Meditação para a Segunda-feira da Paixão. Quanto devemos amar Jesus Crucificado

Meditação para a Segunda-feira da Paixão

SUMARIO

Depois de termos meditado quanto nos amou Jesus Crucificado, meditaremos agora quanto nós mesmos devemos amá-lO; e veremos que devemos amá-lO:

1.º Com um amor penitente, lembrando-nos do passado;

2.º Com um amor generoso e fervoroso quanto ao presente e ao futuro.

— Tomaremos depois a resolução:

1.º De dirigirmos frequentes vezes no dia piedosos suspiros de amor a Jesus padecendo e morrendo por nós;

2.º De fazermos todas as nossas ações por amor para com Ele, e de darmos, neste intuito, a cada uma dessas ações toda a perfeição de que formos capazes.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra de São Paulo:

“Cristo morreu por todos a fim de que todos vivamos para ele” – Pro omnibus mortuus est Christus: ut qui vivunt, jam non sibi vivant, sed ei qui pro ipsis mortuus est (2Cor 5, 15)

Meditação para o Dia

Prostremo-nos pelo pensamento aos pés de Jesus Cristo padecendo e morrendo por nós; e tributemos-Lhe a nossa adoração, o nosso reconhecimento e amor.

PRIMEIRO PONTO

Devemos amar Jesus Crucificado com um Amor Penitente lembrando-nos do passado

Que vergonha para nós, que motivo de pesar e de arrependimento, todo o nosso passado, estudado ao pé da cruz! Ai! Não é verdade que a cruz do Salvador não tem achado as mais das vezes em nós senão tibieza e insensibilidade, talvez até indiferença e pusilanimidade? Não é verdade que a cruz é como um grande livro, em que os nossos pecados estão escritos com caracteres de sangue? A carne do divino Salvador, que se vai em pedaços, e o Seu sangue que corre debaixo dos açoites, acusam o amor desregrado que temos ao nosso corpo. A Sua cabeça coroada de espinhos exproba-nos a soberba do nosso espírito e a vaidade dos nossos pensamentos. O fel e o vinagre, que Lhe dão a beber, protestam contra a delicadeza e sensualidade dos nossos gostos. O Seu rosto moído de bofetadas e coberto de escarros condena o nosso desejo de nos mostrarmos o nosso horror à humilhação e ao desprezo. Os cravos, que o seguram, devem fazer-nos envergonhar da amor da liberdade e da independência, que há em nós. Finalmente, a Sua morte diz-nos a enormidade dos nossos pecados, que a causaram. Ó Jesus que eu devia tanto amar, quanto lamento ter-Vos ofendido tanto! Toca-me fazer penitência para sempre; e instruída pela voz que sai de todas as Vossas chagas, quero começar uma nova vida.

SEGUNDO PONTO

Devemos amar Jesus Crucificado com um Amor Generoso e Fervoroso

Se um homem nos desse provas de benevolência, ser-lhe-íamos reconhecidos. Se sacrificasse por nós a sua fortuna, nunca julgaríamos poder bastantemente agradecer-lhe e amá-lo. Que seria pois se, ao sacrifício da sua fortuna, juntasse o sacrifício da sua honra, da sua liberdade, a ponto de se deixar amarrar e açoitar como um escravo? Que seria principalmente se ele sacrificasse a sua vida para salvar a nossa? Imaginaríamos uma alma tão mal formada, que ofendes-se um tal benfeitor, que lhe recusasse qualquer sacrifício? Ó Jesus Crucificado, que fizestes isto e muito mais, que nos tendes cumulado de inefáveis bens, fruto da Vossa santa morte, como poderíamos nós ofender-Vos, recusar-Vos alguma coisa, quando nos dais tudo, quando Vós mesmo Vos entregues sem reserva; ter apego aos bens da terra, quando estais inteiramente nu na cruz; ao amor-próprio e à vaidade, quando Sois coberto de confusão; ao prazer e ao gozo, quando Vós padeceis por causa de nós? Não, meu Deus, isto não é possível. É-Vos devido um amor generoso, que nada poupe, que tudo sacrifique sem reserva. Ainda não é bastante. Este generoso amor deve ser acompanhado de fervor, isto é, desse sentimento nobre e delicado que, depois de ter dado tudo, confesse humildemente que isso é mil vezes pouco; que nada é em comparação do que Vós mereceis, ó Jesus Crucificado! Tal foi o amor dos santos. Aspiravam sempre a amar mais, e ainda que fizessem muito, a fazer mil vezes mais e mil vezes melhor ainda. Ardiam em santos desejos de amar sempre mais; quereriam amar infinitamente, se lhes tivesse sido possível, porque compreendiam que o nosso grande Deus é milhares de vezes digno de um amor infinito. Daí provinha que, por um lado, nunca afrouxavam, faziam sempre progressos, e que, por outro, se humilhavam sempre e se envergonhavam de não amar ainda mais. Oh! Quem nos dera esse amor fervoroso, que arde incessantemente e se alimenta, consumindo-se! Ó amor, vem a mim, abrasa-me. Não viva eu já senão de amor e morra eu de amor! Ó Jesus Crucificado, concedei-me, como a São Paulo, um coração que possa dizer:

“O amor de Jesus Cristo me constrange, e nada poderá conter e o meu santo fervor” – Charitas Christi urget nos (2Cor 5, 11). In his omnibus superamus propter eum qui dilexit nos (Rm 8, 37)

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo II, p. 186-189)