Meditação para a Décima Sexta Sexta-feira depois de Pentecostes. Mortificação do Próprio Espírito

Meditação para a Décima Sexta Sexta-feira depois de Pentecostes

SUMARIO

Meditaremos sobre a mortificação do próprio espírito, e consideraremos os seus três principais desvarios, que são:

1.° Os pensamentos inúteis;

2.° Os pensamentos estranhos;

3.° Os arrojos do próprio juízo.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De nos aplicarmos unicamente à obra que temos a fazer a cada momento, e a fazê-la com o fim de agradar a Deus;

2.° De expulsarmos os pensamentos inúteis ou estranhos, logo que os advirtamos;

3.° De desconfiarmos do nosso próprio juízo.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra da Imitação:

“Fazei o que fazeis” – Age quod agis

Meditação para o Dia

Adoremos o Espírito Santo habitando em nós para ser a norma das nossas obras, palavras e pensamentos (1). Tributemos toda a sorte de respeitos a este divino Espírito, que assim se digna guiar-nos, e roguemos-Lhe, que permita, que sigamos sempre a sua luz em vez das aberrações da nossa própria razão (2).

PRIMEIRO PONTO

Devemos guardar-nos dos Pensamentos Inúteis

1.º Eles causam a nossa desgraça: um mal que sentimos, uma afronta que recebemos, uma perda que experimentamos, nos teria dolorosamente impressionado uma vez; o pensamento deste mal, desta afronta, desta perda nos afligirá talvez cem vezes, e isto sem nenhum resultado útil;

2.° Os pensamentos inúteis são um dos maiores obstáculos à nossa santificação. Um dos sinais mais positivos da tibieza, diz São Boaventura, é não sentir o mal que fazem à alma os pensamentos inúteis. Cedemos ora ao desejo de saber tudo o que se passa; ora a devaneios, que conservam a alma em uma distração contínua, a enchem de mil pensamentos loucos, a ocupam de cem fatos e projetos quiméricos, ora finalmente a uma atividade excessiva, que se inquieta, se impacienta, se irrita, sem que nada se adiante. É um pequeno mundo, cujo bulício nos diverte e distrai, em que os pensamentos se sucedem atropeladamente, se embaraçam e nos perturbam, nos tomam inábeis para a oração, para a meditação, para as reflexões sobre nós mesmos, para as inspirações do Espírito Santo, para a prática das virtudes, que quer um espírito sossegado, um espírito atento e refletido. Assim os dias passam-se em distrações, sem refletir em Deus nem em nós mesmo; e muitas vezes o demônio aproveita-se disto para nos insinuar na alma, sob a aparência de pensamentos inúteis, mil pensamentos perigosos, em que a castidade, a caridade, todas as virtudes correm os maiores riscos.

Sem dúvida não depende de nós deixar de ter pensamentos inúteis, pois somos uma folha que o vento leva; mas o que depende de nós, é:

1.° Diminuir o mal, sendo menos leviano na conduta, menos curioso de saber o que nos não é preciso conhecer, fazendo menos leituras inúteis, sendo mais solícitos em vigiar os nossos sentidos e em restringir tantas conversações distrativas;

2.° Deter os pensamentos inúteis, logo que os advertirmos, dirigindo-os para Deus com algumas elevações de coração, algumas orações jaculatórias;

3.º Ter no dia certos momentos prefixos para entrarmos dentro em nós, e meditarmos, à imitação do Pai de família, que deixa de tempos a tempos os seus negócios, para cuidar dos negócios domésticos, e examinar se cada um cumpre o seu dever; depois do que vai continuar as suas ocupações.

SEGUNDO PONTO

Devemos guardar-nos dos Pensamentos Estranhos

Um outro abuso do nosso espírito, é não nos entregarmos inteiramente à ação presente, e preocuparmo-nos, ora das que a precederam, ora das que se lhe seguirão. Esquecemos o axioma do Sábio:

“Cada coisa tem seu tempo” – Omni negotio tempus est et opportunitas (Ecl 8, 6)

Esquecemos principalmente o exemplo de Jesus Cristo, que dizia, quando O incitavam a orar:

“Ainda não é chegada a minha hora” – Nondum venit hora mea (Jo 2, 4)

Não a antecipava, não a retardava, deixava-a chegar em paz. Estar todo entregue à obra presente, como se nada tivesse feito antes, como se nada tivesse a fazer depois, é grande sabedoria (3). Alcança-se com uma firme vontade de combater a preocupação, logo que a advertimos; mas ainda mais com uma intenção pura, livre de todo o apego e intuito humano.

“Quereis, diz o autor da Imitação, dominar-vos em paz entre as ocupações mais multíplices e mais sérias? Não olheis em todas as coisas senão à santíssima vontade de Deus, que é a própria ordem e sabedoria; e não tenhais apego a nenhuma das vossas ocupações. Estai sempre acima delas, nunca abaixo, sempre firme entre as coisas eternas e as coisas presentes, tendo estas debaixo de vossos pés, e os vossos olhos fixos naquelas” – Sis intimus, liber et tui ipsius potens, et sint omnia sub te, et tu non sub eis… in libertatem transiens filiorum Dei: qui stant super praesentia, et speculantur aeterna; qui transitoria sinistro intuentur oculo, et dextro caelestia (III Imitação 38, 1)

TERCEIRO PONTO

Devemos Guardar-nos dos Arrojos do Próprio Juízo

O próprio juízo é presunçoso: cuida que pode examinar tudo, julgar tudo, e faz uma e outra coisa com incrível leviandade. Imagina que não precisa de conselho; não o pede, e rejeita os que lhe dão, ou se os aceita, só é depois de discutir, dizendo sempre com São Tomé:

“Não ei de crer senão depois de ver” – Nisi videro… non credam (Jo 20, 25)

Considerando as suas imaginações como infalíveis argumentos e todos os seus pensamentos como oráculos, tem tal apego aos seus sentimentos, que nunca quer ceder; contesta, disputa incessantemente, até que se submetam ao que ele diz. Finalmente, argumenta, decide, sentencia a respeito de todas as coisas, como se fossem da sua competência. Ora quem não vê o abuso de um tal desvario, a soberba que é o seu princípio, e os abismos eternos que são a sua consequência?

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Nescitis quia Spiritus Dei habitat in vobis? (1Cor 3, 16)

(2) Si spiritu vivimus, spiritu et ambulemus (Gl 5, 25)

(3) Age quod agis

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo VI, p. 211-214)