Meditação para o dia 15 de Maio. Maria, Mãe Clementíssima

Meditação para o dia 15 de Maio

Maria é toda Clemência e Bondade

O autor dos discursos sobre Salve Rainha diz que Maria é a terra prometida pelo Senhor, na qual manava leite e mel. Quer assim mostrar-nos de modo bem intuitivo a grande bondade dessa Rainha para conosco, miseráveis e deserdados. São João acrescenta que Maria tem entranhas de tanta misericórdia, que merece ser chamada não só misericordiosa, mas a própria misericórdia. Por causa dos infelizes foi Maria constituída Mãe de Deus e colocada para lhes dispensar misericórdia, ensina-nos São Boaventura. Considera em seguida a imensa solicitude que ela tem para todos os miseráveis, bem como a sua grande bondade que acima de tudo deseja socorrer aos necessitados. Essa consideração leva o Santo a dizer:

“Quando olho para vós, ó Maria, parece-me não ver mais a divina justiça, mas a divina misericórdia somente, da qual estais cheia”

Em suma, tanta lhe é a piedade que, como diz Guerrico, abade, seu amoroso coração não pode cessar um momento de ser misericordioso conosco.

E que outra coisa pode jorrar de uma fonte de piedade, senão piedade? Pergunta São Bernardo. Por isso, Maria foi chamada “uma bela oliveira no campo” (Eclo 24,19). Como da oliveira só sai o óleo, símbolo da misericórdia, também só graças e misericórdias destilam as mãos de Maria.

Temos, por conseguinte, muita razão para, com Luís da Ponte, chamá-la Mãe do óleo da misericórdia. Recorrendo, portanto, a essa Mãe para pedir-lhe o óleo da sua piedade, não podemos temer que no-lo recusasse, como a negaram as virgens prudentes às loucas, dizendo-lhes: Para que não suceda faltar-nos ele a nós e a vós. Não, porque ela é muito rica desse óleo de piedade, previne Conrado de Saxônia. Eis a razão por que a Igreja lhe chama não só de prudente, mas de prudentíssima. Por aí compreendamos, diz Hugo de São Vitor, que Maria é tão cheia de graça e de misericórdia, que tem como prover a todos, sem nunca ficar desprevenida.

Mas, pergunto eu:

Por que se diz que esta formosa oliveira está no meio do campo, e não antes no meio de um jardim bem murado?

Ouçamos a resposta do cardeal Hugo:

“Para que possam facilmente contemplá-la e alcançá-la todos os necessitados”

Santo Antonino confirma esse belo pensamento ao dizer:

“Podem todos colher frutos de uma oliveira que está em campo aberto, e assim podem também todos recorrer a Maria, pecadores e justos, para obterem misericórdia. Quantos castigos continua ele, quantas sentenças e condenações, têm a Santíssima Virgem sabido revogar em benefício dos pecadores que ela recorre!”

E que mais seguro refúgio, pergunta o piedoso Tomás de Kempis, podemos encontrar que não o compassivo coração de Maria? Aí o pobre acha abrigo, remédio o enfermo, alívio o aflito, consolo o atormentado e socorro o abandonado.

Pobres de nós, sem essa Mãe de misericórdia, tão atenta e tão prestadia em socorrer nossas misérias! Onde não há mulher — diz o Espírito Santo — geme e padece o enfermo (Eclo 36 27). A mulher é justamente Maria, conforme atesta São João Damasceno. Sem ela só há sofrimentos para o enfermo. Realmente te, querendo Deus que todas as graças se dispensem pelos rogos de Maria, onde eles faltam não haverá esperança de misericórdia. Tal foi a revelação que o próprio Senhor fez a Santa Brígida.

Tememos talvez que Maria não veja ou não queira aliviar nossas misérias? Não; melhor do que nós, delas tem ciência e compaixão. Cita-me um Santo que como Maria tanto se compadeça de nossas misérias! Ordena Santo Antonino. Onde vê misérias, não lhe sofre o coração deixá-las sem alívio de sua grande misericórdia. Essa sentença de Ricardo de São Vitor é confirmada por Mendoza: Ó Virgem bendita, dispensais às mãos cheias vossa misericórdia, por toda parte onde descobris necessidades. E nossa boa Mãe nunca se cansa nesse ofício de misericórdia, como ela mesma o confessa: E não deixarei de ser em toda a sucessão das idades, e exercitei diante dele o meu ministério na morada santa (Eclo 24,14). O que assim comenta o cardeal Hugo:

“Não deixarei até ao fim do mundo de socorrer as misérias dos homens, e de rogar pelos pecadores, para que sejam salvos da condenação eterna”

Do imperador Tito conta Suetônio que tinha muito prazer em conceder as graças que se lhe pediam. No dia em que não tinha ocasião de conceder alguma, lastimava-se, dizendo: Hoje foi um dia perdido para mim. Tito assim falava, provavelmente, mais por vaidade ou por ambição de estima que por verdadeira caridade. Porem nossa Rainha, se possível lhe fosse passar um dia sem dispensar algum favor, julgá-lo-ia perdido, tão grande é sua caridade, o seu desejo de espalhar benefícios. E até afirma o São Bernardino de Busti, ela tem mais ânsia de nos fazer favores, do que nós temos desejo de os receber. Por isso, continua o sobredito autor, sempre que a invocamos, a encontramos com as mãos cheias de misericórdia e liberalidade.

Oh! Exclama o abade de Celes, quantos que, dignos do inferno segundo a justiça divina, são salvos pela compaixão de Maria! Sim, porque ela é o tesouro de Deus, e a tesoureira de todas as graças; em suas mãos está por isso a nossa salvação. Por conseguinte recorramos sempre a essa grande Mãe de misericórdia, firmes na esperança de nos salvarmos por sua intercessão. Pois não lhe chama Bernardino de Busti nossa salvação, nossa vida, nossa esperança, nosso conselho, nosso refúgio e nosso auxílio? Realmente, diz Santo Antonino, é Maria aquele trono de graça ao qual nos cumpre confiadamente recorrer para obter a divina misericórdia e todos os auxílios que nos são necessários, conforme a exortação de São Paulo:

“Marchemos, pois, cheios de confiança para o trono de graça, a fim de obtermos misericórdia e alcançarmos a graça no socorro oportuno” (Hb 4 16)

Pelo que Santa Catarina de Sena chamava a Maria de distribuidora da divina misericórdia.

Concluamos, por conseguinte com a elegante e terna exclamação de São Boaventura:

“Ó clemente, ó piedosa, ó doce Virgem Maria! Ó Maria, sois clemente para com os miseráveis, compassiva para com os que vos invocam doce para com os que vos amam; sois clemente para com os penitentes, compassiva para com os justos, doce para com os perfeitos. Mostrai vossa clemência, em nos livrando dos castigos; vossa piedade, em nos dispensando as graças; vossa doçura, em vos dando a quem vos procura”

EXEMPLO

Este exemplo não está registado em livro algum. Contou-o, porém, um sacerdote meu companheiro, dando-se o fato com ele mesmo. Enquanto estava confessando numa igreja (cala-se o lugar por discrição, embora o penitente tenha dado licença para publicá-lo), viu um jovem, em pé, que parecia querer confessar-se. Olhando para ele o padre muitas vezes, finalmente chamou-o e perguntou-lhe se queria confessar-se. Respondeu que sim e que a confissão seria muito longa. Levou-o então o padre a um lugar mais retirado. Aí começou o penitente a dizer que era estrangeiro e nobre, e que não entendia como Deus quisesse perdoar-lhe, depois da vida criminosa que tinha levado. Além de inúmeros pecados de desonestidade, homicídios, etc., disse que, desesperado de sua salvação, se pusera a cometer pecados, não tanto por paixão, mas por desprezo e ódio a Deus. Disse, entre outras coisas, que maltratara um crucifixo que consigo trazia, e que pouco antes naquela manhã, tinha ido comungar sacrilegamente. Isto fizera para depois calcar aos pés a partícula consagrada. De fato queria por em execução o terrível projeto, mas não o fizera por causa das pessoas que o podiam ver. Com efeito entregou ao confessor a partícula, embrulhada num papel. Contou em seguida que, tendo passado por aquela igreja, sentira um grande impulso de entrar nela, e, não podendo resistir, entrou. Veio-lhe então, logo um grande remorso de consciência, com certa veleidade e irresolução de confessar-se. Pusera-se por isso em frente ao confessionário. Mas aí era tão grande sua confusão e desconfiança, que queria ir embora. Alguém parecia, entretanto, retê- lo à força, ali perto.

Até que — disse o jovem, — vós me chamastes, padre. Agora vejo-me aqui, e estou confessando-me nem sei como.

Perguntou-lhe o padre por alguma devoção que talvez, durante esse tempo, praticara em honra de Maria Santíssima, pois que tais conversões extraordinárias são sempre obras das mãos poderosíssimas da Virgem.

— Nada, senhor padre, respondeu o jovem: que devoção poderia eu praticar? Pois eu me julgava condenado.

— Recordai-vos melhor, tornou o padre.

— Nada, meu padre insistiu ele. Mas, metendo a mão no peito, recordou-se, e viu que trazia o escapulário de Nossa Senhora das Dores.

— Ah! Filho, disse então o confessor, não vedes que foi Nossa Senhora que vos fez esta graça? E notai que esta igreja lhe é consagrada.

Ouvindo isto, o pecador estremeceu e cheio de arrependimento começou a chorar, continuando depois a manifestar os seus pecados. Confessou-os entre lágrimas de tal compunção, que caiu sem sentidos aos pés do confessor. Este fê-lo tornar a si, e finalmente, terminada a confissão, absolveu-o com suma consolação. Ele, todo contrito e resoluto a mudar de vida, voltou à sua pátria, depois de ter dado licença ao confessor de pregar e publicar por toda a parte a grande misericórdia em seu favor.

ORAÇÃO

Ó Mãe misericordiosa, sois tão clemente e tendes imenso desejo de proteger os miseráveis e atender-lhes os pedidos! Venho, por isso, a vós neste dia, em que sou o mais indigno de todos os homens e imploro vosso auxílio. Atendei aos meus rogos! Peçam-vos outros, se quiserem saúde do corpo, prosperidade e grandezas da terra. Quanto a mim, venho pedir-vos, Senhora, justamente àquilo que desejais de mim, aquilo que é mais conforme mais grato ao vosso Santíssimo Coração. Sois tão humilde, impetrai-me, pois, a humildade e o amor dos desprezados. Fostes tão paciente nos trabalhos desta vida, impetrai-me a paciência na adversidade, fostes tão cheia de amor de Deus, impetrai-me o dom do santo e puro amor, fostes toda a caridade para com o próximo, impetrai-me a caridade para com todos. Particularmente para com os inimigos, fostes totalmente unida à divina vontade, impetrai-me a total conformidade a toda as disposições de Deus a meu respeito. Sois em suma, a mais santa de todas as criaturas, ó Maria, tornai-me santo. Amor não vos falta. Podeis tudo e quereis alcançar-me todas as graças. A única coisa que me pode impedir de receber vossos favores é, ou a negligência em recorrer a vós, ou a falta de confiança em vossa intercessão. Impetrai-me, pois, vós mesma a constância invocar-vos e a confiança em vosso poder. De vós espero estas duas graças supremas, de vós as imploro e conto em recebê-las confiadamente, ó Maria, minha Mãe, minha esperança, meu amor, minha vida, meu refúgio, minha força e minha consolação. Amém.

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(BRANDÃO, Monsenhor Ascânio. Um Mês com Nossa Senhora ou Mês de Maria, segundo Santo Afonso Maria de Ligório. Edições Paulinas 1ª ed., 1949, p. 108-114)