Meditação para a Décima Terça-feira depois de Pentecostes. Segunda razão de sermos Humildes: Nihil habemus

Meditação para a Décima Terça-feira depois do Pentecostes

SUMARIO

Meditaremos sobre uma segunda razão de sermos humildes, que é, que nada possuímos – Nihil habemus, isto é:

1.º Nenhum bem há em nós de que possamos gloriar-nos;

2.° O bem alheio, que há em nós, só nos é confiado para a glória de Deus e de nenhum modo para a nossa.

— Depois destas reflexões, tomaremos a resolução:

1.° De separarmos com exação o que em nós pertence a Deus e o que é nosso; nada nos restará senão o mal, nada, por conseguinte, que não nos humilhe;

2.° Quando parecer que nos estimam, ou formos tentados a comprazer-nos em nós mesmos, de fazermos a repartição entre Deus e nós.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra de Nosso Senhor:

“Toma o que te pertence e vai-te” – Tolle quod tuum est, et vade (Mt 20, 14)

Meditação para o Dia

Adoremos Jesus Cristo possuindo em si todos os tesouros da graça, todas as riquezas da sabedoria e da ciência de Deus; e, no meio de todos estes bens, declarando-se, diante de seu Pai, indigente e pobre, (1), e isto porque não se apropria de nenhum dos dons de Deus. A sua doutrina não é sua, as suas palavras não são dEle (2). Ó! Que belo exemplo, que nos ensina a não fazer alardo do que há em nós, e a olhar-nos sempre como não valendo nada! (3). Agradeçamos a este divino Mestre tão útil lição, e roguemos-Lhe que nos penetre bem desse espírito de aniquilamento de todo o nosso ser.

PRIMEIRO PONTO

Nada possuímos de que possamos gloriar-nos: Nihil habemus

Com efeito, o nada, que constitui o nosso ser, exclui toda a posse; o nada é a maior de todas as nossas pobrezas, a última de todas as misérias. Se neste estado fossemos tão destituídos de senso, que nos gloriássemos de alguma coisa, incorreríamos no duplo anátema de Deus contra o pobre, e de Jesus Cristo contra esse homem do Apocalipse, que se julga rico, quando está em extrema pobreza. É verdade que, para nos colocar neste mundo na classe dos seres, Deus teve que criar o nosso corpo, a nossa alma, tudo o que possuímos, sem excetuar um só cabelo; mas criando estas coisas, não teve em vista abdicar o Seu domínio. Todos os bens da graça Lhe pertencem. Entregou-no-los somente, com a condição de que usemos deles, e Lhe demos conta desse uso um dia. Ora sendo as coisas assim, não é uma loucura gloriar-nos do que não nos pertence? Que tendes vós, que não recebêsseis? diz o Apóstolo; se porém o recebestes, porque vos gloriais, como se o não tivésseis recebido? (4). Só um louco é que quereria ser estimado por causa de um vestido que lhe emprestaram, que toda a gente sabe que não lhe pertence, e que lhe tirarão quando menos o esperar.

SEGUNDO PONTO

O bem alheio que há em nós só nos é confiado para a glória de Deus e de nenhum modo para a nossa

Deus declara-nos que a Ele pertence toda a glória, e que a não dará a outrem (5). Usar dos nossos bens para glória da criatura é contrariar o Seu desígnio; é abusar dos Seus dons; é pagar os Seus benefícios com uma horrível ingratidão; é empregá-los insolentemente em lhe roubar a Sua glória. Pensamos nós no ultraje que fazemos a Deus todas as vezes que nos gloriamos dos Seus bens, estimando-nos mais ou procurando ser estimados das criaturas?

Supliquemos-Lhe hoje e todos os dias da nossa vida que se digne fazer que nunca nos estimemos, nem procuremos ser estimados por causa do que há em nós, mas sim que busquemos sempre a maior glória de Deus.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Ego vir videns paupertatem meam (Jr, Lm 3, 1). Ego mendicus sum et pauper (Sl 39, 18)

(2) Mea doctrina non est mea (Jo 7, 16). Sermonem quem audistis, non est meus, sed ejus qui misit me Patris (Jo 14, 24)

(3) Nihil valemus

(4) Quid habes quod non accepisti? Si autem accepisti, qui gloriaris quasi non acceperis? (1Cor 4, 7)

(5) Gloriam meam alteri non dabo (Is 48, 11)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo VI, p. 70-72)