Lição 1: Generalidades

Os profetas Oséias, Amós, Miquéias, Joel, Abdias, Jonas, Naum, Habacuc, Sofonias, Ageu, Zacarias, Malaquias são chamados “menores”, não porque tenham pouca importância, mas porque nos deixaram escritos pequenos, que já no séc. II a.C. eram colecionados num só volume, mais ou menos igual ao volume de um dos profetas maiores (Is, Jr, Ez); o Eclesiástico, escrito no século III a.C., supõe já realizada a compilação dos doze profetas num só rolo; cf. Eclo 49,10.

O texto hebraico, o grego dos LXX e a Vulgata latina chamam-nos “os doze Profetas“. A designação de “Profetas Menores” aparece pela primeira vez em Santo Agostinho, †430 (Da Cidade de Deus 18,29).

A ordem dos Profetas Menores no catálogo sagrado varia no texto hebraico e no dos LXX. Não é cronológica; torna-se difícil assinalar a época precisa de um ou outro desses homens de Deus, Como quer que seja, eles recobrem um período que vai do séc. VIII ao séc. III a.C.; fornecem-nos dados importantes para o nosso conhecimento da história de Israel e dos povos vizinhos. Os seus escritos breves e cheios de imagens apresentam especiais dificuldades para o intérprete; aludem a fatos históricos e pormenores dos costumes do Israel antigo de maneira sucinta e nem sempre clara.

O texto dos LXX coloca os profetas menores antes dos maiores. A seguir, apresentaremos breves notas introdutórias em cada Profeta Menor, seguindo a provável ordem cronológica, e não a ordem do Cânon; estas notas serão entendidas se o estudioso tiver ante os olhos uma tabela cronológica da história do Antigo Testamento, com atenção especial para a queda de Samaria (721) e a de Jerusalém (587); o exílio na Babilônia ocorreu de 587 a 538.

Lição 2: De Amós a Habacuc

1. Amós era natural de Técua (Judá); cf. 1,1. Pastor de gado e cultivador de sicômoros (7,14), era homem simples, de linguagem franca e rude. Exerceu o ministério profético por chamado de Deus (7,5), que o levou para o Reino da Samaria, onde profetizou sob o rei Jeroboão II (783-743 a. C.). Este monarca foi próspero em seus empreendimentos e dilatou as fronteiras do reino (cf. 6,14; 2Rs 14,25). O bem-estar provocou o luxo na construção das casas (3,15; 5,11; 6,8), depravação dos costumes (2,6-8; 4,1; 6,1-6), culto idolátrico (4,4; 5,21-23; 8,14). As calamidades passadas não tinham deixado recordação na mente do povo (4,6-11) ; este esperava o dia do Senhor (dia do julgamento final) como se fosse ocasião de mais bem-estar para Israel (5,18-20; 9,10).

Em meio à prosperidade, ressoou a voz de Amos censurando os vícios, principalmente nas cidades em que os reis cismáticos de Israel tinham construído santuários: Samaria (3,9; 4,1; 6,1-6), Gálgala (5,5) e Betel (4,4; 5,5s; 7,13). Toda a população de Samaria foi severamente repreendida, principalmente os chefes e maiorais; a queda do reino, que ocorreria em 721, foi predita em 7,8s; 8,2, incomodado pelo profeta, Amasias, que devia ser o responsável pelo Templo em Betel, denunciou Amós ao rei Jeroboão (7,10) e expulsou o Profeta para a sua pátria (Judá); cf. 7,13s. Amós soube predizer também a salvação para os bons; é ele quem, pela primeira vez, utiliza a expressão “o resto” de José, para designar os poucos que não se tenham contaminado e com os quais Deus recomeça a sua obra; cf. 5,15, A expressão volta na pregação dos Profetas posteriores; cf.Jr 6,9; 31,7; Mq2,12; Sf 3,13… O ministério de Amós deve ter sido breve (dois anos apenas? Cf. 1,1).

2. Oséias pregou no reino setentrional da Samaria sob Jeroboão II (783¬743); provavelmente assistiu à queda da Samaria, pois em 1,1 está dito que profetizou sob Ezequias de Judá (716-687). Foi, portanto, testemunha da prosperidade política e material de sua gente, levada, por isto, à corrupção dos costumes e à idolatria. O seu livro se divide em duas partes:

  • as relações entre Javé e Israel são simbolizadas pelo casamento de Oséias. Este se casa com uma mulher leviana (Gomer), que o engana; cai na escravidão, depois de abandonar Oséias, mas é resgatada por este, que a recebe de novo como esposa. Julga-se que o episódio assim relatado (Os 1 -3) é fato histórico; serviu para significar a união entre o Senhor e seu povo, violada pelas infidelidades de Israel, que aderiu aos deuses de Canaã;
  • Israel é censurado por sua prevaricação política e religiosa do momento presente (4,1-9,9) e do passado (9,10-14,1). O livro se encerra com uma liturgia de penitência (14,2-10).

O tema principal do livro é o amor de Javé por seu povo infiel.

3. Miquéias profetizou sob Joatã, Acaz e Ezequias, reis de Judá (740¬690). Deve ter conhecido a queda de Samaria em 721 e a invasão de Senaquerib em Judá (701); cf. 1,2-16; 3,12; 4,9-11.14. O profeta Jeremias cita um de seus oráculos contra Judá em Jr 26,18; cf. Mq 3,12.

O livro compreende quatro partes, onde se alternam censuras e promessas: 1, 12-3, 12, processo contra Samaria e Judá; 4,1-5,14, promessas a Sião (incluindo notável profecia messiânica em 5,1-4a); 6,1-7,7, novo processo contra Israel; 7,8-20, cântico de restauração de Jerusalém. Miquéias não poupa os homens gananciosos, os credores sem compaixão, os comerciantes fraudulentos, as famílias divididas, os sacerdotes e os profetas cobiçosos, os chefes tirânicos, os juízes venais, e propõe o quadro ideal: “praticar a justiça, amar com misericórdia e proceder humildemente diante de Deus” (6,8), o que resume a doutrina dos Profetas em geral…

4. Sofonias exerceu sua atividade sob o piedoso rei Josias (640-609) ou, mais precisamente, antes da reforma religiosa empreendida por este monarca em 622 (cf. 2Rs 22,3-23,21), pois o Profeta censura o culto de falsos deuses (1,4s), os ministros da corte real (1,8s; 3,3), as modas estrangeiras (1,8), os falsos profetas (3,4), as injustiças sociais (3,1-3), males aos quais Josias procurou dar um fim em 622.

O livro divide-se em quatro breves partes: 1,2-2,3, o Dia de Javé; 2, 4-15, oráculos contra as nações pagãs; 3, 1-8, vaticínios contra Jerusalém; 3,9-20, promessas de salvação para os gentios e para Israel. A mensagem principal de Sofonias é o anúncio do Dia do Senhor, tema já abordado por Am 5,18-20 e Is 2,10-22; o quadro traçado pelo profeta tem dimensões cósmicas (1,14-18) e recorre a imagens muito significativas (1,7.10-12; 2,2). O Senhor salvará o resto do seu povo (2,9; 3,13), que lhe servirá na humildade, na piedade e na justiça (2,1-3; 3,11-17).

5. Naum era natural de Elcos, cidade a nós desconhecida (cf. 1,1). Trata unicamente da iminente queda de Nínive, capital do império assírio, que ameaçava e subjugava as populações do Próximo Oriente e, em particular, de Judá. Começa por um salmo que descreve a esplendorosa manifestação de Javé, juiz dos povos (1,2-8); a seguir, propõe em duas cenas a ruína de Nínive: 1,9¬2,14, a descrição profética da queda da cidade; 3,1-19, a lamentação sobre a
cidade destruída.

O livro é pouco anterior à perda de Nínive em 612. Exprime o calor da alma de Israel diante do seu inimigo tenaz, o povo assírio, como também revela as esperanças suscitadas pela previsão de sua queda. Através dessas páginas, perpassadas por forte nacionalismo, exprime-se um ideal de justiça e de fé: a ruína de Nínive corresponde a um juízo de Deus, que castiga o inimigo do plano do Senhor (1,11; 2,1) e o opressor dos povos (1,12s; 3,1-7). Is 52,7 retoma a imagem de Na 2,1 para descrever a mensagem da salvação.

6. Habacuc profeta não deve ser identificado como o homônimo de Dn 14,32-38. O seu livro versa sobre o tema:

“Por que o ímpio prevalece contra o justo e insolentemente o oprime?”

O Senhor responde apontando a queda final dos ímpios e a libertação dos justos. A temática assim se desenvolve: 1,2-11, primeira lamentação (1,2-4), à qual o Senhor responde dizendo que suscitará os caldeus para punir os ímpios (1,5-11); 1,12-2,20, segunda lamentação (1,12-17), diante da qual o Senhor promete vencer o opressor (2,1-20); 3, 1-19, salmo do triunfo final de Deus. Muito provavelmente os ímpios que o profeta tem em vista, são os assírios, contra os quais o Senhor havia de suscitar os caldeus, isto é, os babilônios; estes, de fato, tomaram Nínive em 612 e puseram fim à hegemonia assíria. – Habacuc apresenta uma nota nova: ousa pedir contas a Deus do seu governo no mundo; o problema do mal escandaliza o profeta; em resposta, Habacuc ouve que, por caminhos paradoxais, Deus prepara a vitória final do direito; entrementes, o justo vive pela sua fidelidade (cf. Hab 2,4; Rm 1;17; Gl 3,11; Hb 10,38.

Lição 3: De Ageu a Jonas

1. Ageu dá início ao último período dos Profetas, que se segue logo ao exílio (587-538 a.C.). A mudança de tom é muito perceptível: antes do exílio, a temática dos profetas era censura e ameaça de castigo; durante o exílio, tornou- se consolação; após o exílio, veio a ser Restauração.

Ageu acompanha o povo recém-tornado do cativeiro babilónico (587-538 a.C.). Essa gente era hostilizada pelos estrangeiros residentes na Judéia e nos países vizinhos (Esdr 4,1-4); era também acabrunhada pela penúria (Ag 1,6.1 Os; 2,17s; 2c8,10). Diante das ameaças do desânimo e da inércia, o Profeta exortou os seus compatriotas a retomarem a obra de reconstrução do templo do Senhor em Jerusalém. Proferiu duas exortações entre o final de agosto e meados de dezembro de 520. Apresenta a reedificação do templo como a condição da vinda de Javé e do seu reino.

2. O livro de Zacarias compreende duas partes bem distintas: 1-8 e 9-14. Depois de uma introdução (1,1-6), datada de outubro-novembro de 520, dois meses após a primeira profecia de Ageu, o livro refere oito visões do profeta, que tratam da restauração e da salvação de Israel (1,7-6,8) ; seguem-se oráculos messiânicos (6,9-8,23). Este conjunto é certamente da autoria do profeta Zacarias.

A segunda parte (9-14) é muito diferente. Os oráculos não apresentam data e são anônimos; não falam nem de Zacarias nem da reconstrução do templo. Julga-se que foram redigidos nos últimos decênios do séc. IV a. C., após o reinado de Alexandre Magno (t 323). Carecem de unidade, pois constituem duas seções, cada uma das quais tem um título (cf. 9,1 e 12,1) – o que tem levado os estudiosos a falar de Dêutero-Zacarias e Trito-Zacarias (como falam de Segundo Isaias e Terceiro Isaías). O 2-Zacarias refere-se a fatos históricos difíceis de precisar; o 3o é um apocalipse que descreve as glórias da Jerusalém dos últimos tempos.

3. Malaquias significa “meu mensageiro”. Pergunta-se se é o nome de um profeta ou um apelativo genérico (cf. 3,1). O livro consta de seis seções que seguem o mesmo esquema: o Senhor lança uma afirmação; o povo ou os sacerdotes a contestam, mas Javé (geralmente em tom repreensivo) a sustenta. Dois grandes temas são abordados nesses oráculos: as faltas dos sacerdotes e dos fiéis na celebração do culto divino (1,6-2,9 e 3,6-12), o escândalo dos matrimônios mistos e dos divórcios (2,10-16). O Profeta anuncia o Dia do Senhor, que purificará sacerdotes e levitas, punirá os maus e concederá aos justos o triunfo (3,1 -5.13-21). A promessa da vinda de Elias, que precederá o dia do juízo final, parece ser um acréscimo posterior (mas, sem dúvida, parte canônica do livro). Este escrito supõe o culto já restaurado no Templo (515), mas é anterior à proibição dos matrimônios mistos, devida à reforma de Esdras e Neemias em 445 a.C. (cf. Esdr 9s; Ne 10,28-31; 13,23-31).

4. Abdias é o mais curto dos livros proféticos e um dos mais difíceis. Segundo alguns autores, o livro foi dirigido contra Edom, povo vizinho de Judá, sob o rei Jorã (848-841), pois naquela época os árabes e os filisteus devastavam Judá (Ab11; 2Cr 21,16). Outros distinguem entre Proto-Abdias (1-10), do tempo de Jorã, e Deutero-Abdias (11-21), posterior à queda de Jerusalém (587 a.C.).
Outros, por fim, mais sabiamente atribuem o livro ao período do exílio, pois os vv. 11-14.15b se referem ao ódio dos idumeus por ocasião da queda de Jerusalém em 587 (cf. Ez 25,12-14; 35,1s; Lm4,21s; SI 136 ou 137,7). O livro exalta a justiça e o poder de Javé, que age como defensor do direito (15s).

5. O livro de Joel compreende duas partes: 1,2-2,27 refere-se a uma invasão de gafanhotos que flagela Judá e dá ocasião a uma liturgia de luto e súplica; o Senhor responde prometendo pôr termo à praga e restaurar a fartura; 2,28-3,21 descreve o Dia do Senhor, caracterizado pela efusão do Espírito, o juízo sobre as nações e a restauração messiânica do povo eleito. A unidade das duas partes é efetuada pela menção do Dia do Senhor, que é propriamente o tema dos cc. 3-4, mas que já é apontado em 1,15; 2,1s.10s.

Os gafanhotos da primeira parte não hão de ser interpretados em sentido alegórico, como se significassem inimigos provenientes do Norte; trata-se de verdadeira praga, que é tomada como figura dos acontecimentos que antecederão imediatamente o Dia do Senhor (aliás, este é mencionado na primeira parte). A segunda seção de Jl tem características de um apocalipse, gênero literário que descreve a intervenção final de Deus na história, com abalo da natureza (ver nosso “Léxico Bíblico”).

O livro data do pós-exílio ou do ano de 400 a.C. aproximadamente, pois não menciona rei em Judá, mas apenas anciãos e sacerdotes (1,9.13.16; 2,1.15…); há referências à dispersão do povo de Deus entre os gentios (3,2), à venda de judeus como escravos aos gregos (4,6). O livro de Joel vem a ser um compêndio da escatologia judaica.

6. Jonas difere de todos os outros livros proféticos. Narra a história de um Profeta que recusou a ordem do Senhor para que fosse pregar aos ninivitas. Milagrosamente colhido pela Providência, Jonas vai a Nínive e consegue converter a grande cidade. Eis, porém, que se entristece por haver comunicado a mensagem da fé a pagãos. Então Deus lhe afirma que a misericórdia divina atinge todos os povos.

Hoje concordam os estudiosos em reconhecer que o livro é uma narração didática, teológica, e não histórica. O autor apresentou Jonas como o tipo do judeu nacionalista, fechado em seu patrimônio religioso. Esse judeu é censurado pelo Senhor, que o leva a compreender que a salvação é destinada a todos os homens. O livro, portanto, é um testemunho do universalismo que se ia impondo à mentalidade dos judeus em meio aos preconceitos nacionalistas que levavam os judeus do séc. V a.C. a recusar a salvação aos não-judeus. Sendo de época tão tardia, vê-se que o livro não é da autoria nem refere as façanhas do profeta Jonas mencionado em 2Rs 14,25 nos tempos do rei Jeroboão II (783-743).


Para ulterior, aprofundamento, veja:

GRELOT, P., Introdução à Bíblia. Ed. Paulinas 1971.
GRUEN, W., O tempo que se chama hoje. Ed. Paulinas 1977.
SCHÕKEL L. A. e SICRE DIAZ, Profetas II. Ed. Paulinas 1991.
VAN DEN BORN, A., Dicionário Enciclopédico da Bíblia. Ed. Vozes 1971.

Perguntas sobre os Profetas Menores

1) Leia Hab 2,4; Rm 1,17; G! 3,11; Mb 10,38 e veja em que contexto Habacuc escreveu as palavras que o Novo Testamento cita três vezes.
2) Leia Mq 7,6 e Mt 10,35s e diga qual o contexto em que Miquéias escreveu as palavras citadas no Evangelho.
3) Em Mt 12,39-41 Jesus cita o sinal de Jonas. Somos, por isto, obrigados a admitira historicidade de Jn? Explique.
4) Leia Os 11,7-9 e explique o que este texto quer dizer.
5) Como entender os sinais no céu anunciados em Jl 3,3s; 4,15s?