Meditação para a Vigésima Terceira Terça-feira depois de Pentecostes. Vantagens da Modéstia

Meditação para a Vigésima Terceira Terça-feira depois de Pentecostes

SUMARIO

Meditaremos sobre as vantagens da modéstia, e veremos que esta virtude é:

1.° O encanto da sociedade;

2.° O caminho da perfeição.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De fazermos para o futuro maior apreço da modéstia, e de não a olharmos como só própria das pessoas simples, escrupulosas, tímidas, que não sabem viver;

2.° De conservarmos esta modéstia nas nossas vistas, privando-nos de olhar para o que não precisamos de ver; no nosso andar, nunca precipitando os nossos passos com ar irrefletido; nas nossas conversações, acedendo de boa vontade à opinião dos outros, quando a consciência o permite.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra do Apóstolo:

“Revesti-vos da modéstia como escolhidos de Deus” – Induite vos ergo sicut electi Dei… modestiam (Col 3, 12)

Meditação para o Dia

Adoremos Jesus Cristo figurado por esse homem prudente, que o Espírito Santo nos representa como trazendo a modéstia pintada nas feições do seu rosto (1). Bastava que se visse esse divino Salvador, para reconhecer que era mais que um homem (2). É porque, efetivamente, os santos nos dizem que a modéstia é como um reflexo da Divindade (3). Admiremos e bendigamos este Homem-Deus por tão encantadora modéstia.

PRIMEIRO PONTO

A Modéstia é o encanto da Sociedade

De fato, quem não tem experimentado na companhia do homem modesto um prazer puro e íntimo, que parece celestial? Quem tem podido preservar-se de não sei que delicioso sentimento, vendo o encanto das suas faces, a modéstia do seu olhar, a decência do seu aspecto? É difícil agradar a toda a gente, tem-se dito muitas vezes; este privilegio está reservado ao homem modesto. Há nele o quer que é que atrai a estima, que encanta o coração e agrada às pessoas mais difíceis de contentar. O seu só aspecto delicia os seus modos, tão isentos de afetada polidez como de grosseria, são simples o amáveis; e vê-se que só o coração lh’as ensinou.

A sua conversação é amena, humilde, sossegada, sem altercação nem disputa, porque muito diferente desses homens, que resolvem em tom magistral todos os assuntos, é discreto nos seus juízos. Se expõe a sua opinião, é com simplicidade e sem afinco; não persiste em fazê-la prevalecer, e prefere dar-se por vencido a altercar. Não é do número desses palradores, que parece quererem ser os únicos a falar, nem desses taciturnos, que com o seu silêncio mal regulado são pesados aos outros. Não fala com essa afetação e suficiência, que tem em vista dominar, fazer-se ouvir, captar a estima. Ao contrário, considerando-se o último de todos, é atencioso e obsequiador para com os seus irmãos, que olha como filhos de Deus, aos quais deve prestar serviços e obséquios. Daí as suas palavras cheias de graça e amenidade, as suas maneiras afáveis.

Eis aqui como a modéstia é o ornamento de todas as virtudes, a honra da religião, o vínculo da caridade entre os homens, e o encanto da sociedade. Temos praticado tão bela virtude?

SEGUNDO PONTO

A Modéstia é o Caminho da Perfeição

Os mestres da vida espiritual representam a perfeição como uma elevação, a que somente se chega por três degraus. No primeiro expiam-se os pecados passados; no segundo propende-se para as virtudes; no terceiro, a alma, abstraída de tudo, une-se a Deus, seu princípio e fim. Ora é pela modéstia, que se percorre estes três degraus.

1.° Por ela expiam-se os pecados passados: sem recorrer aos cilícios, a modéstia é de si uma magnífica penitência; é uma mortificação universal, que afeta todos os sentidos, a vista, a fala, o aspecto, o andar; mortificação fácil a todas as classes de pessoas; mortificação que não deteriora a saúde, não esgota as forças, não prejudica a cabeça, nem o peito; mortificação praticável em todos os fuçares, privados ou públicos, sagrados ou profanos; em todos os tempos de noite e de dia, quando se está só ou em companhia; mortificação sempre prudente, em que os excessos não são para temer; mortificação, finalmente, das mais santificantes, que inclina a alma à abnegação, acostumando-a a desprezar as suas comodidades e as suas levianas fantasias.

2.° Pela modéstia, sobe-se a todas as virtudes, segundo o oráculo do Espírito Santo: Os frutos da modéstia, diz ele, são o temor de Deus, as riquezas espirituais e a vida perfeita (4). O primeiro fruto, o temor de Deus, porque dispõe a alma a meditar a respeito de Deus e de si mesma, a regular as suas ações e palavras com perfeita discrição; o segundo fruto da modéstia, as riquezas espirituais, que são a fé mais viva e atual, a confiança maior, a caridade mais ardente; finalmente, o ultimo fruto da modéstia é a vida perfeita, porque o exterior modesto auxilia a meditação e a pureza da alma.

3.° Pela modéstia unimo-nos a Deus. Os olhos inclinados para a terra, diz São Bernardo, fazem elevar o coração ao céu; e quanto menos nos ocupamos dos objetos exteriores, mais fácil nos é ocupar-nos de Deus interiormente. É então que O gozamos, que conversamos com Ele, nos sentimos cheios dEle, que vivemos nEle, sem que nos distraiam dEle as criaturas com a sua agitação e o seu bulício.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) In facie prudentis lucet sapientia (Pr 17, 24)

(2) Magestas Divinitatis pcculta, exteruis lucebat in facie

(3) Modestia portio Dei est

(4) Finis modestiae timor Domini, divitiae, et gloria, et vita (Pr 22, 6)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo V, p. 165-168)