Meditação para o Vigésimo Terceiro Sábado depois de Pentecostes. O que se deve fazer para Conservar a Castidade

Meditação para o Vigésimo Terceiro Sábado depois de Pentecostes

SUMARIO

Depois de termos visto o que devemos evitar para adquirir ou conservar a castidade, meditaremos sobre o que nos convém fazer; e veremos que nos convém:

1.° Ser Humildes;

2.° Frequentar os Sacramentos;

3.º Orar.

— Tomaremos a resolução:

1.° De não nos fiarmos em nós mesmos e de não nos expormos a perigo;

2.° De recorrermos muitas vezes aos Sacramentos da Penitência e da Eucaristia;

3.° De sermos assíduos à oração de cada manhã, e de termos uma grande devoção à Santíssima Virgem.

O nosso ramalhete espiritual será o conselho de Nosso Senhor:

“Vigiai e orai para que não entreis em tentação” – Vigilate et orate ut non intretis in tentationem (Mt 26, 20)

Meditação para o Dia

Adoremos Nosso Senhor declarando-nos no Evangelho que há uma casta de demônios que não se expulsam senão com a mortificação e oração (1). Esta casta de demônios são principalmente os demônios da impureza. Agradeçamos a Jesus Cristo este conselho, e imploremos-Lhe a graça de nos conformar com Ele.

PRIMEIRO PONTO

Para ser Castos, convém ser Humilde

“A soberba, diz o Espírito Santo, precede a ruína. O espírito eleva-se antes da queda; e o coração do homem eleva-se antes de ser quebrantado” – Contritionem praecedit superbia, et ante ruinam exaltatur spiritus (Pr 16, 18). Antequam conteratur, exaltur cer hominus (Pr 18, 12)

É porque o soberbo não desconfia da sua fraqueza, não vigia sobre si e sobre os seus perigos. Para o confundir, Deus entrega-o às paixões de ignomínia (2); retira-lhe a sua graça, e abandona-o à sua própria fraqueza, seja por aversão à soberba, seja para que ele conheça que nada pode sem o auxílio do céu: o que levou Santo Agostinho a dizer que é útil aos soberbos cair (3), para que a experiência os traga ao conhecimento de si mesmos. Mas se a soberba nos arruína, a humildade salva-nos (4); por um lado, a humildade faz-nos vigiar sobre nós mesmos, evitar as ocasiões perigosas, e orar; por outro lado, Deus, que ama os humildes, protege-os, defende-os, e torna-os impecáveis. Tão segura guarda da castidade é a humildade! É como que sua irmã e companheira inseparável.

SEGUNDO PONTO

Para ser Castos, convém frequentar os Sacramentos

Nada há mais próprio do que a confissão frequente para evitar ou corrigir a recaída na impureza. Um pecado, não sendo confessado de pronto arrasta outro. A alma tentada necessita, de ser amparada na luta pelos conselhos do confessor e pela graça do Sacramento; do contrário, esmorece, deixa se abater, e é em breve vencida. A confissão frequente oferece-lhe uma preservação para com a recaída, seja na salutar vergonha da sua conduta, seja nas exortações do confessor, que reanimam e mostram os meios que devem empregar-se, seja no firme propósito que se forma, seja na vigilância que desperta seja perincipalmente, na graça do Sacramento. São fatos estes, que a experiência confirma.

— A comunhão não é menos útil: porque a Eucaristia, dizem os santos, é o pão dos escolhidos; e o vinho que gera virgens (Zc 9, 17); extingue o fogo da concupiscência; dá à alma um delicioso gosto da pureza; aumenta-lhe o amor para com Nosso Senhor, e por conseguinte o horror ao que O ofende, principalmente ao vício mais oposto à sua infinita santidade: de sorte que, quanto mais nos alimentamos do pão dos anjos, tanto mais nos sentimos impelidos a ter uma vida angélica, uma vida santa e pura.

TERCEIRO PONTO

Para ser Castos, convém Orar

“Reconheci, diz o Sábio, que se não pode ser casto sem o auxilio da graça; e esta graça é a oração que a obtém” – Ut scivi quonium aliter non possum esse continens nisi Deus det,… adii Dominum, et deprecatus sum (Sb 8, 21)

É principalmente a oração ou a meditação que, ao passo que atrai à alma o socorro do céu, enche o espírito de tão bons pensamentos, o coração de tão santos afetos, que o tentador não pode seduzi-lo.

“Com a oração, a castidade está segura; sem a oração, está em perigo” – Pudicitiae praesidium atque tutamen est oratio (São Gregório de Nissa, Orat. 1)

Deus ouve com gosto as almas que Lhe pedem o dom da continência, porque é pedir-Lhe o que mais Lhe agrada.

— A Santíssima Virgem não ouve com menos agrado a oração que lhe dirigem a este respeito. Toma um especial cuidado das almas que põem a sua castidade sob a sua proteção; afeiçoa-se-lhes, seja porque têm os mesmos gostos que ela, seja porque, como seu Filho, ama de um modo especial a castidade, deseja ver esta virtude em todos os cristãos. Por isso os santos nos indicam a devoção a Maria como um dos maiores meios de adquirir e conservar a castidade. Eis aqui porque a Igreja nos põe nós lábios esta bela oração:

“Virgem incomparável, a mais benigna de todas as criaturas, livrai-nos de todo o pecado, e tornai-nos humildes e castos. Fazei-nos ter uma vida tão pura que nos conduza ao céu, onde louvemos e amemos o vosso divino Filho” – Virgo singularis, inter omnes mitis, nos culpis solutos, mites fac et castos. Vitam praesta puram, iter para tutum, ut videntes Jesum, semper colaetemur.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Hoc genus (daemoniorum) non ejicitur nisi per orationem et jejunium (Mt 17, 20)

(2) Tradidit illos Deus in passiones ignominiae (Rm 1, 26)

(3) Superbis expedit cadere (Santo Agostinho, Sermões 56 in Mat.)

(4) Per humilitatis custodiam servanda est munditia castitatis (São Gregório Magno, in Job, 36, 19)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo V, p. 177-180)