Meditação para o dia 20 de Maio. Maria, Mãe das Graças e nossa vida

Meditação para o dia 20 de Maio

A oração de Maria obtém-nos a graça da justificação. Para a exata compreensão da razão por que a Santa Igreja nos ordena que chamemos a Maria nossa vida, é necessário saber que, assim como a alma dá vida ao corpo, assim também a graça divina dá vida à alma. Uma alma sem a graça divina só tem nome de viva, mas na realidade está morta, como foi dito àquele bispo no Apocalipse:

“Tens reputação de que vives, mas estás morto” (Ap 3, 1)

Obtendo Maria por meio de sua intercessão a graça aos pecadores, deste modo lhes dá vida. Ouçamos as palavras que a Igreja lhe põe na boca, aplicando-lhe a seguinte passagem dos Provérbios:

“Os que vigiam desde manhã por me buscarem, achar-me-ão” (8, 17)

Os que recorrem a mim desde manhã, isto é, sem demora, certamente me acharão. Ou, segundo a tradução grega: acharão a graça. De modo que recorrer a Maria é recobrar a graça de Deus. Lemos por isso pouco depois:

“Quem me encontra, encontra a vida e receberá do Senhor a salvação” (Pr 8, 35)

Ouvi-o, vós que procurais o reino de Deus, exclamou São Boa ventura, honrai a Santíssima Virgem Maria e achareis a vida juntamente com a eterna salvação.

Na afirmativa de São Bernardino de Sena, Deus não destruiu o homem logo após o pecado, devido ao singular amor para com esta sua futura filha. Não lhe resta a menor dúvida de que todas as misericórdias e mercês, em favor dos pecadores na Antiga Lei, só lhes tinham sido feitas por Deus em considerarão desta abençoada Virgem.

Exorta-nos por isso, com razão, São Bernardo: Procuremos a graça, mas procuremo-la por meio de Maria. Se formos tão infelizes, que perdemos a divina graça, procuremos recuperá-la por meio de Maria; porque se a perdemos ela a achou. E por este motivo o santo lhe chama descobridora da graça. Para nossa consolação declarou-o São Gabriel arcanjo, quando disse à Virgem:

“Não temas, Maria, pois achaste graça diante de Deus” (Lc 1, 30)

Mas, se Maria nunca se vira privada da graça, como podia dizer o anjo que a tinha achado? Só se pode achar uma coisa que se perdeu. A Virgem, entretanto, sempre esteve com Deus e não só em graça, mas cheia de graça, como o mesmo arcanjo manifestou, quando, ao saudá-la, lhe disse:

Ave, Maria, cheia de graça; o Senhor é contigo

Deve os pecadores procurar com Maria a graça de Deus

Logo, se Maria não achou a graça para si, porque sempre dela esteve cheia, para quem a achou? Responde o cardeal Hugo, num comentário a este passo:

“Achou-a para os pecadores que a tinham perdido”

Corram, pois a Maria os pecadores que perderam a graça, porque em seu poder a acharão certamente, continua este devoto escritor, e digam lhe:

“Senhora, a coisa achada deve-se restituir a quem perdeu; aquela graça que vós achastes, não é vossa, porque nunca a perdeste, é nossa, porque a perdemos, por isso no-la deveis restituir”

Se, pois, desejamos recuperar a graça do Senhor — conclui Ricardo de São Lourenço— vamos a Maria, que a encontrou e sempre a encontra. E já que a Virgem foi e sempre há de ser muito querida por Deus, se a ela recorremos, certamente acharemos a graça. A própria Mãe de Deus garante-nos, em os Sagrados Cânticos, que Deus a pôs no mundo para ser a nossa defesa e por isso também está constituída medianeira de paz entre Deus e os pecadores.

“Eu me tenho na sua presença (de Deus) tornado como uma que acha a paz” (8, 10)

Com estas mesmas palavras anima São Bernardo o pecador, dizendo:

“Vai ter com esta Mãe de misericórdia e mostra-lhe as chagas que na alma te fizeram os teus pecados. Ela não deixará de rogar a seu Filho que te perdoe, por aquele leite que lhe deu; e o Filho, que tanto a ama, atendê-la-á com toda a certeza”

— Com efeito, a Santa Igreja nos manda pedir ao Senhor que nos conceda o poderoso socorro da intercessão de Maria, para que nos levantemos de nossos pecados.

‘‘Concedei, misericordioso Senhor, fortaleza à nossa fraqueza, para que nós, que celebramos a memória da Santa Mãe de Deus, pelo auxílio de sua intercessão, nos levantemos de nossas iniquidades”

Com razão, pois, a chama São Lourenço Justiano esperança dos malfeitores, porque é a Virgem que lhes obtém o perdão. Acertadamente di-la São Bernado escada dos pecadores, porque, dando a mão aos pobres decaídos, os tira do precipício do pecado e fá-los subir para Deus. Com razão lhe chama Pseudo-Agostinho única esperança de todos os pecadores, pois só por seu intermédio esperamos a remissão de todos os nossos pecados. E o mesmo diz São João Crisóstomo:

“Os pecadores só por intercessão de Maria recebem o perdão”

Por isso em nome deles assim a saúda o Santo:

“Deus te salve, Mãe de Deus e Mãe nossa, céu onde Deus reside; trono, em o qual dispensa o Senhor todas as graças; roga sempre a Jesus por nós, para que pelos teus rogos possamos alcançar o perdão no dia do juízo e a bem-aventurança na eternidade”

Com razão, finalmente, é Maria chamada aurora.

“Quem é esta, que vai caminhando como a aurora quando se levanta?” (Ct 6,9)

Sim, por isso disse Inocêncio III: Sendo a aurora o fim da noite e o começo do dia, com razão a ela comparamos a Virgem Maria, que pôs termo aos vícios e fez nascer às virtudes. E o mesmo efeito que causou no mundo o nascimento de Maria, causa agora nas almas o nascimento de sua devoção. Põe termo à noite do pecado e faz andar a alma pelo iluminado caminho da virtude. Daí as palavras de São Germano:

“Ó Mãe de Deus, vossa proteção traz a imortalidade; vossa intercessão, a vida”

E no sermão sobre o Cíngulo da virgindade diz o Santo:

“Pronunciar com afeto o nome de Maria ou é sinal de vida, ou de tê-la brevemente”

EXEMPLO

A SANTA Igreja nos ensina em sua Liturgia da Missa, na festa de Maria Auxiliadora, a 24 de Maio, que Deus constituiu na Bem-aventurada Virgem Maria “um perpétuo socorro para defesa do povo cristão”. Porque profetizara a Virgem que todas as gerações Lhe haviam de chamar Bem- aventurada? Porque seria Ela para todas as gerações um perpétuo socorro. O titulo de “Perpétuo Socorro” inspira confiança, Nossa Senhora, no quadro miraculoso de Roma, quis mostrar ao povo cristão que é sempre Mãe solícita e carinhosa. Perpétuo socorro de nossa perpétua miséria! Pelos meados do século XV, um negociante piedoso embarca na Ilha de Creta para a Itália. Leva consigo um tesouro precioso, belo quadro de Nossa Senhora. Em pleno mar desencadeia-se horrorosa tempestade. Já desesperada, a tripulação, a convite do piedoso negociante, prostra-se diante da imagem da Virgem. Rapidamente cessa o furor das ondas e o Céu tornou-se claro e sereno. O quadro miraculoso foi a Roma e, por ordem da Virgem, exposto e venerado na Igreja de São Mateus, faz milagres, confirmando o título, que trazia, de “Perpétuo Socorro”. Afinal, depois de longo esquecimento, veio à imagem miraculosa aos filhos de Santo Afonso. Em 26 de Abril de 1866, foi levada em triunfo para a Igreja de Santo Afonso, em Roma, onde é venerada até hoje.

“Nossa Senhora do Perpétuo Socorro” é um título de Maria que enche o coração e o faz transbordar de confiança. Ó Maria, na enfermidade, nas aflições, na dor e na tristeza, nas provas e revezes na vida e na morte, vinde, vinde em meu socorro, ó Mãe carinhosa!

ORAÇÃO

Ó Mãe de misericórdia, aplacai o vosso Filho. Enquanto estáveis na terra, só ocupáveis uma pequena parte dela; mas agora que estais exaltada sobre o mais alto dos céus, todo o mundo vos considera como propiciatório comum de todas as nações. Nós vos suplicamos, pois, ó Virgem Santíssima, que nos concedais o socorro de vossas preces junto a Deus. Vossos rogos nos são mais caros e preciosos que todos os tesouros da terra. Eles fazem com que Deus seja propício para com os nossos pecados, e nos obtém uma grande abundância de graças para recebermos o perdão e praticarmos a virtude. Vossos rogos guardam à distância nossos inimigos, confundem os seus planos e triunfam de seus esforços.

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(BRANDÃO, Monsenhor Ascânio. Um Mês com Nossa Senhora ou Mês de Maria, segundo Santo Afonso Maria de Ligório. Edições Paulinas 1ª ed., 1949, p. 141-146)