da fonte e da origem da Igreja principal, é que devias declarar-me quais e quão diversas são as ideias que tu segues, para apresentares qual a razão que causou a tua separação da unidade do nosso corpo, pois é preciso desnudar os membros onde se deve aplicar o remédio. Ora, tapado, por assim dizer, o seio da tua carta, não consigo ver quais os membros que eu devo curar em primeiro lugar. Com efeito são tantas as heresias desde a origem do Cristianismo, que seria preciso um grosso volume para elencar o nome de todas. Na verdade, sem contar os Judeus hereges, Dositeu Samaritano, Saduceus e Fariseus, seria uma coisa muito longa enumerar quantos surgiram nos tempos dos Apóstolos: como Simão mago, Menandro, Nicolau e outros cuja memória se perdeu. Que direi de Ebion, Apeles, Marcião, Valentino, Cerdon, que viveram na época seguinte? E, não muito afastados deles, os Catafriges e Novacianos, já para não falar nas novas seitas que são como enxames?

II. Qual deles, pois, eu devo refutar em primeiro lugar? Se é isso que queres, esta carta não poderá conter os nomes de todos. Ainda assim, naquilo que escreveste, dizes que te inclinaste para os que condenam a penitência segundo a doutrina dos Friges. No entanto, meu caríssimo senhor, estes têm tantos e tão diversos erros, que neles deve cortar-se, não só este único ponto que maquinaram contra a penitência, mas também as suas muitas cabeças, como a hidra de Lerna. Em primeiro lugar, eles apoiam-se em muitos autores, pois penso que o Grego Blasto é um deles. Também Teodoto e Praxeas por vezes ensinaram os vossos. Mas os Friges mais famosos, que se fingem animados pelo espírito de Lêucio e se gloriam de ser instruídos por Próculo, seguindo Montano, Maximila e Priscila, quão enormes controvérsias levantaram acerca do dia de Páscoa, do Paráclito, dos Apóstolos, dos Profetas; e muitas outras, tal como acerca deste nome Católico e acerca do perdão que se alcança pela penitência. Continue reading

São João em Éfeso. As Igrejas da Ásia

Capítulo 13: São João em Éfeso. As Igrejas da Ásia

I

Quando Maria foi arrebatada aos céus, quando todos os irmãos partiram, e a Judeia, perturbada pelas discórdias, profanado pelo paganismo dos costumes, rebaixada em sua fé pelos Idumeus, e em sua liberdade pelos procuradores Felix, Festus, Albinus e mais tarde Gessius Florus, pareceu-lhe tender para essas desolações preditas pelo Mestre, João resolveu deixar também Jerusalém e procurar outro campo para a santa semente.

Vamos encontrá-lo na Ásia proconsular. Não viera só. Acompanhavam-no os anciãos da Igreja de Jerusalém que não tinham fugido além do Jordão. Papias de Hierápolis menciona um enorme cortejo de chefes que se reuniram a João. Eram íntimos dos grandes apóstolos e, tendo-os visto e ouvido, podiam repetir «o que haviam dito André, Pedro, Felipe, Tomé, Tiago, Mateus e os outros discípulos do Senhor» (1).

Não se pode fixar com exatidão a data de sua chegada à Éfeso. Calcula-se que seja posterior ao ano 54 de Jesus Cristo, porque naquela época os Atos falando na pregação de São Pedro nessa cidade, não fazem menção alguma de São João. Muitos presumem até que só veio depois da ruína de Jerusalém. Continue reading

São João e Maria. A Assunção

Capítulo 12: São João e Maria. A Assunção

I

São João não se dirigiu imediatamente para a diocese da Ásia. Um dever sagrado e caro o prendia ainda à Judeia, demorando-se junto da mãe de Deus, que se tornara sua, pelo legado divino da Cruz. Assim, apesar do encanto elevado da lenda, que dá Maria como vivendo em Éfeso, a crítica tem de renunciar a esta suposição completamente incompatível com a tradição, a cronologia e a história. Tudo faz crer que Maria ficou em Jerusalém, e ali morreu.

Nessa hipótese, mais que verosímil, ela não se apartou dos lugares que lhe eram tão caros pelos passos de seu Filho. Ali, na cidade santa, pátria-mãe da fé, e ponto de encontro dos irmãos, fica ela com João até o seu derradeiro dia. Ali desce também ela ao túmulo que não devia guardar seus despojos; e assim compreende-se como, no tempo de São Jerônimo, o mausoléu da virgem era venerado no vale de Josafá, no mesmo lugar onde ainda o encontram os viajantes e os peregrinos.

Qual foi a vida de Maria e do apóstolo na pobre casa onde João a recolheu ao descerem do Calvário? Ninguém o contou; e não sei mesmo se alguma língua humana seria capaz de repetir dignamente aquela conversação «que já era dos céus». Bossuet não se anima:

«Dizer-vos, exclama ele, o que eram as ocupações e os discursos de Maria durante sua peregrinação, penso que não é cousa que os homens devam tentar. Quem poderia descrever a impetuosidade desse mútuo amor, para o qual concorria tudo o que a natureza tem de terno, tudo o que a graça tem de eficaz? É certo, cristãos, que podemos ter uma vaga ideia de todos estes milagres; mas imaginar qual era a veemência dessas correntes de chamas, nem mesmo os serafins, ardentes como o são, jamais poderão fazê-lo» (1)

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São João em Samaria. Martírio de seu irmão Tiago. O concílio. A dispersão

Capítulo 11: São João em Samaria. Martírio de seu irmão Tiago. O concílio. A dispersão

I

Entretanto a caridade começara seu reinado nessa bela comunidade da Igreja do cenáculo, que ia tornar-se o tipo ideal das Igrejas e cuja lembrança pura devia iluminar as últimas instruções de São João em Éfeso.

“Os discípulos perseveravam na doutrina dos apóstolos, na participação a fração do pão e na oração. Todos que acreditavam eram considerados iguais; seus bens estavam em comum. Iam orar juntos no templo, partindo o pão pelas casas com alegria e simplicidade de coração. Louvavam a Deus, agradavam ao povo, e cada dia via-se crescer o número daqueles que se haviam de salvar nesta união” (At 2, 42)

Com efeito, o Evangelho não era mais o pequenino grão de mostarda da parábola; a árvore saia da terra. A verdade não se levantara ainda para os povos sentados à sombra da morte; mas uma cidade, uma província até então cismática, entreabria os olhos a claridade celeste; e, coisa extraordinária! Era esta mesma Samaria, outrora inóspita e sobre a qual João pedira a Jesus que fizesse descer o fogo do céu. Convertidos por Felipe, um dos sete novos diáconos, e batizados por ele, os Samaritanos esperavam que a mão dos apóstolos, únicos investidos do poder, lhes conferisse o Espírito Santo. Pedro foi designado para essa missão. João não podia separar se dele, partiram, pois juntos (1). Convinha que aquele que outrora chamara o fogo vingador sobre os Samaritanos, sabendo enfim agora de que Espírito era fizesse cair sobre suas cabeças mais propícia chama. Continue reading

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