Meditação para a Décima Segunda-feira depois de Pentecostes. Primeira razão de sermos Humildes: Nihil sumus

Meditação para a Décima Segunda-feira depois do Pentecostes

SUMARIO

Aprofundaremos, em todas as nossas meditações desta semana, a verdade que apenas pudemos tocar de leve, a saber, que a humildade é eminentemente razoável; e meditaremos a sua primeira razão, que é, que nada somos – Nihil sumus; e consideraremos, em um segundo ponto, a consolação que uma alma fiel acha nesta verdade.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De nos lembrarmos muitas vezes da nossa origem, que é o nada, para combater as quimeras com que nos embala o nosso orgulho;

2.° De não enganarmos os outros buscando tornar-nos notáveis, e querendo que pensem em nós, que nos estimem e louvem.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra do piedoso Alvares:

“Ó nada, nada, quanto desagradas a Deus, quando te ensoberbeces! Ó nada, que há de comum entre ti e o louvor?” – O nihil, nihil, quantum Deo displices, cum inflaris! O nihil, quid tibit et laudi?

Meditação para o Dia

Adoremos Nosso Senhor Jesus Cristo declarando que não obstante todas as suas perfeições divinas, não é senão nada (1), denominando-se Filho do Homem, isto é, filho do nada. Por conseguinte, durante toda a sua vida, trata-se como um homem de nenhuma importância. Do fundo da sua alma, declara continuamente a seu Pai que não é nada, e alegra-se de que Deus só seja tudo. Admiremos as disposições do seu coração assim aniquilado, e regozijemo-nos da honra que Ele tributa com isso à suprema Majestade.

PRIMEIRO PONTO

De nós mesmos nada somos: Nihil sumus

Nôs pertencemos inteiramente a Deus. Apenas somos os seus ecônomos ou administradores. Que éramos na eternidade, que precedeu o nosso nascimento? Éramos menos que um bicho da terra, menos que um átomo no ar: não éramos nada. Ainda hoje nada seríamos, se Deus, por uma bondade toda gratuita, que nos escolheu entre milhares de seres possíveis, sem nenhum mérito da nossa parte, nos não houvesse tirado do abismo do nada. Neste mesmo momento, recairíamos no nosso primitivo nada, se Deus retirasse a sua mão poderosa, que nos conserva como suspensos por cima do abismo. Ó! Quão pouco valemos pois!

“Tudo o que há bom em mim, Deus meu, é uma dádiva da vossa misericórdia” – Totum, quidquid sum, de misericordia tua est (Santo Agostinho in Sl 58)

Que mal fica, pois, ao homem julgar-se alguma coisa, por mínima que seja, e comprazer-se no que é! É uma mentira, porque é verdade que de nós mesmos nada somos; é um roubo sacrílego, porque é apropriar-nos o que pertence a Deus; é uma grande soberba, porque é elevar-nos presunçosamente acima do que somos. Deus disse:

“Só eu sou o que é” – Ego sum qui sum (Ex 3, 14)

Se Deus é aquele que é, toda a criatura é necessariamente o que não é. Sim, meu Deus, todas as gentes não na vossa presença como se não fossem (2). Com maior razão, eu que tão pouco valho no meio de todas as gentes, nada sou diante de Vós; e o Vosso Apóstolo tem muita razão para dizer:

“Se algum, tem para si que é alguma coisa, não sendo nada, ele mesma a si se engana” – Si quis existimat se aliquid esse, cum nihil sit, ipse seducit (Gl 6, 3)

Estejamos algum tempo prostrados aos pés de Nosso Senhor para receber a impressão desta palavra: Não sou nada, para nos concentrarmos no nosso nada, e nos penetrarmos do íntimo sentimento de que não somos nada.

SEGUNDO PONTO

Consolação que acha a alma fiel ao sentimento do seu nada

É esta uma verdade, que o mundo não suspeita, e que talvez nem sequer seja capaz de compreender mas a alma, que ama a Deus, compraz-se em se aniquilar na sua presença:

1.° Porque sabe que o único meio de ser amada por Deus, é humilhando-se diante dEle; e que se Deus nada vê em nós que lhe não pertença, amará tudo o que houver em nós: por conseguinte nos amará;

2.° Porque o reconhecimento do nosso nada é a glorificação de Deus.

«Minha filha, disse um dia Jesus Cristo a uma das suas fiéis servas, eu sou aquele que é, e tu és aquela que não é»

Consoladora palavra para uma alma que ama! Ainda quando ela fosse alguma coisa, deixaria de o ser para que só Deus seja tudo em todos (3) e para poder dizer-lhe com um delicioso sentimento:

“Vós sois só, Deus meu, e fora de vós tudo é nada” – Nonne tu qui solus ea?  (Jó 14, 4)

É uma inefável consolação para ela considerar-se no meio do nada, sobre que Deus a constituiu, sem poder neste estado ter outro amparo, outro apoio, outra esperança senão a onipotente e misericordiosa bondade de seu adorável Pai. Ó meu Deus, ó meu tudo! Quanto mais sinto que não sou nada, mais sinto que sois forte, e este pensamento faz a minha felicidade.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Substancia mea tanquam nihilum ante te (Sl 38, 6)

(2) Omnes gentes quasi non sint, sic sunt coram eo (Is 40, 17)

(3) Ut sit Deus omnia in omnibus (1Cor 15, 28)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo VI, p. 67-70)