Meditação para o dia 14 de Maio. Maria Santíssima nos vale no Tribunal Divino

Meditação para o dia 14 de Maio

Quando uma alma está pra sair desta vida, diz Isaías, se conturba o inferno todo e manda os demônios mais terríveis a tentá-la antes de sair do corpo e depois acusá-la, quando se apresentar ao tribunal de Jesus Cristo.

“O inferno via-se lá em baixo à tua chegada todo turbado, e diante de ti levanta gigantes” (Is 14 9)

Mas Ricardo diz que os demônios, em se tratando de uma alma patrocinada por Maria, não terão atrevimento, nem ainda para acusá-la. Pois sabem muito bem que o Juiz nunca condenou, nem condenará jamais uma alma patrocinada por sua grande Mãe. São Jerônimo escreve à virgem Eustóquium que Maria não só socorre os seus amados servos na sua morte, mas também os vem esperar na passagem para a eternidade, a fim de os animar e de os acompanhar até o tribunal divino. Ó dia esse, exclama o Santo, em que a Mãe de Deus, rodeada de muitas virgens, há de vir ao teu encontro! E isto se conforma com a que a mesma Santíssima Virgem disse a Santa Brígida, referindo-se a seus devotos moribundos: Na hora da morte dos meus servos eu venho, como Senhora e Mãe amantíssima deles, e lhes trago consolo e alívio. Ajunta São Vicente Ferreri que a bem-aventurada Virgem recebe as almas dos que morrem. Nossa amorosa Rainha acolhe sob seu manto as almas dos seus servos, apresenta-as ao Filho que as deve julgar e obtém-lhes a salvação. Foi o que aconteceu a Carlos, filho de Santa Brígida. Morrera na perigosa carreira de soldado, longe da mãe, que por isso mesmo muito temia pela salvação dele. Mas a Santíssima Virgem revelou-lhe que Carlos se havia salvado, pelo grande amor que lhe consagrava razão por que eia própria o assistira na última hora, sugerindo-lhe todos os atos cristãos necessários no momento. Ao mesmo tempo viu a Santa Jesus Cristo no trono, e viu também que o demônio lhe apresentou duas acusações contra a Santíssima Virgem. Era a primeira que Maria lhe tinha impedido de tentar o moribundo; a segunda, que ela mesma havia apresentado ao Juiz a alma de Carlos e assim a salvara, sem lhe permitir alegar nem ainda os direitos que ele, demônio, possuía.

Seus vínculos são uma atadura de salvação — e nela acharás tu no fim o teu descanso (Ec. 6, 29, 31). Feliz de ti, meu irmão, se na hora da morte te achar preso pelas doces cadeias do amor à Mãe de Deus. Como cadeias de salvação, esses vínculos te assegurarão a tua eterna bem-aventurança, e te farão gozar na morte aquela paz bendita, que será princípio da paz e do repouso eterno. Refere o padre Binetti no seu livro “A Perfeição”, que assistindo ele um grande devoto de Maria à hora da morte o ouviu dizer antes de expirar:

“Ó meu padre, se soubésseis quanto contentamento sinto por ter sido servo da Santíssima Mãe de Deus!”

Não sei explicar a alegria que sinto neste instante! — Tinha o padre Suarez muita devoção a Nossa Senhora e costumava dizer que trocaria sua ciência pelo valor de uma Ave-Maria. Ao morrer, tanta lhe era a alegria, que exclamou:

“Nunca imaginei que fosse tão suave o morrer!”

O mesmo contentamento e alegria sentirás também tu, devoto leitor, se na hora da morte te recordares de haver amado a esta boa Mãe, a qual não sabe deixar de ser fiel com os seus filhos, que foram fiéis em servi-la e em obsequiá-la, visando-lhe as imagens, rezando o rosário, jejuando, rendendo-lhe graças com frequência, louvando-a e encomendando-se a seu poderoso patrocínio.

Não te privará desta consolação a lembrança de teus pecados passados, se de hoje em diante cuidares em viver como bom cristão, servindo a tão grata e benigna Senhora. Verdade é que o demônio há de vir com angústias e tentações para levar-te ao desespero. Mas a Virgem te confortará; virá em pessoa te assistir na hora da morte, como fez a Adolfo, conde de Alsácia. Deixara-o mundo e entrara para a Ordem dos Franciscanos, onde se tornara como rezam as Crônicas, um grande servidor de Maria. Estando para morrer, ao pensar no rigor do juízo divino, começou a tremer perante a morte, cheio de receios sobre a sua salvação. Então Maria, que não dorme nas angústias dos seus servos, acompanhada de muitos santos, se apresentou ao moribundo e animando-o lhe disse:

“Meu caro Adolfo, por que tens medo da morte? Por ventura não me pertences? Com estas palavras o servo de Maria se consolou, desaparecendo todos os seus temores e expirou em santa paz e contentamento”

Eia, pois, animemo-nos nós também. Ainda que sejamos pecadores, tenhamos confiança que Maria há de vir assistir-nos na hora da morte, consolando-nos com sua presença, se a servirmos com amor durante os dias que ainda nos restam no mundo. Nossa Rainha prometeu um dia a Santa Matilde que havia de vir assistir, à hora da morte, todos os seus devotos que a servissem fielmente em vida, Que consolação, ó meu Deus, não será a nossa, quando no último momento da nossa vida, tão decisivo para a causa dá nossa salvação, virmos ao pé de nós a Rainha do céu, assistindo-nos e consolando-nos com a promessa de sua proteção. Inumeráveis exemplos da assistência de Maria a seus servos moribundos, além dos já citados, vem narrados em vários livros. Esse favor foi concedido a Santa Clara, a São Felix de Cantalício, capuchinho, Santa Clara de Montefalco, a Santa Teresa, a São Pedro de Alcântara. Conta o padre Crasset que Santa Maria Ognocense viu a Santíssima Virgem à cabeceira de uma devota viúva de Villembroc, que ardia em febre, e viu-a consolando a doente, refrigerando e aliviando-a em sua febre.

Fechemos este capítulo com um novo exemplo que fala do eterno amor desta boa Mãe para com seus filhos na hora da morte.

EXEMPLO

A mãe não assiste indiferente à agonia de um filho. Nossa Senhora, a melhor e mais santa e perfeita das mães, há de ser indiferente para conosco nos últimos e terríveis momentos de nossa vida? São João de Deus, nas lutas de uma agonia dolorosa, queixou-se à Virgem Santíssima:

— “Ó minha Mãe, não vos sinto ao meu lado para me amparar-me!”

— “Oh! Meu filho, responde Maria, não é meu costume abandonar em tal hora os meus servos fiéis.

Quem todos os dias repetiu na Ave-Maria:

— “Rogai por nós, pecadores agora e na hora de nossa morte, poderá morrer sem a proteção da Mãe de Deus?”

Oh! Não! Tenhamos confiança! Se o pensamento da morte nos horroriza, se temos receio dos últimos combates da agonia, confiança em Nossa Senhora! Não seremos desamparados.

O Menológio cisterciense conta de um monge, que na hora da morte, cercado de seus irmãos, sorria feliz e tranquilo, enquanto os monges oravam junto ao leito de agonia, cheios de terror ao espetáculo da morte que iam contemplar. E, pensando na Eterna Justiça, que vê faltas e imperfeições até nos seus Anjos, pediram todos a misericórdia Divina para o agonizante. Admirado por ver sorrir o monge naquela hora tão grave e solene, pergunta-lhe um dos irmãos:

“Que é isto, meu irmão? Nosso Padre São Bernardo, em igual momento extremo, tremia apavorado, e tu ris?”

— “Ah! Meu irmão, responde o moribundo, com não me hei de alegrar? Tenho aqui presente Nossa Senhora, que me dá força e vence o demônio”

E expirou com doce sorriso. Ó Maria, livrai-nos do inimigo e, na hora da morte, recebei-nos!

ORAÇÃO

Quando eu me achar nas ânsias da morte, ó Maria, esperança minha, não me abandoneis. Então fortalecei-me mais do que nunca e assisti-me para que, à vista de meus pecados relembrados pelo demônio, eu não me entregue ao desespero, ó Senhora minha, escusai tanta ousadia: vinde vós mesma consolar-me com a vossa presença. A tantos outros já tendes feito semelhante graça. Fazei-a também a mim. Se grande é minha ousadia, ainda maior é vossa bondade, que anda procurando os infelizes para os consolar. É nesta que eu ponho minha esperança. Seja vossa eterna glória o haverdes salvo do inferno e conduzido ao vosso reino um pobre condenado. Lá espero depois consolar-me, estando sempre aos vossos pés, dando-vos graças, louvando- vos e amando-vos eternamente. Ó Maria, eu espero em vós; não me deixeis ficar desconsolado. Assim seja, assim seja. Amém.

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(BRANDÃO, Monsenhor Ascânio. Um Mês com Nossa Senhora ou Mês de Maria, segundo Santo Afonso Maria de Ligório. Edições Paulinas 1ª ed., 1949, p. 102-107)