Meditação para o dia 21 de Maio. Maria, nosso Refúgio nas Tentações

Meditação para o dia 22 de Maio

O demônio tem medo da Mãe de Deus

Não só do céu e dos santos é Maria Santíssima Rainha, senão também do inferno e dos demônios, porque os venceu valorosamente com suas virtudes. Já desde o princípio do mundo tinha Deus predito à serpente infernal a vitória e o império que sobre ela obteria nossa Rainha.

“Eu porei inimizade entre ti e a mulher; ela te esmagará a cabeça” (Gn 3, 16)

Mas quem foi esta mulher, sua inimiga, senão Maria, que com a sua profunda humildade e santa virtude sempre venceu e abateu as forças de Satanás, como atesta São Cipriano? É para se notar que Deus falou “eu porei” e não “eu ponho” inimizade entre ti e a mulher. Isto faz para mostrar que a sua vencedora não era Eva, que já então vivia, mas uma sua descendente. Esta devia trazer a nossos primeiros pais, como diz São Vicente Ferreri, um bem maior do que aquele que tinha perdido com o seu pecado. Maria é, portanto, essa excelsa mulher forte que venceu o demônio e, em lhe abatendo a soberba, lhe esmagou a cabeça, conforme as palavras do Senhor:

“Ela te esmagará a cabeça”

Duvidam alguns se estas palavras se referem à Maria ou a Jesus Cristo, porque os Setenta traduzem autós, isto é, ele esmagará a tua cabeça. Mas em nossa Vulgata (única versão da Sagrada Escritura aprovada pelo Concílio de Trento) lê-se ipsa, ela, e não ipse, ele. Assim também o entenderam Santo Ambrósio, São Jerônimo, Santo Agostinho e muitíssimos outros. Mas, como quiserem, é certo que, ou o Filho por meio da Mãe, ou a Mãe por virtude do Filho, venceu a Lúcifer. Este espírito soberbo foi, portanto, para sua vergonha, calcado aos pés por esta Virgem bendita, na frase de São Bernardo, e como prisioneiro de guerra é obrigado a obedecer sempre às ordens desta Rainha. Diz São Bruno de Segni que Eva, vencida pela serpente, nos trouxe a morte e as trevas. Maria, porém, vencendo o demônio, nos trouxe a vida e a luz. E de tal modo o atou, que ele não pode mais se mover para causar o menor dano aos seus devotos.

É bela a explicação que dá Ricardo de São Lourenço ao trecho dos Provérbios: “O coração do homem (isto é, de Cristo) põe nela a sua confiança e ele não necessitará de despojos” (31, 11), pois Maria enriquece seu Filho com os despojos que arranca ao demônio. Deus confiou a Maria o Coração de Jesus para que ela o faça amar pelos homens, comenta Cornélio a Lápide, e assim não lhe faltarão despojos, isto é, almas conquistadas. Porque Maria o enriquece de almas, das quais despoja o inferno, livrando-as do demônio com o seu poderoso socorro.

É a palma um conhecido símbolo de vitória. Por isso foi nossa Rainha colocada num alto trono, à vista de todos potentados celestes, como palma em sinal de segura, vitoria que a si mesmo podem prometer-se todos aqueles que se põem debaixo do seu patrocínio. “Eu lancei em alto os meus ramos como a palmeira em Cades” (Eclo 24, 18), isto é, acrescenta Santo Alberto Magno, eu estendo minha mão sobre vós para vos proteger. Filhos, parece Maria nos dizer, quando o demônio vos assaltar, recorrei a mim, olhai para mim e tende ânimo, porque em mim, que vos defendo, vereis juntamente a vossa vitória. Por isso o recorrer a Maria é um meio seguríssimo para vencer todos os assaltos do inferno. Ela é também Rainha do inferno e senhora dos demônios, pois que os subjuga e doma, diz São Bernardino de Sena. Daí vem ser Maria chamada “terrível como um exército em ordem de batalha” (Ct 6, 3). Pois sabe ordenar bem o seu poder, a sua misericórdia e os seus rogos para confusão dos inimigos e benefícios dos seus servos, que nas tentações invocam o seu poderosíssimo nome.

“Semelhante à vinha dei frutos de suave odor” — fá-la dizer o Espírito Santo (Eclo 24, 23). Aqui observa São Bernardo:

“Dizem que toda serpente venenosa foge das vinhas em flor; assim fogem os demônios das almas afortunadas que sentem o perfume da devoção de Maria”

Ela é comparada também ao cedro:

“Crescendo, me elevei como o cedro do Líbano” (Eclo 24, 17)

À semelhança do cedro que é incorruptível, ficou também Maria isenta do pecado. E como o cedro afugenta com seu odor as serpentes, observa Hugo cardeal, com sua santidade Maria afugenta os demônios.

Por meio da arca os israelitas obtinham suas vitórias nos combates. Graças a ela triunfaram de seus inimigos, sob Moisés. E quando se elevava a arca, dizia ele:

“Levanta-te, Senhor e dissipem-se os teus inimigos!” (Nm 10, 35)

Assim foi tomado Jericó, assim foram desbaratados os filisteus, porque a arca de Deus estava naquele dia com os filhos de Israel (1 Rs. 14, 18). Ora, como se sabe, era a arca a figura de Maria. Assim como na arca estava o maná, observa Cornélio a Lápide, no seio de Maria está Jesus, de quem o maná era figura. Por meio desta arca concede-nos Ele a vitória sobre o mundo e o inferno. Isto motiva as palavras de São Bernardino de Sena: Quando Maria, arca do Novo Testamento, foi exaltada nos céus como Rainha, ficou abatida o poder do demônio sobre o homem. Se os cristãos nas tentações tivessem o cuidado de proferir com devoção e confiança o nome de Maria, é certo que não cairiam nelas. Pois, como diz o beato Alano, foge o demônio e treme o inferno ao som deste nome excelso. A mesma Senhora também revelou a Santa Brígida que até dos pecadores mais perdidos, mais afastados de Deus, e mais possuídos do demônio, se aparta este inimigo, logo quando sente que ele, com verdadeira vontade de emenda, invocam o seu poderosíssimo nome. Mas, acrescentou a Santíssima Virgem, se a alma não se emenda e não apaga seus pecados nas lágrimas do arrependimento, os demônios sem demora voltam e dela tomam conta.

EXEMPLO

Conta-se, na história do processo da beatificação de São Francisco do Sales, que, em Chablais, um moço possesso havia mais de cinco anos, foi levado ao sepulcro do grande santo. Ali, submetido a um grande interrogatório, o demônio, furioso, uivava, desesperado e não deixava a sua pobre vítima. Então a venerável Madre de Chaugy exclamou, com sua proverbial e edificante piedade:

— “Ó Santa Mãe de Deus, rogai por nós! Maria, Mãe de Jesus, ajude-nos!”

Ouvindo o nome de Maria, o espírito infernal uivou, gritou horrorosamente:

— “Maria… Maria… Ah! Eu não tenho Maria… Não digas este nome, que me espanta e estremece! Ah! Se eu tivesse Maria, uma Maria como tendes, não seria o que sou!… Mas eu não tenho Maria!”

Os assistentes choravam. O demônio ainda exclamou:

— “Se eu tivesse um desses momentos tão numerosos que perdeis e Maria, já não seria demônio!”

E eu mil vezes feliz, embora neste exílio, tão perigoso da vida, e nas trevas de mil sofrimentos, tenho Maria e tenho tempo para me salvar! Não sou feliz? Oh! Não haverá dor, nem desgraça, nem amargura neste mundo que me façam desgraçado, se me conservo fiel e devoto fervoroso da Mãe de Deus. E eu tenho Maria! Que consolação! Que ventura!

ORAÇÃO
(Eadmero)

Ó Santíssima Senhora, Deus vos elevou extraordinariamente e tornou-vos todas as coisas possíveis. Por essa graça suplicamos que nos façais participar da vossa glória, vós que possuís a plenitude das graças. Empenhai-vos misericordiosíssima Senhora, empenhai-vos pela nossa salvação, por cujo motivo Deus quis fazer-se homem em vossas castas entranhas. Dignai-vos prestar ouvido às nossas súplicas. Se consentirdes em pedir por nós a vosso Filho, ele logo vos atenderá. Basta que nos queirais salvar, para que sejamos infalivelmente salvos. Ora, quem nos poderia fechar as entranhas de vossa piedade? Se não tiverdes compaixão de nós, vós, que sois a Mãe de misericórdia, que será de nós quando vosso Filho nos vier julgar?

Socorrei-nos, pois, ó piedosíssima Senhora, sem atender à multidão de nossos pecados. Pensai bem e meditai que nosso Criador tomou carne humana em vosso seio, não para condenar os pecadores, mas para salvá-los. Se não tivésseis sido feita Mãe de Deus senão para proveito vosso, poderíamos dizer que pouco vos importava que fossemos condenados ou salvos; mas Deus revestiu-se de vossa carne pela nossa salvação e pela de todos os homens. De que nos serviria vosso poder e vossa glória, se não nos fizésseis participar de vossa felicidade? Ajudai-nos e protegei-nos; bem sabeis como precisamos de vossa assistência. Nós nos encomendamos a vós; fazei que não nos percamos, mas que sirvamos e amemos eternamente a vosso Filho Jesus Cristo.

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(BRANDÃO, Monsenhor Ascânio. Um Mês com Nossa Senhora ou Mês de Maria, segundo Santo Afonso Maria de Ligório. Edições Paulinas 1ª ed., 1949, p. 155-160)