Meditação para a Terça-feira da Sexagésima. Paixão de Nosso Senhor

Meditação para a Terça-feira da Sexagésima

SUMARIO

Para nos conformarmos com a liturgia romana, que propõe à piedade dos fiéis a Paixão do Salvador, consideraremos:

1.° Que a devoção à Paixão é um dever de coração;

2.° Que tudo na religião nos prega este dever.

— Tomaremos depois a resolução:

1.º De termos sempre um crucifixo nas paredes do nosso aposento, outro sobre a nossa mesa de trabalho, e o terceiro sobre o nosso peito;

2.º De saudarmos o crucifixo todas as vezes que entrarmos no nosso aposento, ou que o virmos em alguma parte.

O nosso ramalhete espiritual será a exortação do Apóstolo:

“Considerai atentamente Aquele que sofreu tal contradição dos pecadores” – Recozitate eum qui talem sustimuit a peccatoribus… contradictionem (Hb 12, 3)

Meditação para o Dia

Adoremos Jesus Crucificado, principal objeto da devoção de todos os cristãos. Unamo-nos a tantas almas fervorosas, que põem toda a sua felicidade em meditar o crucifixo, e tiram assim desta meditação as mais sublimes virtudes.

PRIMEIRO PONTO

A devoção à Paixão é um dever do coração

Fôra mister não ter coração para esquecer tão grande benefício, para contemplar com indiferença o crucifixo, esse insigne troféu da caridade de um Deus, essa admirável invenção das entranhas de Sua misericórdia (1), à qual devemos tudo, a adoção de filhos de Deus, a graça durante a vida, e a glória na eternidade. Se um amigo tivesse dado a sua vida por nós e morrido em nosso lugar no opróbrio e nos tormentos, disso nos lembraríamos até ao último suspiro, nos recordaríamos com uma viva emoção de todas as circunstâncias da sua agonia, e beijaríamos com lágrimas de ternura o quadro que no-lo representasse padecendo e morrendo por nós. Quanto mais deve o amor de Jesus Crucificado constranger-nos até não nos deixar mais viver senão para Ele? (2). Porque na cruz não é por amigos que Jesus morre, mas por aqueles que até se tinham tornado seus inimigos (3). Está escrito:

“Não te esqueças nunca da graça que te fez o que ficou por teu fiador, porque ele expôs a sua vida por te valer” – Gratia fidejussoris ne obliviscaris: dedit enim pro te animam suam (Ecle 29, 20)

E este amigo generoso, que ficou fiador e pagou por nós, por mais indignos que éramos de tanto amor, quem é senão o divino Crucificado? Por isso, diz Santo Agostinho, aquele que esquece o benefício da criação merece o inferno, e aquele que esquece o benefício da redenção merece mil outros infernos. Todavia, quantos há, que nisto quase não pensam? À força de ter o crucifixo diante dos olhos, tornam-se-lhe insensíveis; à força de ver o amor, tornam-se ingratos: era esta a grande desconsolação de São Francisco de Assis, esse ilustre devoto de Jesus Crucificado. De dia e de noite, derramava lágrimas sobre à ingratidão dos homens ao pé da cruz do Salvador; e quando queriam consolá-lo:

«Não, respondia ele, enquanto eu viver não poderei ser consolado de que, tendo o meu Salvador amado tanto os homens, estes, não obstante isso, O amem tão pouco»

Não somos nós do número daqueles que o santo patriarca deplorava? Que amor é o nosso pelo crucifixo? Trazemo-lo ao peito? Beijamo-lo muitas vezes? Contemplamo-lo com amor?

SEGUNDO PONTO

Tudo na religião nos prega a devoção à Paixão do Salvador

A Santa Missa, que é o principal ato da religião, não é senão a representação do Sacrifício do Calvário. Consagrai e recebei a Eucaristia, diz Jesus Cristo aos seus Apóstolos, em memória de mim, isto é, segundo o comentário de São Paulo, em lembrança da minha morte, em honra da minha cruz (4). Coisa admirável! Jesus Cristo querendo inspirar-nos a todos uma constante devoção à Sua cruz, institui para ser a Sua memória, não um sacramento transitório como os outros sacramentos, mas um sacramento único que tem o privilégio de ser permanente, um sacramento que possuímos de dia e de noite no santo tabernáculo, onde este adorável Salvador vive em um contínuo estado de vítima, conservando todas as Suas chagas no Seu corpo e mostrando-no-las sem cessar a fim de que não percamos a lembrança delas. Oh! Quem não corresponderia aos desejos de um Deus que nos conjura que não O esqueçamos, e que no-lo conjura por um testamento de tão elevado preço, com estas últimas palavras que toda a gente olha como sagradas:

“Lembrai-vos da minha morte no santo sacrifício!” – Hoc facite in meam commemorationem (Lc 22, 19)

Tudo o que vemos na Igreja nos prega igualmente a devoção à Paixão; a cruz está por cima do tabernáculo como no lugar mais distinto, e que mais fere a vista. Levam-a nas procissões; colocam-a no alto dos templos; representam-a nas vestes sagradas, desenham o seu augusto sinal em todas as cerimônias; destinam-lhe um dia de cada semana, a sexta-feira; festividades em certas épocas; um tempo particular cada ano, toda a quinzena antes da Páscoa; e o caminho da cruz atrai por toda a parte e em todas as épocas a devoção dos fiéis: tanto está na essência do cristianismo o culto de Jesus Crucificado. Por isso os santos, em quem se acha a plenitude do espírito cristão, tem feito da cruz o objeto mais habitual de sua piedade. São Paulo não se gloriava senão na cruz, não queria saber senão da cruz, vivia sempre encravado na cruz (5). Santo Agostinho diz-nos que ele nutria a sua alma na meditação da cruz. São Francisco de Assis não queria que os seus religiosos tivessem outro objeto de meditação senão a cruz, que ele havia colocado no lugar onde se reunia a sua comunidade. São Boaventura não vivia senão nas chagas do Salvador:

«É onde, dizia ele, eu velo, onde descanso, onde leio, onde converso, onde quero sempre estar»

Por isso, observa São Francisco de Sales, parece que, quando aquele grande doutor escrevia as celestiais efusões da sua alma, não tinha outro papel senão a cruz, outra pena senão a lança que havia traspassado o lado do seu Mestre, outra tinta senão o seu precioso sangue.

Oh! Quão afastados estamos destes sentimentos dos santos a respeito da Paixão do Salvador! Reanimemos a nossa fé; avivemos o nosso amor para com Jesus Crucificado.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Per viscera misericordiae… in quibus visitavit nos (Lc 1, 78)

(2) Charitas Christi urget nos, aestimantes hoc quoniam… pro omnibus mortuus est Christus, ut et qui vivunt, jam non sibi vivant, sed ei qui pro ipsis mortuus est (2 Cor 5, 14.15)

(3) Commendat autem charitatem suam Deus in nobis, quoniam, cum adhuc peccatores essemus… Christus pro nobis mortuus est (Rm 5, 8.9)

(4) Quotiescumque manducabitis pavem hunc et calicem bibetis, mortem Domini annuntiabitis (1 Cor 11, 26)

(5) Christo confixus sum crucis (Gl 2, 19)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo II, p. 50-54)