Meditação para a Vigésima Quarta-feira depois de Pentecostes. Zelo pela Salvação das Almas

Meditação para a Vigésima Quarta-feira depois de Pentecostes

SUMARIO

Meditaremos sobre o zelo pela salvação das almas, e veremos:

1.° Quanto Deus ama as almas;

2.° Quanto este amor de Deus para com as almas nos obriga a ter zelo em Ih’as ganhar.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De empregarmos todos os meios que pudermos para fazer voltar para Deus os nossos parentes, amigos ou conhecidos, que abandonaram as práticas religiosas;

2.° De trabalharmos nesta santa obra com as nossas orações, nossas meigas palavras, nossos bons exemplos, principalmente com o exemplo de um bom gênio tão próprio para conseguir que amem a religião.

O nosso ramalhete espiritual será o que os Atos dos Apóstolos dizem de São Paulo:

“O seu espírito se sentia comovido em si mesmo, vendo a cidade de Atenas toda entregue à idolatria” – Incitabatur spiritus ejus in ipso, videns idolatriae deditam civitatem (At 17, 16)

Meditação para o Dia

Adoremos Jesus Cristo como modelo do zelo em que devemos abrasar-nos para ganhar almas a Deus. Ouçamo-lO, dizendo-nos do alto dos céus que tem sede dessas almas (1), para nos mostrar o seu grande desejo de as salvar. Admiremo-lO vivendo e morrendo por tão nobre fim, e supliquemos-Lhe que nos faça participantes do seu zelo.

PRIMEIRO PONTO

Quanto Dous ama as Almas

Uma alma, diz a Sagrada Escritura, é para Deus como um assopro de sua própria vida (2). É a sua imagem; porque, criando-a, imprimiu-lhe a figura da sua substância, e a marcou com o seu selo. É o fim de todas as suas obras no tempo; porque é para elas que fez todas as coisas no céu e na terra. É, em seus desígnios, a companheira da sua eternidade; porque quer viver eternamente com ela, fazê-la o objeto das suas delícias e participante da sua imensa glória: e deseja tanto estar com ela, que um dia, tendo-se a alma separado dEle pelo pecado e vendido ao demônio, não hesitou em enviar seu eterno Filho a este mundo para a resgatar, não com todas as riquezas do céu e todos os tesouros da terra, resgate insuficiente a seus olhos para tão precioso fim, mas com o mesmo sangue desse adorável Filho, derramado ate à última gota. Da alma assim resgatada fez a sua deliciosa morada, o membro do corpo místico de seu Filho, o templo do Espírito Santo. Depois prevendo que, apesar de tanta afeição, esta alma lhe seria ainda infiel, encarregou seu Filho de estar na terra até a consumação dos séculos, para lhe resgatar com o preço de seu sangue, pelo ministério dos sacerdotes, todas as almas que, depois de o terem deixado, quisessem voltar para Ele. Ao mesmo tempo, incumbiu o Espírito Santo de vigiar essas almas, de as chamar, quando se transviassem e de as solicitar até que voltem para Ele.

Que milagres neste amor de Deus para com as almas! Que grande número de mistérios, e quanto devem os nossos corações bendizer o Deus infinitamente bom, que os obra!

SEGUNDO PONTO

Quanto este amor de Deus para com as Almas nos obriga a ter Zelo em lh’as ganhar

Quando vemos um amigo dominado por um ardente desejo de alcançar algum bem e podemos alcançar-lh’o, somos obrigados pela amizade a dedicar-nos para que ele fique de posse do bem que busca. Se, pois, amamos verdadeiramente a Deus, não podemos recusar-Lhe todo o nosso zelo em Lhe ganhar essas almas, de quem tanto deseja ser amado. Que! Lisonjear-nos-íamos de amar a Deus, e desprezaríamos almas que são o objeto de seu mais temo amor!

Lisonjear-nos-íamos de amar a Deus, e deixaríamos enterrar-se no lamaçal a sua viva imagem, sem diligenciarmos arrancá-la dEle!

Lisonjear-nos-íamos de amar a Deus, e não procuraríamos ganhar-Lhe almas, uma só das quais Lhe é mais prezada que todos os mundos imagináveis; almas para quem Ele fez todas as coisas, o universo, as suas leis, os seus milagres; almas destinadas a louvá-lo eternamente, a serem no céu o objeto das suas delícias, a morada da sua glória; almas, finalmente, que Ele deseja tanto ter por amigas, que as buscou com tantos prodígios, remiu por tão alto preço!

Lisonjear-nos-íamos de amar a Deus, e veríamos com indiferença uma alma tingida do sangue de Jesus Cristo, afogada no lamaçal do vício; um membro de seu corpo místico tornado membro de uma prostituída; o templo do Espírito Santo ocupado pelo ídolo de Dagon, sem pensarmos nos meios de remediar tão grandes males!

Lisonjear-nos-íamos de amar a Deus, e viveríamos indiferentes a respeito da salvação ou eterna perdição das almas, por quem Jesus Cristo está na terra exposto a tantos ultrajes, por quem Se sacrifica todos os dias nos nossos altares; que Ele solicita com tantas graças interiores e exteriores; que Ele, finalmente, está sempre pronto a estreitar nos seus braços abertos, quando elas voltarem ao seio da sua misericórdia!

E quem, pois, teria por amigo aquele que, vendo-o empenhado em buscar um bem, lhe recusasse os seus serviços, com que poderia alcançar-lh’o? Ora pode Deus contentar-Se com um amor que os homens desprezariam? Não, certamente; e assim o tem pensado todos os santos, que se dedicaram com tanto zelo à salvação das almas: seculares e sacerdotes, todos devem trabalhar nela. A história eclesiástica mostra-nos no quarto século um simples escravo convertendo toda a nação dos ibérios.

Entremos em nós mesmos: possuímos nós esse zelo pela salvação das almas, essa ardente sede de salvar os nossos irmãos que perecem?

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Sitio

(2) Inspiravit in faciem ejus spiraculum vitae (Gn 2, 7)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo V, p. 97-100)