Meditação para a Quarta-feira na oitava do Santíssimo Sacramento. Respeito devido à Eucaristia

Meditação para a Quarta-feira na oitava do Santíssimo Sacramento

SUMARIO

Depois de termos visto o que é a Eucaristia para conosco, meditaremos o que devemos ser para com ela. À primeira classe desses deveres pertence o respeito. Veremos pois:

1.° Quão profundo deve ser o nosso respeito com a Eucaristia;

2.° Que grandes bens tiraremos deste profundo respeito.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De nos conservarmos sempre na igreja com uma profunda devoção, uma compostura decente, um semblante modesto;

2.° De nela guardarmos rigoroso silêncio, sem falar a ninguém, mas só a Deus, salvo o caso de necessidade.

O nosso ramalhete espiritual será as palavras dos livros santos:

“Que terrível é este lugar! Tremei diante do meu santuário!” – Quam terribilis est locus iste! (Gn 28, 17). Pavete ad sanctuarium menum! (Lv 26, 2)

Meditação para o Dia

Adoremos pelo pensamento Jesus Cristo presente nos tabernáculos. Enchamo-nos de respeito diante das Suas grandezas abatidas. Louvemos, bendigamos o grande Deus que, por amor de nós, desce de tão alto a tão profunda humilhação. Por mais que façamos, nunca poderemos exaltá-lO bastantemente (1).

PRIMEIRO PONTO

Quão profundo deve ser o nosso respeito para com a Eucaristia

Quanto mais Jesus Cristo rebaixa a Sua glória neste sacramento, tanto mais devemos venerá-la, e a medida das Suas humilhações deve ser a medida dos nossos respeitos. É a regra que o Pai celestial ensinou ao mundo com o Seu exemplo:

Vê o Seu divino Filho humilhado no presépio, e imediatamente deputa os Seus anjos para proclamar a Sua glória aos habitantes vizinhos e guardar o Seu berço. Vê-o nas margens do Jordão confundir-se com os pecadores, e imediatamente abre os céus e o glorifica com o mais brilhante testemunho. Vê-o no Calvário coberto de opróbrios, e no mesmo instante, para o honrar, ressuscita os mortos, escurece o sol, fende as pedras, abala a terra. Ora, se Nosso Senhor deve ser honrado à proporção que se humilha, poderemos jamais imaginar quão profundo deve ser o nosso respeito diante da sagrada Eucaristia! Porque onde se rebaixou Jesus Cristo jamais tão profundamente? Ao menos no presépio Ele tinha a forma de um menino, e os reis vinham adorá-lO; ao menos na cruz conservava ainda alguns indícios do homem, obra prima da criação; mas na Eucaristia que vejo? Nada que me anuncie um homem, ainda menos que me anuncie um Deus.

Ó Sabedoria eterna! Vós estáveis escondida debaixo da carne, e eis que a própria carne se esconde debaixo da aparência material do pão. Estas fracas espécies, que só oferecem aos meus olhos a aparência do alimento mais grosseiro, encobrem uma glória, de que um só raio deslumbra a Moisés no Sinai e os discípulos no Tabor. Essa partícula caída sobre a sagrada patena encerra o Deus imenso, que a vasta extensão dos céus não podia conter. Ó excesso de humilhação, que pareceu tão grande ao Pai eterno que, como indenização, não julgou que fazia muito deixando em torno dos tabernáculos legiões de anjos, que ali se conservam prostrados em contínua adoração. Eu mesmo vi, diz São João Crisóstomo, esses anjos adoradores: estavam lá como guardas em redor do seu Rei, na atitude do mais profundo respeito com a cabeça inclinada, os olhos baixos como os vinte, e quatro anciãos, que o Apóstolo amado viu diante do trono de Deus (2). Concluamos daqui quão profundo deve ser o nosso respeito na presença da Eucaristia; porque ali onde o céu treme e adora, seria lícito, que ousássemos ter um ar familiar, estar à nossa vontade, deixar o nosso espírito desatento e nosso coração indiferente? E que somos nós, pois, diante deste Filho eterno de Deus, descido dos esplendores dos santos? Somos humildes súditos na presença do Rei da glória (3), dizia Santo Tomás, chegando-se aos tabernáculos cheio de respeito. Somos réus diante do seu juiz. De onde provém, perguntavam a São Martinho, esse tremor, que manifestais, quando entrais na Igreja? Como não ei de eu tremer? Respondia esse taumaturgo das Galias: estou na presença do meu juiz. Somos mesquinhas criaturas diante da infinita majestade do seu Deus; e que deve fazer a criatura na presença do seu Criador, senão humilhar-se, prostrar-se cheia de respeito, confessar, que Ele é o seu Senhor (4); que ela não é mais do que pó e cinza (5); repetir mil vezes a voz de São Francisco de Assis: Quem sois vós, Senhor, e quem sou eu? (6) ou antes lembrar-nos da palavra de Santa Tereza às suas religiosas:

“Minhas irmãs, devemos estar diante da Eucaristia como os bem-aventurados estão no céu diante da essência divina”

Pensamos nós seriamente nisto, quando estamos no lugar santo? Conservamo-nos lá cheios de respeito e em adoração?

SEGUNDO PONTO

Que grandes bens tiraremos do respeito para com a Eucaristia

O primeiro bem, que disso tiraremos, será um notável adiantamento na piedade. A experiência ensina-nos que, quando se está diante dos tabernáculos em uma compostura respeitosa e um perfeito recolhimento dos sentidos, se ora muito melhor: de um lado, suprime-se a causa de muitas distrações; e do outro, a graça, em recompensa da boa vontade que se mostra com essa compostura tão religiosa, infunde na alma uma exuberante piedade e fervor. Ao contrário, se a compostura é pouco respeitosa, a dissipação do exterior arrasta a do interior; nunca postura demasiadamente livre encobriu um exterior religioso.

O segundo bem, que tiramos do respeito para com a Eucaristia, é a edificação do próximo. O bom exemplo de um cristão profundamente recolhido consigo diante dos tabernáculos comove e inclina aqueles, que o vêem, a imitá-lo; como, ao contrário, o que tem um exterior pouco recolhido, maneiras desenvoltas, que olha para esta e aquela parte, que fala ao vizinho, distrai os outros, que não ousam estar com mais respeito que ele, resfria a caridade, diminui o sentimento religioso, e muitas vezes até faz vacilar o pé.

Não temos nós causado muitas vezes prejuízo a nós mesmos e aos outros com o nosso exterior pouco respeitoso?

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Quantum potes, tantum aude, quia major omni laude, nec laudare sufficis (Prosa Lauda Sion)

(2) Et viginti quatuor seniores ceciderunt in facies suas (Ap 5, 14)

(3) Tu Rex gloriae, Christe

(4) Dominus est (1 Rs 3, 18)

(5) Loquar ad Dominum meum, cum sim pulvis et cinis (Gn 18, 27)

(6) Quis tu, Domine quis ego?

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo III, p. 173-177)