Meditação para o Sábado da Terceira Semana da Quaresma. O meado da Quaresma

Meditação para o Sábado da Terceira Semana da Quaresma

SUMARIO

Empregaremos a meditação de hoje:

1.º Em refletirmos na primeira metade, da Quaresma já decorrida;

2.° Em pensarmos nos meios de passarmos a segunda metade deste santo tempo.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De nos entregarmos à meditação e ao espírito de oração com o frequente uso das orações jaculatórias;

2.º De pormos melhor em prática os ensinos que ouvirmos e as piedosas leituras que fizermos.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra de Santo Agostinho:

“Temei de perder a graça, que passa” – Time Jesum transeuntem

Meditação para o Dia

Adoremos Jesus Cristo isolado no deserto, durante a santa quarentena, cuja memória celebramos. Este divino solitário convida-nos a que nos tornemos melhores durante estes dias de salvação. Confundamo-nos por ter até ao presente tão mal correspondido ao Seu convite, e roguemos-Lhe a graça de Lhe correspondermos melhor durante a segunda metade deste tempo.

PRIMEIRO PONTO

Nós não temos sido o que devíamos ser durante a primeira metade da Quaresma

Para o compreendermos, basta considerar o que devíamos ser e o que temos sido.

— Em primeiro lugar, o que devíamos ser.

É um grande erro pensar que para nos salvarmos, basta não cometer grandes crimes. Esse mancebo do Evangelho, que tinha cumprido os mandamentos (1), recusou abraçar a mais alta perfeição, que era vender o que tinha para o dar aos pobres; e isto bastou para que Nosso Senhor dissesse com tristeza: que um rico dificilmente entrará no reino dos céus! E para que os Apóstolos acrescentassem:

“Se aquele não se salvou, quem poderá logo salvar-se?” – Quis ergo poterit salvus esse? (Mt 19, 25)

Duas palavras que pareciam profetizar a perdição daquele desgraçado. Os mesmos Apóstolos tiveram entre si uma questão de amor-próprio, que não excedia os limites do pecado venial (2); e não obstante isto Jesus Cristo diz-lhes:

“Se vos não converterdes, não haveis de entrar no reino dos céus” – Nisi conversi fueritis et efficiamini sicut parvuli, non intrabitis in regnum caelorum (Mt 18, 3)

O bispo de Éfeso, que se crê ter sido São Timóteo, mereceu com os seus trabalhos e zelo ser louvado por Nosso Senhor todavia não se teria salvado, se não diligenciasse tornar-se melhor. Era mais fervoroso ao começar, lhe diz Jesus Cristo: se não recobras esse primeiro fervor, moverei o teu candieiro do seu lugar (3), isto é, te tirarei a luz da minha graça. Todos estes exemplos dizem-nos claramente que se enganam aqueles que julgam que se hão de salvar, por isso só que não cometem grandes crimes. Para qualquer se salvar, é necessário que tome a peito a vida perfeita, e a continue todos os dias sem nunca parar.

É preciso que corresponda a todas as graças que recebe, e que tenha uma vida em harmonia com elas: porque a todo aquele, a quem muito foi dado, muita lhe será pedido (4). Eis aqui quais deviam ser os nossos esforços quotidianos durante esta primeira metade da Quaresma.

— Ora, é assim que temos vivido?

Temos tomado a peito a grande Obra da nossa perfeição? Temos compreendido que estas palavras de Nosso Senhor: Sede perfeitos, como também vosso Pai celestial é perfeito (Mt 5, 48), não enunciam um simples conselho, mas um rigoroso preceito de tender à perfeição? Temos nós, por conseguinte, procurado cada dia obrar melhor que na véspera, a cada hora viver melhor que na hora que precedeu? Que fruto temos tirado de todos os meios de salvação deste santo tempo, de tantos ensinos, de tantas exortações, de tantas leituras, de tantos piedosos exemplos, de tantos bons pensamentos e sentimentos, de tantas graças, finalmente interiores e exteriores? Ai! Reconheçamos, gemendo que não temos sido o que devíamos ser,

SEGUNDO PONTO

Meios de passar melhor a segunda metade da Quaresma

1.° Devemos deixar a vida distraída para nos entregarmos à meditação, sem a qual toda a virtude é impossível.

2.° Devemos dizer conosco no fundo do coração: Quero ser um santo; e em consequência desta resolução, evitar com cuidado os pecados até veniais, sem nunca nos atrevermos a cometer algum de propósito; depois de fazer muitas vezes esta pergunta a nós mesmos:

“É assim que os santos pensavam, obravam, oravam, conversavam?”

E conformar com isto o nosso procedimento.

3.° Devemos não resistir a nenhuma graça, mas entregar-nos nas mãos de Deus para nos deixarmos guiar pelo Seu Espírito, como o menino pela mão de sua mãe. A cada leitura que fizermos, ou a cada ensino que ouvirmos, devemos dizer conosco:

“Que fruto tirarei eu disto?”

A cada bom pensamento, que nos sobreviver, devemos responder a Deus como Samuel: Aqui estou, SenhorEcce adsum, e seguir a inspiração.

4.° Devemos fixar algum defeito particular, cuja emenda prosseguiremos todo o resto da Quaresma, como o amor-próprio, o gênio ou os pecados da língua.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Omnia haec custodivi a juventute mea (Mt 19, 25)

(2) Quis eorum videretur esse major (Lc 22, 24)

(3) Movebo candelabbrum tuum de loco suo (Ap 2, 5)

(4) Cui commendaverunt multum, plus petent ab eo (Lc 12, 18)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo II, p. 155-158)