Meditação para a Décima Quarta Sexta-feira depois de Pentecostes. Sobre a Ambição

Meditação para a Décima Quarta Sexta-feira depois de Pentecostes

SUMARIO

Meditaremos sobre outro vício oposto à humildade, que é a ambição; e veremos:

1.° Quanto este vício é detestável;

2.º De quantos modos podemos tornar-nos ambiciosos.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De nos contentarmos com a posição que a Providência nos criou, sem buscarmos outra mais elevada;

2.° De resistirmos aos oferecimentos e instâncias que possam fazer-nos neste sentido, a menos que tenhamos provas evidentes de que o que nos oferecem é do agrado de Deus.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra de São Tiago:

“Não queirais fazer-vos mestres, sabendo que vos expondes a um juízo mais severo” – Nolite… magistri fieri, scientes quod majus judicium sumitis (Zc 3, 1)

Meditação para o Dia

Adoremos o Espírito Santo proibindo-nos, na Sagrada Escritura, a aspiração ao poder e às dignidades, o desejo desordenado de nos elevarmos acima dos outros, isto é, a ambição (1). Demos-Lhe graças por tão útil proibição, e roguemos-Lhe que nos incite a cumpri-la.

PRIMEIRO PONTO

Quanto a Ambição é Detestável

“Este vício, diz o Espírito Santo, é abominação diante de Deus” – Quod hominibus altum est, abominatio est ante Deum (Lc 16, 15)

Os filhos de Zebedeu pedem para ser elevados acima dos outros Apóstolos e ter a primazia:

“Não sabeis o que pedis – Nescitis quid petatis (Mt 20, 22; Mc 10, 58), lhes responde Jesus Cristo. Os príncipes das gentes aspiram a dominar; mas os meus discípulos só são grandes à proporção que se humilham” – Quicumque voluerit inter vos major fieri, sit vester minister (Mt 20, 26)

No banquete das bodas, alguns ambiciosos escolhem os primeiros assentos na mesa. Não façais o mesmo, diz Ele a seus discípulos:

“Quando fordes convidados para algum banquete, tomai o ultimo lugar – Recumbe in novissimo loco (Lc 14, 10); porque todo aquele que se exalta, será humilhado, e todo aquele que se humilha, será exaltado”

E Jesus Cristo confirmou esta doutrina com o seu exemplo. Durante toda a sua vida prega a humildade, a vida obscura, a fuga das dignidades. Quando O querem aclamar rei, foge, como se fosse ameaçado de uma grande desgraça (2). Até aos trinta anos, vive desconhecido em uma cabana; durante a sua missão, vive pobre sem glória; na sua paixão, é coberto de opróbrios. Se aceita uma corôa, é uma corôa de espinhos; se recebe um cetro, é um cetro de ignomínia. Como ousarão apresentar-se ante o seu tribunal aqueles, cujos sentimentos e procedimento terão sido contrários a tais exemplos? Finalmente, o que nos ensina a fé, no-lo dita a razão. A ambição não faz senão desgraçados. Entre os seus escravos, que vemos? Muitos infelizes que esperam, muitos logrados que perderam as esperanças; muito poucos que se gozem, depois de ter, para chegar ao que são, sofrido mil desgostos sem ousar queixar-se, mil vexames e repulsas, cuja odiosidade lhes foi necessário dissimular; e agora que se elevaram em dignidade aguardam-os novos desgostos, novos desenganos. Falta-lhes sempre alguma coisa. A homenagem de Mardoqueu, de um só homem em todo o império, falta ao soberbo Aman, e é infeliz. A vinha de Nabote falta a Acabe, rei de Israel, e isso aflige-o; não descansa, enquanto não manda matar Nabote. E ainda assim, depois de alcançarem o que queriam, não deixam de ser desgraçados. Fui tudo o que se pode ser, dizia um imperador romano; e reconheço que tudo isto de nada serve para a felicidade (3).

SEGUNDO PONTO

De quantos modos podemos tornar-nos Ambiciosos

Tomamo-nos ambiciosos:

1.° Desejando ardentemente uma outra condição que a nossa, aspirando a honras, que não nos são devidas, ou exigindo as que o são;

2.° Tomando a ambição por conselheira dos nossos juízos na apreciação dos outros, a ponto de amá-los ou odiá-los, favorecei-os ou contrariá-los segundo se mostram favoráveis ou opostos aos nossos intuitos;

3.° Reputando felizes os que conseguem o que querem, e não cessando as nossas pretensões senão quando as não podemos realizar;

4.° Não julgando nenhum cargo superior ao nosso mérito, e aproveitando todas as ocasiões de obter dignidades e adiantamento;

5.º Olhando como principal motivo das nossas ações uma vã honra, que lisonjeia n orgulho;

6.º Aspirando, na ordem espiritual, a graças particulares e extraordinárias, a uma oração não vulgar, sem querermos contentar-nos com as luzes e graças que apraz a Deus dar-nos.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Noli quaerere a Domino ducatum, neque a rege cathedram honoris (Ecl 7, 4)

(2) Fugit in montem ipse solus (Jo 6, 15)

(3) Omnia fui, et nihil expedit

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo VI, p. 165-168)