Meditação sobre a Ofertas dos Magos

SUMARIO

Meditaremos:

1.º Nas ofertas que os magos fazem ao Menino Jesus;

2.° Nas ofertas que devemos fazer-lhe também.

— Tomaremos depois a resolução:

1.º De oferecer com frequência, durante o dia, a nossa adoração e o nosso amor ao Deus do presépio, em união com os magos;

2.° De incitar, nas nossas orações, o fervor destes piedosos reis.

O nosso ramalhete espiritual será a antiga oração da Igreja de Paris:

Ao Menino Jesus o ouro da caridade, a mirra da mortificação, e o incenso da oração (1)

 

Meditação para o Dia

Transportemo-nos pelo pensamento ao presépio, na companhia dos magos, tão profundamente penetrados de respeito, tão cheios de amor, e unamo-nos a todos os seus piedosos sentimentos. Se não os imitarmos, temamos que o Menino Jesus se queixe do fundo do seu presépio (2).

PRIMEIRO PONTO

Ofertas que os Magos fazem ao Menino Jesus

Os magos, diz o Evangelho, tendo aberto os seus cofres, lhe fizeram as suas ofertas de ouro, de incenso e de mirra, dons misteriosos que, aos olhos da sua fé, tinham uma significação e uma expressão. O ouro significava o tributo de honra que Lhe pagavam como ao grande Rei do universo, Senhor de todas as riquezas do céu e da terra. O incenso exprimia o tributo de louvores e de orações que Lhe apresentavam como ao verdadeiro Deus vivo, para o qual toda a criatura deve fazer subir o incenso da sua oração. A mirra, que empregava no embalsamento dos mortos, era da sua parte uma profissão de fé para com a humanidade santa, que estava unida no presépio à divindade, e que devia um dia, como nosso pontífice e nossa vítima, sacrificar por nós na cruz (3). Seria impossível imaginar com que sentimentos de humildade e de devoção, de reconhecimento e de amor, os piedosos magos fizeram estas ofertas, quantas lágrimas de alegria e de ternura correram dos seus olhos, e que veementes desejos conceberam de fazer conhecer e amar em toda a parte um Deus tão amável. Por isso Jesus, não contente de lhes mostrar com vistas cheias de amor quanto Lhe agradam as suas ofertas, mostra-lh’o ainda com uma reciprocidade de ofertas. Em troca do ouro, concede-lhes o dom da sabedoria para compreenderem os mais augustos mistérios e os ensinarem aos outros; em troca do incenso, distribui-lhes o dom da piedade para amarem a Deus só e desprezarem tudo o mais; em troca da mirra, enriquece-os do espírito de mortificação e de sacrifício, que fez de todos eles outros tantos Apóstolos e mártires.

Ó meu Deus, quão bom é servir-Vos e entregarmo-nos inteiramente a vós! Vós restituis cem vezes dobrado o que Vos dão! Concedei-me, como aos reis magos, o espírito da sabedoria, de oração e de sacrifício; eu não tenho outra razão para ser atendido senão a minha profunda miséria; oxalá esta razão me baste perante a Vossa misericórdia!

SEGUNDO PONTO

Ofertas que devemos fazer ao Menino Jesus

Não é aqui nem o ouro, nem a mirra, nem o incenso, que Jesus nos pede, mas sim as disposições interiores figuradas por estas três ofertas. e que uma bela prosa da Igreja de Paris resume nestas palavras: O ouro figura a caridade, a mirra a mortificação, o incenso o santo desejo (4).

1.° A caridade que o ouro simboliza, e que tanto agrada ao Menino Jesus, é essa disposição interior com que se ama a Deus de toda a nossa alma, de todo o nosso coração e com todas as nossas forças; amamo-lO não só em Si mesmo, mas também no próximo; socorremo-lO nos pobres, aliviamo-lO nos desditosos; consolamo-lO nos aflitos, assistimos-Lhe em todos aqueles a quem podemos ser úteis, naqueles até de que teríamos a queixar-nos, e isto em atenção à Sua palavra:

“Quantas vezes fizerdes isto a um dos meus irmãos mais pequenos, a mim é que o fizestes” (Mt 25, 40)

2.° A mortificação, que a mirra figura, é essa virtude que mantém a alma na sua pureza, o corpo na sua integridade, até fazer dele uma hóstia viva, santa e agradável a Deus, como o exige o Apóstolo (5).

3.° Entende-se pelos santos desejos, que o incenso representa, a oração do homem humilde, apresentando-se diante de Deus como um pobre que nada tem, senão misérias a aliviar, como um pecador, que não tem a oferecer senão culpas a expiar, uma vontade a excitar, um coração a reanimar, uma memória a purificar, um entendimento a esclarecer; finalmente, entende-se por isto não somente a oração obrigatória ou usada de manhã e à tarde, mas também a oração mental e mais íntima, que se faz diante do tabernáculo ou crucifixo, a oração habitual que se manifesta em piedosas aspirações ou orações jaculatórias, e se pode entremeter em todos os atos da vida, em todos os lugares e tempos.

Somos nós exatos em fazer estas três ofertas ao Menino Jesus?

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Offert aurum charitas, et myrrham austeritas, et thus desiderium (Prosa de Paris)

(2) Non times ut de praesepi vagiat infatis? (Hier., Ep. ad Sabin, diae)

(3) Auro rex agnoscitur, homo myrrha colitur, thure Deus gentium (Prosa de Paris)

(4) Offert aurum charitas, et myrrham austeritas, et thus desiderium (Prosa de Paris)

(5) Exhibeatis corpora vestra hostiam viventem, sanctam, Deo placentem (Rm 12, 1)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo I, p. 168-171)