Meditação para a Terça-feira da Pascoela. Obstáculo à Paz: a Preocupação e a Desanimação

Meditação para a Terça-feira da Pascoela

SUMARIO

Meditaremos sobre dois outros obstáculos à paz interior, a saber:

1.° A preocuparão dos negócios;

2.° A desanimação depois das culpas.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De entrarmos muitas vezes em nós mesmo, no meio de nossos trabalhos, para restituir à nossa alma a paz de Deus;

2.° De nunca nos desanimarmos depois de nossas culpas.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra de Nosso Senhor aos seus Apóstolos:

“Não se, turbe o vosso coração” – Non turbetur cor vestrum (jo 14, 1)

Meditação para o Dia

Transportemo-nos pelo pensamento ao Cenáculo, onde se acham reunidos os Apóstolos; ajoelhemos aos pés de Jesus ressuscitado, que lhes traz a Sua paz:

“Paz seja convosco!” – Pax vobis (Jo 21, 26)

Supliquemos-Lhe que diga a mesma palavra ao nosso coração, e adoremo-lO, louvemo-lO e amemo-lO.

PRIMEIRO PONTO

A Preocupação dos Negócios, obstáculo à Paz Interior

Conservar a paz interior é coisa fácil à alma religiosa, que vive na sua cela, estranha ao mundo e às suas novidades, aos negócios e a milhares de ocupações que absorvem muitas vezes todos os momentos da vida; mas conservar a paz interior quando, desde manhã até à tarde, se está cercado de ocupações, que, como um mar agitado, vos invadem e vos não deixam descanso (1), eis o que é muito mais difícil, eis até mesmo o que alguns declaram impossível; e isso é um erro. Para não perder a paz interior nestas ocasiões, basta tratar de cada negócio um depois do outro, com a mesma tranquilidade e liberdade de entendimento, como se nada se tivesse feito antes e como se nenhuma outra coisa se tivesse a fazer depois; com um completo desprendimento de toda a inquietação e agitação, pela razão bem evidente que, quanto mais temos a fazer, mais necessitamos de não nos perturbarmos; que é com o espírito tranquilo e refletido, na plena posse de si, que se acha a sabedoria, que manda fazer todas as coisas como convém; que, ainda quando a perturbação e a pressa pudessem produzir algum bem, nem por isso se deveria conservar menos a paz da alma, porque o mundo inteiro não vale a paz interior; porque, depois do pecado, não há maior mal que a perturbação; porque facilmente nesse movimento apressado, nessa espécie de fermentação interior, nada há as mais das vezes que não seja natural e humano; a graça não intervem nisso; o espírito de Deus não está ali, e nada que seja prudente e refletido é possível, quando se está preocupado. Assim tinha compreendido São Vicente de Paulo que, apesar das maiores ocupações, sabia sempre conservar-se tão tranquilo, tão senhor de si, como o atestava a serenidade habitual da sua alma e do seu rosto.

Seguimos nós estas regras de proceder?

SEGUNDO PONTO

A Desanimação depois das culpas, outro obstáculo à Paz Interior

Muitas vezes a alma, vendo as suas misérias e a sua fragilidade, perturba-se e esmorece, ora por um profundo sentimento da sua ineficácia para o bem, ora por um enfado de amor-próprio. Que! Depois de tantas resoluções, sempre recair; depois de tantos remédios, estar sempre doente; depois de tantas orações, ter sempre o espírito tão distraído, tão leviano, o coração tão frio! Quem não perderia a paz? Assim se discorre algumas vezes; mas, diz Davi, é em vão que o homem se perturba (2). Nunca a desanimação e a turbação, que ela causa, fizeram algum bem, nunca curaram algum mal. Esta turbação obscurece a razão, desordena o interior, abate o ânimo, esfria a vontade, e torna o espírito incapaz das luzes divinas. É muito melhor então humilharmo-nos tranquilamente diante de Deus e, reconhecendo a nossa profunda miséria, confessar que, sem o seu socorro, teríamos feito ainda pior, e agradecer-Lhe de todo o nosso coração por não termos feito mais mal, visto que não há pecado do que não sejamos capazes, se a graça de Deus nos não detêm. Depois desta humilde confissão, levantamo-nos cheios de confiança nas divinas misericórdias; lançamo-nos nos braços de Deus, com o coração penetrado de amor, como o filho pródigo nos braços de seu Pai, e animando-nos a reparar o pecado cometido com uma vida melhor. Logo que podemos, fazemos uma boa confissão, e não nos lembramos mais das nossas culpas, ao menos com todas as circunstâncias, porque essa lembrança poderia dar ocasião ao demônio, seja para nos tentar ainda, seja para nos perturbar com o temor de não termos declarado todas as circunstâncias; só devemos guardar dos nossos pecados uma ideia confusa e geral para nos conservarmos a humildade.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Quasi mare fervens, quod quiescere non potest (Is 57, 20)

(2) Verumtamen vane conturbatur omnis homo (Sl 38, 12)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo II, p. 267-270)