Meditação para o Quinto Sábado depois de Pentecostes. Tender sempre a Viver Melhor

Meditação para o Quinto Sábado depois de Pentecostes

SUMARIO

Meditaremos dois outros princípios da vida cristã: o primeiro é que, qualquer que seja o grau de virtude que tivermos alcançado, cumpre-nos sempre julgar que estamos muito longe do que deveríamos ter alcançado; o segundo é que deixar de progredir na virtude, é retroceder.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De diligenciarmos fazer cada uma das nossas ações com toda a perfeição, de que somos capazes;

2.º De examinarmos, depois de cada ação, os seus defeitos, e de repará-los, fazendo melhor a ação seguinte.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra do Apocalipse:

“Aquele que é justo, justifique-se ainda; e aquele que é santo, santifique-se ainda” – Qui justus est, justificetur adhuc; et sanctus sanctificetur adhuc (Ap 22, 11)

Meditação para o Dia

Adoremos Jesus Cristo nos dias da Sua adolescência, crescendo em sabedoria e em graça, isto é, dando provas sempre mais evidentes da sabedoria e da graça, que estavam nEle (Lc 2, 52); para nos ensinar, que devemos sempre crescer em virtude, sempre progredir sem jamais nos determos. Agradeçamos-Lhe tão útil ensino, e tributemos-Lhe todos os nossos respeitos.

PRIMEIRO PONTO

Qualquer que seja o grau de virtude, que tivermos alcançado, cumpre sempre julgar, que estamos muito longe do que deveríamos ter alcançado

“Irmãos, dizia São Paulo, eu não julgo ter alcançado a perfeição. Mas antes o que agora faço é que, esquecendo-me do que fica para traz, e avançando-me ao que resta para o diante, prossigo segundo a fim” – Fratres, ego me non arbitror comprehendisse. Unum autem: quae quidem retro sunt obliviscens, ad ea vero quae sunt priora extendens meipsum, ad destinatum persequor (Fl 3, 13-14)

Eis o nosso modelo. Nunca, devemos julgar, que temos feito bastantemente pela salvação. Cumpre-nos esquecer o bem, que fizemos, como se não o tivéssemos feito, porque a sua lembrança nos ensoberbeceria e nos relaxaria. Cumpre-nos ter sempre presente o bem, que nos resta fazer, para o continuar a fazer. O devedor, enquanto não pagou toda a sua dívida, não se tranquiliza por ter pago uma parte dela. Pensa incessantemente no que lhe resta pagar, e não despreza meio algum para a satisfazer. O viajante não se detêm no seu caminho, sob pretexto de que andou uma parte dele; continua a sua jornada, até que chegue ao fim. O negociante não deixa perder as ocasiões de lucrar, sob pretexto de que já lucrou muito. Do mesmo modo devemos discorrer acerca do negócio da nossa salvação; e quanto mais cheios de caridade formos, mais compreenderemos, que não temos amado nem servido a Deus como convém: mais misérias descobriremos em nós para curar, mais defeitos para corrigir; mais veremos por vias interiores um caminho imenso a percorrer; nos exemplos de Jesus Cristo e dos santos, modelos de que estamos longe; nas nossas contas para com Deus, grandes dívidas a pagar por tantas graças recebidas, por tão pouca penitência feita. É assim, que discorremos?

SEGUNDO PONTO

Deixar de progredir na virtude, é retroceder

Tal é a máxima de todos os mestres ou doutores da vida espiritual:

“Quem não progride retrocede” – Non progredi, regredi est (São Bernardo, Serm. II, in Purit.)

Onde não há progresso, há decadência (1); deixar de querer ser melhor, é deixai de ser bom (2), e não subir na virtude, é descer. Um homem colocado no meio de um rio impetuoso, se deixe de lutar contra a corrente, será bem depressa levado por ela. A nossa má natureza é esse rio, que tende incessantemente a arrastar-nos ao mal: por conseguinte, não há salvação para nós senão com a condição de fazermos incessantes esforços para progredir em sentido contrário. Não é admissível que se diga: Quero permanecer tal qual sou, nem melhor nem pior. Isto é impossível: o homem nunca permanece no mesmo estado: ou faz esforços para se tornar melhor, e cada esforço é um ato de virtude que o aperfeiçoa; ou desfalece sem fazer coisa alguma para se adiantar, e este desfalecimento é uma decadência (3). É um culpável abuso da graça.

“A terra, diz São Paulo, que embebe a chuva, que cai muitas vezes sobre ela, e não produz, fruto, é reprovada e está perto de maldição” – Terrae saepe venientem super se bibens imbrem… prote rens autem spinas ac tribulos, reproba est et maledicto proxima (Hb 6, 7-8)

Evidentemente esta terra é a nossa alma, sobre que as graças de Deus não cessam de chover; e não as aproveitar, é atrairmos sobre nós anátemas. É, pois, certo, que não progredir, é retroceder; não subir, é descer: não há meio termo. Ora, quão triste não é voltar atrás depois de ter tanto tempo caminhado? Se Nosso Senhor declarou inapto para o reino dos céus aquele que olha para traz (4), que será com aquele que retrocede? (5). Examinemos aqui a nossa consciência: não retrocedemos nós no caminho das virtudes em vez de nos adiantarmos? Compreendamos quão perigoso é para a salvação.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Qui non proficit, deficit  (São Bernardo, Serm. II, in Purit.)

(2) Ubi incipis olle esse melior, ibi desinis esse bonus (São Bernardo, Serm. II, in Purit.)

(3) Nunquam in eodem statu permanet (Jó 14, 2)

(4) Nolle proficere, deficeret est (São Bernardo, ep. 254)

(5) Nemo mittens manum suam ad aratrum et respiciens retro, patus est regno Dei (Lc 9, 62)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo III, p. 252-255)