Os Livros Históricos

Entramos agora no Antigo Testamento, conscientes de que quem conhece o Novo Testamento tem necessidade de estudar o Antigo. Não entenderíamos bem os Evangelhos, São Paulo e os demais escritos cristãos se não conhecêssemos com exatidão Abraão, Jacó, Moisés, Davi, Isaías…

Os livros do Antigo Testamento são 46. Costumam ser distribuídos em três categorias: históricos (desde o Gênesis até o 2Mc), sapienciais ou didáticos (Jó, Pr, Sl, Ct, Ecl, Sb, Eclo) e proféticos (Is, Jr, Lm, Br, Ez, Dn e os doze profetas menores). A nossa exposição seguirá tal ordem, que é também a ordem do Cânon adotada por nossas edições da Bíblia.

Os cinco primeiros livros da Bíblia (Gn, Ex, Lv, Nm, Dt) constituem a Lei ou Torá de Moisés, também chamada Pentateuco (em grego, pente = cinco; teuchos = rolo ou livro). Começaremos por este conjunto de cinco livros; a princípio, entre os judeus, constituíam uma obra só (= a Lei); mas, por razões práticas, a Lei foi dividida em cinco partes.

O Pentateuco

Lição 1: Generalidades

Os nomes das cinco partes do Pentateuco são gregos e devem-se aos judeus que fizeram a tradução alexandrina ou dos LXX; ver Etapa I, módulo III.

  • Gênesis quer dizer origem, porque este livro começa falando das origens do mundo e do homem.
  • Êxodo significa saída, porque o livro trata da saída dos judeus prisioneiros no Egito;
  • Levítico é o livro dos levitas ou sacerdotes, pois apresenta leis para o culto;
  • Números é o livro que começa pela história de um recenseamento feito por Moisés no deserto;
  • Deuteronômio é o livro que contém a repetição da Lei (déuteron = segundo; nómos = Lei).

O Gênesis compreende duas partes: Gn 1-11 e 12-50. A primeira é chamada “pré-história bíblica”, porque apresenta acontecimentos anteriores à história bíblica; esta começa no capítulo 12 com Abraão (séc. XIX a.C.). Tudo o que precede Gn 12, vem a ser o fundo de cena que explica por que Deus quis chamar Abraão e fazer-lhe promessas; o Criador fez o mundo e o homem muito bons, mas o pecado estragou a obra de Deus (como se vê no caso de Caim, no do dilúvio, no da torre de Babel); por isto Deus separa um homem e sua descendência para serem os depositários da esperança de um Messias Salvador. A segunda parte do Gênesis (12-50) apresenta os patriarcas Abraão, Isaque e Jacó, mediante os quais Deus vai realizando a preparação do Messias.

O Êxodo descreve:

1) a saída do Egito mediante as dez pragas e a celebração de Páscoa (1,1-15,21); 2) a caminhada até o monte Sinai (15,22-18,27);

2) a aliança e a legislação do Sinai (19,1-40,38).

O Levítico apresenta coleções de leis relativas ao culto (1,1-10,20) e à santidade do povo (11,1-27,34).

O livro dos Números contém outras leis mescladas com a narrativa da caminhada até as margens do Jordão (1,1-36,13).

O Deuteronômio consta de cinco sermões de Moisés que recapitulam a Lei (1,1-4,43; 4,44-11,32; 12,1-28,68; 28,69-30,20; 31,1-29) e da narração do fim da vida de Moisés (31,30-34,12).

Estes dados permitem avaliar a importância histórica, religiosa e moral do Pentateuco, ao qual nenhum outro documento da antiguidade pode ser comparado.

Lição 2: A origem do Pentateuco – o problema

Sem negar a inspiração divina do Pentateuco, o estudioso tem o direito de investigar qual tenha sido o autor humano de tal obra.

1. Até o século XVIII d.C. admitia-se que Moisés no séc. XIII a.C. tivesse escrito os cinco livros da Lei. Em favor desta tese, podem ser citados textos do Antigo Testamento, como Ex 17,14; 24,4; Nm 33,2; Dt 31,9.22.24… e do Novo Testamento: Jo 5,45-47; Mt 8,4; 19,8; Mc 7,10; 12,26…

2. Todavia nos últimos séculos o estudo atento do Pentateuco mostrou que Moisés não parece ser simplesmente o autor de toda esta obra. Eis os principais argumentos que justificam este novo modo de pensar:

a) a morte de Moisés é narrada em Dt 34,1-12;

b) Há trechos em que Deus é designado, de preferência, pelo nome revelado Javé, ao passo que em outros predomina a designação Elohim. Isto parece insinuar diversidade de autores.

c) Há narrações em duplicata. Por exemplo:

  • há dois relatos da criação do mundo (Gn 1,1 -2,4a e 2,4b-25), da expulsão de Agar (Gn 16,4-16 e 21,9-21), da aliança de Deus com Abraão (Gn 15.1- 21 e 17,1-27), da vocação de Moisés (Ex 3,1-4 e 6,2-8), da queda do maná e das codornizes (Ex 16,2-36 e Nm 11,4-34), da produção da água do rochedo (Ex 17,1-7 e Nm 20,1-13);
  • há três recensões do decálogo (Ex 20,1-17; 34,10-28; Dt 5,6-21), da lei concernente aos escravos (Ex 21,2-11; Lv 25,39-46; Dt 15,12-18), da lei referente ao homicídio (Ex 21,12-14; Dt 19,1 -13; Nm 35,9-34);
  • há cinco recensões do catálogo das festas: Ex 23,14-19; 34,18-26; Dt 16.1- 17; Lv 23,4-44; Nm 28,1-29,39;
  • há nove recensões da lei do sábado: Ex 20,8-11; 23,12; 31,12-17; 34,21; 35,2s; Dt 5,13s; Lv 23,3; 25,2; Nm 28,9s.

d) Há cortes e enxertos, assim:

  • em Gn 4,25s ocorre o início da genealogia de Adão, que recomeça e continua em Gn 5,1;
  • as palavras de Ex 2,23a não se ligam com 2,23b, mas, sim, com Ex 4,19;
  • em Ex 19,25 lê-se: “Moisés desceu, foi ter com o povo e disse-lhe…” sem continuação;
  • em Ex 32-34 a narrativa da infidelidade de Israel e da restauração da Aliança interrompe um trecho jurídico homogêneo (Ex 25-31 e 35-40).

Estes dados são suficientes para justificar as dúvidas dos críticos sobre a origem do Pentateuco: dificilmente se poderia sustentar que Moisés tenha escrito o “livro da Lei” como ele hoje se encontra.

Lição 3: A solução

Depois de muito pesquisar a questão, os estudiosos propõem hoje a seguinte teoria para a origem do Pentateuco, teoria que a Igreja Católica aceita:

O povo de Israel teve seu começo quando Deus chamou o Patriarca Abraão no séc. XIX a.C., levando-o a emigrar para a terra de Canaã. Abraão deu início ao povo de Israel (Israel-Jacó era filho de Isaque, e este era filho de Abraão). No decorrer dos tempos, o povo foi criando suas tradições históricas e jurídicas (leis sociais, militares, religiosas…).

No século XIII a.C. Moisés tornou-se o chefe do povo cativo no Egito, Por essa ocasião, no deserto Deus quis travar aliança com o povo eleito; mandou, pois, que Moisés codificasse leis e tradições históricas já existentes em Israel (cf, Ex 24,3-8; 34,28). O mesmo Moisés terá redigido outras leis, ampliando o bloco legislativo da sua gente. Assim Moisés tornou-se para a posteridade o legislador de Israel por excelência; o seu nome e o conceito de Lei (Torá) ficaram definitivamente associados entre si.

Uma vez estabelecido na terra de Canaã, após o cativeiro egípcio, o povo de Israel foi constituindo seus santuários (Betel, Hebron, Dã, Siquém, Mambré, Bersabé, Jerusalém…), aonde os fiéis iam periodicamente para celebrar o culto do Senhor. Nesses santuários residiam sacerdotes e levitas, que cultivavam as tradições históricas e jurídicas de Israel; redigiam-nas em peças adaptadas à catequese ou à liturgia, e assim as comunicavam ao povo. Desta forma o bloco de tradições que no séc. XIII recebeu o cunho de Moisés, foi aos poucos sendo acrescido de novas leis motivadas pelas sucessivas mudanças de condições históricas e sociais do povo de Israel.

A partir dos tempos de Salomão (972-932), passou a existir na corte dos reis tanto de Judá como da Samaria (reino cismático desde 930) um corpo de escribas, que zelavam pelas tradições de Israel; eram homens letrados, que se achavam em estrito contato com os sacerdotes. Os escribas e os sacerdotes procuravam recolher em compilações mais ou menos sistemáticas os ensinamentos (da história e da legislação) de Israel, a fim de possuir uma visão de conjunto dos benefícios de Deus para com seu povo.

Do trabalho dos escribas e sacerdotes, resultaram algumas coleções de narrativas históricas e de leis. Dessas coleções, quatro podem ser identificadas, pois entraram como fontes na composição do Pentateuco:

1) A coleção ou o código ou o documento dito Javista (J), no qual predomina o nome Javé para designar Deus. Teve origem no reino de Judá sob Salomão (972-932).

O código J caracteriza-se por seu estilo simbolista e antropomórfico¹, mostrando Javé muito perto dos homens – o que é forte sinal de antiguidade: assim notemos o segundo relato da criação (Gn 2,4b-25), onde o Senhor é descrito como oleiro (2,7), jardineiro (2,8), cirurgião (2,21), arquiteto (2,22); Javé passeia no jardim em 3,8, é alfaiate em 3,21, fecha a porta da arca de Noé em 7,1 G, visita Abraão e ceia com ele em 18,1-8; desce para ver o pecado de Sodoma em 18,21.

O código J apresenta narrativas cheias de vivacidade, realçando o dramático da história; ver Gn 3 (a queda dos primeiros pais), Gn 18s (a visita do Senhor a Abraão), Ex 7,8-10,29 (as pragas do Egito)… Reproduz também as etimologias populares de nomes de pessoas e lugares; ver Gn 3,20 (Eva); 11,9 (Babel); 25,26 (Jacó); 25,30 (Edom); 32,29 (Israel); Nm 20,13 (Meriba).

2) O código (ou documento) Eloísta (E). Dá larga preferência ao nome Elohim (= Deus). Foi redigido entre 850 e 750 no reino cismático da Samaria (parte setentrional da Palestina).

Evita os antropomorfismos de J, pondo mais em relevo a transcendência de Deus; Este fala aos homens por vias menos diretas, servindo-se de sonhos ou da intervenção de anjos (cf. 15,1; 20,3.6; 21,17; 22,11.15; 28,12).

Após a queda do reino da Samaria em 722, as tradições eloístas codificadas foram levadas para o reino de Judá, ao Sul. Aí um editor as fundiu com as tradições javistas, dando origem ao código JE (Javista-Eloísta). Nessa fusão, julga-se que o documento E foi menos aproveitado do que J, de modo que algumas de suas características hoje em dia não podem mais ser reconhecidas. Os críticos apontam como as mais belas peças do Eloísta os textos de Gn 22,1-4 (o sacrifício de Abraão), 40-42 e 48 (partes da história de José).

3) Deuteronômio (= repetição da lei, em grego) ou documento D. Este código, sob a forma de discursos de Moisés ao povo, apresenta de novo e desenvolve as grandes linhas da Lei.

A sua origem é a seguinte: nos grandes santuários do reino da Samaria (Siquém, Da, Betel…), o povo de Israel se reunia periodicamente (cf. Dt 31,10-13) , a fim de renovar a sua aliança com Javé (à semelhança do que narra Js 8,30-36; 24,1-28). Os levitas dos santuários devem ter redigido formulários que repetiam a Lei do Senhor em termos breves e eram lidos solenemente ao povo antes da renovação da promessa de fidelidade ao Senhor. Essas “repetições da Lei” retomavam elementos antigos da legislação israelita, mas adaptavam-nos aos tempos e as novas condições sociais de Israel. Aos poucos, a repetição da Lei foi assumindo uma forma única em cada santuário do reino do Norte.

Quando estes lugares sagrados em 722 foram invadidos pelos assírios, os levitas levaram consigo para Jerusalém os seus deuteronômios (ou repetições da Lei). Julga-se que alguns desses textos (o núcleo central Dt 12-26, talvez acompanhado de Dt 4,44-11,32 e 27,1-28,68) foram depositados no Templo do Senhor, onde caíram no esquecimento, em virtude da decadência religiosa de Judá. Todavia, sob o reinado de Josias (640-609), o código foi de novo encontrado, servindo então para inspirar a renovação religiosa empreendida por este rei piedoso (cf. 2Rs 22). Por ocasião de sua descoberta e depois, o código chamado Deuteronômio (que compreendia alguns “deuteronômios” ou repetições da Lei) terá recebido acréscimos correspondentes às condições sociais da época.

A redação final do D se deve ao século V a.C. quando o Deuteronômio, na íntegra, foi anexado ao bloco da Torá. No Deuteronômio hoje existente distinguem-se cinco “deuteronômios” ou repetições da Lei: 1,1-4,43; 4,44-11,32; 12,1- 28,68; 29,69-30,20; 31,1-29.

A principal característica do código D é a eloqüência do seu estilo, que lembra as pregações e exortações feitas pelos sacerdotes ao povo fiel. As frases são cadenciadas, de modo a penetrar nos corações e movê-los ao amor e à generosidade para com Javé.

4) Código Sacerdotal (ou “Priesterkodex“, P). No século VI, durante o exílio da Babilônia (587-538 a.C), os sacerdotes de Jerusalém terão, por sua vez, redigido as tradições de Israel num código que foi chamado “Código Sacerdotal”. Viam-se diante de um povo prostrado moralmente e destituído da sua monarquia. Quiseram, portanto, mostrar aos judeus a continuidade das bênçãos e promessas de que gozava o antigo povo de Israel. Isto explica a tendência de P a apresentar dados cronológicos e tabelas genealógicas, elementos que ligavam aos Patriarcas o povo do exílio e do pós-exílio (cf. Gn
5,1- 32; 6,9s; 10, 1-17; 11,10-32; 25,7-20; 36; 46,8-27). Os trechos históricos e jurídicos de P têm a finalidade de mostrar que Deus mesmo instituiu Israel como uma comunidade de culto ou como uma nação sacerdotal (cf. Ex 19,5$); tal era realmente a condição dos judeus após a queda da monarquia. Notemos a ênfase com que P menciona o Templo, a Arca, o Tabernáculo, o ritual, a Aliança. De modo geral, o estilo desse documento revela uma mentalidade culta, que sabe exaltar a transcendência de Deus.

Para concluir, observemos: no século V a.C., um sacerdote (Esdras?) deve ter fundido os documentos P e JE, colocando em apêndice a esse bloco o código D. Assim se constituiu o Pentateuco ou a Torá como a temos hoje.

Lição 4: Observações finais

Como se vê, Moisés não pode ser tido como autor do Pentateuco no sentido moderno; não escreveu por inteiro a Lei.

Moisés, porém, é o inspirador de toda a legislação hebraica antiga: ele criou a tradição jurídica e historiográfica de Israel; deu-lhe seus fundamentos e suas grandes linhas, que os juristas posteriores adaptaram e desenvolveram.

Daí dizer-se que Moisés é o autor “da substância” do Pentateuco. Esta função era suficiente para que os judeus antigos atribuíssem simplesmente o Pentateuco a Moisés. Os semitas tinham um conceito especial de totalidade: no núcleo inicial de determinada obra já viam incluída toda a evolução posterior dessa obra e atribuíam o conjunto inteiro ao autor do núcleo: assim é que Moisés
pôde, sem mais, ser considerado pela tradição judaica como autor do Pentateuco.

O fato de se admitirem fontes e mãos diversas na redação do Pentateuco não exclui a índole inspirada desse livro. Salva-se o conceito de inspiração, dizendo-se o seguinte: o redator ou os redatores que concorreram diretamente para dar ao Pentateuco a sua forma definitiva, foram iluminados pelo Senhor a fim de distinguir, em suas fontes ou em seus conhecimentos, o que correspondia e o que não correspondia à mensagem que o Senhor por ele (ou por eles) queria comunicar aos homens; assim iluminados ou inspirados, só incluíram no texto canônico do Pentateuco os elementos portadores de autêntica lição religiosa. – Veja-se a propósito Etapa l, Módulo l deste Curso (conceito de inspiração bíblica).


Referências:

(1) O antropomorfismo representa Deus à semelhança de um homem.

Para aprofundar a matéria deste Módulo, veja:

BALLARINI, T, Introdução à Bíblia, vol. 11/1. Ed. Vozes 1975.
BRIEIMD, J., Uma leitura do Pentateuco. Ed. Paulinas 1980.
CHARPENTIER, E., Para uma primeira leitura da Bíblia. Ed. Paulinas 1980.
LÀPPLE, A., Bíblia: interpretação atualizada e catequese. Vol. 1. Ed. Paulinas 1978.

Perguntas sobre o Pentateuco

1) Como o Pentateuco é designado em Lc 10,26; 2,22.23; Mc 12,26; 2Cor 3,15?
2) Leia 2Rs 22,3-20 e explique como foi descoberto o livro da Lei do Senhor? Qual o provável conteúdo desse livro?
3) Quais eram as grandes festas de Israel? Veja Ex 23,14-19; 34,18-26; Dt 16,1-17; Lv 23,4-44; Nm 28,1-29,39.
4) Como o Deuteronômio expõe o amor de Deus para com o seu povo? Veja Dt 7,6-11; 8,2-5.
5) Qual o nome com que Javé se revela a Moisés? Veja Ex 3,13-15; 6,2s. Procure o significado desse nome.