Meditação para a Quarta-feira da Primeira Semana da Quaresma. O Exame de Consciência

Meditação para a Quarta-feira da Primeira Semana da Quaresma

SUMARIO

Como a primeira condição para bem nos confessarmos é examinar a nossa consciência, destinaremos as seguintes meditações a este exame. Consideraremos:

1.° A importância do exame quotidiano da nossa consciência;

2.° A importância do exame preparatório para a confissão.

— Tomaremos depois a resolução:

1.º De fazermos com exatidão, todas as tardes, o nosso exame de consciência;

2.° De empregarmos um particular cuidado em examinarmo-nos bem antes da confissão.

Conservaremos como ramalhete espiritual a palavra do Salmista:

“Examinei miudamente todos os meus passos, e toda a minha fadiga encaminhei a guardar a vossa santa lei” – Cogitavi vias meas, et converti pedes meos in testimonia tua (Sl 118, 59)

Meditação para o Dia

Adoremos Nosso Senhor, que para nos mostrar a importância do exame de consciência, nos adverte, pelos Seus santos, que fazê-lo bem é o distintivo dos escolhidos; que omiti-lo é o caráter dos réprobos (1). Demos-Lhe graças por tão útil advertência, e tributemos-Lhe com este intuito todos os nossos respeitos.

PRIMEIRO PONTO

Importância do Exame quotidiano da nossa Consciência

Todos os santos e todos os mestres da vida espiritual são unânimes em apresentar o exame quotidiano da consciência como o meio mais eficaz de corrigir os defeitos e progredir nas virtudes (1). Os mesmos filósofos pagãos ordenavam aos seus discípulos que se examinassem cada dia sobre estes três pontos:

Que fiz eu? Como o fiz? Que deixei de fazer?

É porque efetivamente sem este exame bem feito cada dia não nos conhecemos a nós mesmos. Há em nós vícios tão encobertos, desmanchos tão ocultos, desordens tão sutis, que não os descobrimos senão à força de sérias reflexões. Acontece com a alma, que não se examina, ou que se examina mal, o mesmo que com uma vinha que, por falta de cultura, se cobre de abrolhos e espinhos; ou o mesmo que com o negociante que, por não verificar cada dia as suas contas, deixa piorar o estado da sua fortuna sem disso ter ideia.

Por falta de exame, os vícios crescem na alma, e as virtudes somem-se; sem que o advirtamos, o estado da consciência vai sempre piorando; e é tal a ignorância em que se está de si próprio, que nem sequer disso se suspeita. A alma embota-se, perde a sua força, não se guarda já das tentações e ocasiões perigosas, e neste estado, está próxima da sua perdição.

Ao contrário, com o exame quotidiano, conhecemos as nossas culpas e reparamo-las; dizemos conosco esta tarde:

«Cometi certa falta hoje, dela me emendarei amanhã; observo no meu coração certa má inclinação, vou combatê-la»

Cada dia dizemos conosco:

«Terei esta tarde de verificar o emprego do meu tempo, a minha fidelidade à graça»

E este pensamento desperta a vigilância, excita a atenção, e impede que os maus hábitos se formem. Demais, o conhecimento que o exame quotidiano nos dá das nossas próprias misérias, conserva a humildade, afasta a presunção, dispõe-nos a confessarmo-nos bem. Finalmente, o exame quotidiano, quando é acompanhado da contrição perfeita, como deve sempre ser, livra a alma do perigo de uma morte súbita, imprevista, pois que a contrição supre o sacramento quando não é possível recebê-lo.

Examinemos se ligamos a este exercício toda a importância que merece, se o fazemos cada dia a uma hora prefixa.

SEGUNDO PONTO

Importância do Exame de Consciência antes da Confissão

Entende-se aqui uma confissão santa ou uma confissão sacrílega.

Se, por uma notável falta de exame, se omite a acusação de um só pecado mortal, a confissão é nula e a absolvição sacrílega: que coisa mais grave?

Ao contrário, se cada vez que nos confessamos, fazemos o exame como deve ser, a confissão purifica a alma quanto ao passado, e fortifica-a para o futuro: que coisa mais consoladora?

Todavia, quantas vezes nos acontece fazer este exame de leve, contentarmo-nos com um rápido golpe de vista lançado como que de passagem sobre o tempo decorrido depois da última confissão?

Pensemos nisto seriamente. O caso é dos mais graves: vai nisto a nossa vida eterna.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Electorum est actus suos ab ipso cogitationis fonte discutere; reproborum autem prava quae faciunt caeca menie pertransire (S. Greg., Mor., 2, 6)

(2) Cum leris dormitum, a judicio conscientiae tuae rationem exige. Hoc fac singulis diebus (São João Crisóstomo, in Ps., 4)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo II, p. 100-102)