Meditação para a Quarta-feira da Segunda Semana da Quaresma. Santos desejos do Céu

Meditação para a Quarta-feira da Segunda Semana da Quaresma

SUMARIO

Consideraremos na nossa meditação:

1.° Que o mistério da transfiguração deve incutir-nos santos desejos do céu;

2.° Que estes santos desejos são muito úteis à alma.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De nos desapegarmos da terra, e de não amarmos senão as coisas do céu;

2.° De concebermos multas vezes santos desejos por forma de orações jaculatórias.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra de São Bernardo:

“Quão formosa és, pátria minha! Quão formosa és!” – Quam pulchra es, patria mea, quam pulchra es!

Meditação para o Dia

Adoremos Nosso Senhor Jesus Cristo, revelando o esplendor da Sua glória no Tabor, para nos desapegar da terra e nos fazer desejar o céu, mostrando-nos quanto nEle se é feliz (1). A este espetáculo, elevemos para cima as nossas esperanças, e enchamo-nos de grandes desejos do céu. Nada mais santificante.

PRIMEIRO PONTO

A Transfiguração de Nosso Senhor ensina-nos a desejar o céu

Com efeito, se alguns raios da glória, vistos um instante e como que de passagem, encheram os Apóstolos de tão grande alegria que Pedro, extasiado, não cabendo em si de contente, exclama:

“Senhor, bom é que estejamos aqui; se quereis, façamos aqui três tabernáculos, um para vós, outro para Moisés, e outro para Elias” (Mt 17, 4)

Que será, ó Jesus, vendo-Vos face a face em todo o brilho de Vossa majestade, em todo o esplendor da Vossa glória, e isto não só alguns, instantes fugitivos, como no Tabor, mas sempre, mas eternamente? Porque eternamente contemplaremos a formosura do Vosso rosto; eternamente gozaremos da Vossa deliciosa companhia, não já somente com Moisés e Elias, mas com todos os patriarcas, todos os profetas, todos os Apóstolos, todos os mártires, confessores e virgens; não já somente era uma tenda levantada por mão do homem, mas na própria cidade de Deus. Oh! Que doce e gloriosa esperança! Oh! Que belo destino! Era o que consolava Jó e o fazia exultar no meio das suas dores:

“Eu a sei, exclamava ele, que o meu Redentor vive, e que no derradeiro dia o verei na minha própria carne, o contemplarei com os meus olhos, e esta esperança faz a alegria do meu coração” (Jó 19, 25-27)

Era o que obrigava o Apóstolo a suspirar tão vivamente pela dissolução do seu corpo (2), e inspirava a Santa Tereza estes ardentes desejos de morrer:

“Ó vida demasiadamente longa! – exclamava ela; ó morte demasiadamente tardia! Quão dilatado é o meu desterro!”

Era o que incitava São Gregório de Nazianzeno a dizer:

«Quando considero quanto se ganha morrendo, e quão pouco se perde perdendo a vida, não posso conter os meus veementes desejos; e digo a Deus: Quando será, Senhor, que me tirareis deste mundo para me introduzir na minha pátria?» (Orat. X, in Sacerd.)

Tais devem ser também os sentimentos de todo o cristão.

“Porque aquele, diz Santo Agostinho, que não geme cá na terra como peregrino, não se alegrará no céu como cidadão” – Quid non gemit ut peregrinus, non gaudebit ut cives

O verdadeiro cristão, diz ele em outra parte, vive com paciência, e morre com gosto; a vida é para ele uma cruz, a morte um gozo (3).

São estas as nossas disposições? Não amamos mais o exílio que a pátria, a terra que o céu, e não julgamos nós uma felicidade sermos por muito tempo peregrinos, e entrarmos o mais tarde possível no céu? Oh! Que incoerência é a nossa! Dizemos a Deus: «Venha a nós o vosso reino», e agrada-nos o nosso desterro, e buscamos estabelecer-nos nele, como se tivéssemos de viver sempre nele! Caminhamos para a felicidade, e não temos pressa de a alcançar; navegamos no meio do mar, e não aspiramos ao porto!

SEGUNDO PONTO

Quão úteis são à alma os santos desejos do céu

1.° Consolam-a em todas as penalidades da vida e enfermidades do corpo. Com efeito, que são todas estas penalidades para uma alma abrasada nos santos desejos do céu, em que espera ser indenizada delas magnificamente? Diz consigo:

Padeço, é verdade; mas que é isto em comparação da felicidade que me espera, em comparação da glória que gozarei, quando o meu corpo, transformado na semelhança do corpo do Salvador, for revestido da luz, resplandecente como o sol, impassível, imortal?

Abençoado seja o padecimento que me alcançou tanta felicidade!

2.° Os santos desejos do céu desafeiçoam de tudo o que passa: a alma, cheia destas grandes esperanças, vê o mundo todo infinitamente abaixo dela, já não aspira senão aos bens eternos do céu, e diz como Santo Inácio:

“Quão desprezível me parece a terra, quando olho para o céu!” – Quam sordet tellus, cum caelum aspicio

3.° Estes santos desejos enchem a alma de um santo zelo pela salvação. Ela diz consigo, como Santo Agostinho:

“Se o trabalho mete medo, a recompensa anima” – Si labor terret, merces invitet

Quando se pensa que a menor dor cristãmente suportada, o menor ato de virtude, o menor sacrifício, a menor oração bem feita, há de ter em recompensa um peso imenso de eterna glória, nada há que custe, e entregamo-nos com alegria a tudo o que tende à salvação. Ó, de quantas graças nos privamos nós com esse esquecimento do céu, que nos ó tão habitual! Reconheçamo-lo e elevemos os nossos corações para o alto. Sursum corda!

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Bonum est nons hic esse (Mt 17, 4)

(2) Desiderium havens dissolve et esse cum Christo (Fl 1, 23)

(3) Justus patienter vivit et delectabiliter moritur

Voltar para o Índice das Meditações Diárias de Mons. Hamon

(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo II, p. 121-125)