Meditação para o dia 26 de Maio

De todas as virtudes é a humildade o fundamento e a guarda lê-se com razão nos sermões sobre a Salve Rainha. Sem humildade, não há virtude que possa existir numa alma. Possua embora todas as virtudes, fugiriam todas ao lhe fugir a humildade. Pelo contrário, Deus tão amante é da humildade, que se apressa em correr onde a vê, escreve São Francisco de Sales a Santa Joana de Chantal.

No mundo era desconhecida essa virtude tão bela e necessária. Mas, para ensiná-la, veio a terra o próprio Filho de Deus, exigindo que, principalmente neste particular, lhe procurássemos imitar o exemplo.

“Aprendei de mim porque sou manso e humilde de coração” (Mt 11, 29)

E assim como em todas as virtudes foi Maria a primeira e mais perfeita discípula de Jesus Cristo, o foi também na humildade. Por ela mereceu ser exaltada sobre todas as criaturas. Essa foi a virtude em que, desde pequena, se singularizou. Assim nos consta de uma revelação feita a Santa Matilde.

O primeiro traço da humildade é o modesto conceito de si mesmo

Vemo-lo em Maria, conforme fala a supracitada revelação. Embora se visse mais enriquecida de graças que os outros todos, nunca ela se julgou acima de quem quer que fosse. Ao contrário, teve sempre modesta opinião de si mesma. Este é o sentido que, no parecer de Roberto abade, tem as palavras dos Cânticos:

“Tu feriste meu coração, minha irmã, tu feriste meu coração com uma madeixa de teu pescoço” (4, 9)

O humilde conceito de si mesma foi o encanto com que Maria prendeu o coração de Deus. Não podia, é claro, a Santíssima Virgem julgar-se uma pecadora. Pois, na frase de Santa Teresa, a humildade é a verdade, e Maria tinha consciência de nunca haver ofendido a Deus. Não é também que deixasse de confessar a preferência com que Deus lhe concedera maiores favores do que às demais criaturas. Para humilhar-se ainda mais, reconhece o coração do humilde as singulares dádivas do Senhor. A nítida compreensão da infinita grandeza e dignidade de Deus, porém, aprofundava na Virgem o conhecimento da própria pequenez. Por isso, mais que ninguém, se humilhava, dizendo com a esposa dos Cânticos:

“Não olheis para o ser morena, porque o sol me mudou a cor” (1, 5)

O que, segundo São Bernardino, significa:

“Comparando-me com Deus, me vejo toda escura. Segundo o mesmo Santo, jamais ela perdia de vista a grandeza de Deus e o seu próprio nada”

Vendo-se uma mendiga revestida de custosas vestes, que lhe foram dadas, não se envaidece, mas antes se humilha ao contemplá-las diante de seu benfeitor.

Justamente essa presença fá-la recordar sua pobreza. Assim a Virgem quanto mais enriquecida se via, mais se humilhava. Lembrava-se, sem cessar, de que tudo aquilo era dom de Deus. Daí a sua palavra a Santa Isabel de Turíngia:

“Creia-me, filha, sempre me tive pela última das criaturas e indigna das graças de Deus”

Exatamente por isso, conforme São Bernardino, nunca houve no mundo criatura tão sublimada como Maria, porque nunca ninguém a igualou em humildade.

Também é efeito da humildade ocultar os dons celestes. Nem a São José quis a Senhora revelar a graça de se haver tornado Mãe de Deus. O pobre esposo viu como ela ia ser mãe, e necessitava de esclarecimentos que o libertassem de cruciantes suspeitas da honestidade da esposa, e dele afastassem vexames e confusões. De um lado, José não podia duvidar da castidade de Maria e de outro ignorava o mistério da Incarnação. Resolveu por isso deixá-la ocultamente, para sair de tão embaraçosa situação. Tê-lo-ia feito certamente, se o anjo não lhe houvesse revelado que sua esposa se tornara Mãe por obra do Espírito Santo.

O humilde recusa os louvores, referindo-os todos a Deus

Tal foi o procedimento de Maria, ao perturbar-se diante dos louvores que lhe dirigia o arcanjo São Gabriel. E foi outro talvez o seu procedimento, quando Isabel a chamou de bendita entre todas as mulheres e de Mãe do Senhor? Imediatamente Maria atribui toda a glória a Deus, respondendo no seu humilde cântico:

“Minha alma engrandece ao Senhor”

Vale como se dissesse:

Isabel, tu me louvas, porém eu louvo ao Senhor, a quem unicamente é devida toda a honra. Tu te admiras de vir eu a ti, mas eu admiro a bondade divina, na qual, tão somente, meu espírito se alegra. Louvas-me porque eu acreditei, mas eu louvo a meu Deus que quis exaltar o meu nada. Na baixeza de sua serva pôs os seus olhos

E esse o motivo por que Maria disse a Santa Brígida:

“Por que me humilhei tanto ou por que mereci, minha filha, uma tão extraordinária graça? Só porque estava plenamente convencida de não valer nada, de não possuir algo de mim mesma. Procurava por isso o louvor de meu Criador e Benfeitor e nunca o meu próprio”

— Admirado de tanta humildade em Maria, exclamava Pseudo-Agostinho:

“Ó realmente abençoada humildade, que fez um Deus nascer para nós homens, que abriu o paraíso e livrou as almas do inferno”

É de Ricardo de São Lourenço a sentença:

“Maria protege-nos sob o manto da humildade”

O mesmo queria ela dizer a Santa Brígida com as palavras:

“Vem também tu, minha filha, e esconde-te debaixo do meu manto, que é a humildade”

E ajuntou que a meditação de sua humildade era um manto bom e aquecedor. Um manto aquece só quem o traz, não em pensamento, mas em realidade. Assim também minha humildade aproveita só aqueles que se esforçam por imitá-la. Oh! Como são queridas de Maria as almas humildes! Eis a razão por que diz o autor dos sermões sobre a Salve Rainha:

“A Virgem Santíssima conhece e ama todos os que a amam; está ao lado dos que a invocam, principalmente quando se lhe assemelham pela pureza e humildade”

Martinho d’Alberto, jesuíta, costumava varrer a casa e juntar o lixo por amor da Virgem. Apareceu-lhe um dia a Mãe de Deus, refere o padre Nieremberg, agradeceu-lhe esse obséquio, dizendo:

“Como me é agradável a humilde ação que praticas por amor de mim!”

Assim, pois, ó minha Rainha, não poderei ser vosso filho, se não for humilde. Não vedes, porém, que meus pecados, depois de me terem tornado ingrato ao meu Senhor, me tornaram também soberbo? Ó minha Mãe, remediai a este mal e, pelos merecimentos de vossa humildade, impetrai-me a graça de ser humilde e tornar-me vosso filho. Amém.

EXEMPLO

— Um bispo escocês percorria a pé as montanhas de sua diocese. A noite surpreendeu-o numa floresta onde se havia perdido. Depois de procurar por muito tempo, encontrou uma choupana habitada por uma pobre família. Essa boa gente o recebeu sem saber quem era, pois estava envolvido num grande manto. O bispo, por sua parte, ignorava quem era tal gente. Católicos?… Protestantes?… Nenhum sinal havia que esclarecesse a dúvida.

Alguns minutos depois de mútuo silêncio, a fisionomia da humilde família manifestou-se, e o bispo reparou que grande tristeza oprimia aquela pobre gente, e algum desgosto a afligia… Depois de hesitar, o bispo disse:

— Estais de saúde, mas me pareceis muito tristes

— É verdade, respondeu a mulher que esperava esta pergunta para se desabafar, estamos muito tristes; nosso velho pai está prestes a expirar, e o que mais nos aflige é que pretende viver ainda e recusa obstinadamente preparar-se para a morte.

— Poderei vê-lo? Disse o bispo comovido.

— De boa vontade, respondeu a mulher com a confiança própria das almas aflitas, e logo introduziu seu hóspede no quartinho do doente.

Efetivamente, o velho estava moribundo e não queria convencer-se disso.

À primeira alusão que fez o bispo a este respeito, pareceu recuperar todo o vigor e respondeu com força:

— Não…, não morrerei!…

— Mas, meu amigo, lembre-se de que todos devemos morrer; e sua moléstia… na sua idade…

—Eu lhe digo que não morrerei. É impossível!

A todas as reflexões que lhe foram feitas para convencê-lo, sempre respondia: “Não morrerei!”

…Mas, lhe disse finalmente o bispo, pode dizer-me por que razão, não tendo mais que um sopro de vida, pretende não morrer?

A esta pergunta, o moribundo pareceu enternecido e lançando sobre seu interlocutor um olhar perscrutador, diz- lhe em tom profundamente comovido:

— O senhor é católico?

— Sou, respondeu o bispo…

— Neste caso, disse o doente, posso dizer-lhe porque não morrerei. Sou católico também. Desde a minha primeira comunhão até hoje, nunca deixei de pedir todos os dias a Nossa Senhora à graça de não morrer sem ter um padre à minha cabeceira, na hora da morte. Pensa que minha Mãe do céu poderá deixar de me atender? É impossível…

— Então, meu filho, disse o bispo, foi atendido. Quem está lhe falando é mais do que um padre, é seu bispo. A Santíssima Virgem trouxe-me através desta floresta para recolher seu último suspiro. E abrindo seu manto, fez brilhar aos olhos do moribundo a cruz pastoral.

Então o doente, transportado de alegria, exclamou:

“Ó Maria, ó boa Mãe, eu vos agradeço”

Depois, disse ao bispo:

“Confesse-me; agora creio que vou morrer”

Momentos depois, absolvido pela última vez, morria como um predestinado.

ORAÇÃO
(São João Damasceno)

Eu vos saúdo, ó Maria, vós sois a esperança dos cristãos. Recebei a súplica de um pecador que vos ama ternamente, vos honra de um modo particular, e em vós põe toda a esperança de sua salvação. De vós recebi a vida, pois que me restabeleceis na graça de vosso Filho. Sois o penhor certo de minha salvação. Rogo-vos, pois, que me liberteis do peso de meus pecados; que dissipeis as trevas de minha inteligência; desterreis os afetos terrenos do meu coração; reprimais as tentações dos meus inimigos; e governeis de tal sorte a minha vida que eu possa, por vosso intermédio e debaixo da vossa proteção, chegar à felicidade eterna do paraíso.

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(BRANDÃO, Monsenhor Ascânio. Um Mês com Nossa Senhora ou Mês de Maria, segundo Santo Afonso Maria de Ligório. Edições Paulinas 1ª ed., 1949, p. 182-188)