Meditação para a Vigésima Terceira Segunda-feira depois de Pentecostes. Modéstia Cristã

Meditação para a Vigésima Terceira Segunda-feira depois de Pentecostes

SUMARIO

Depois de termos largo tempo meditado sobre os nossos deveres para com Deus e o próximo, meditaremos sobre os nossos deveres para conosco. Começaremos pela modéstia cristã, e veremos que exige que sejamos modestos:

1.° O respeito da presença de Deus;

2.° A edificação do próximo;

3.° O interesse de nossa salvação.

— Tomaremos a resolução:

1.º De apreciarmos a modéstia como uma virtude de alta importância;

2.° De conservarmos esta virtude não só em público e à vista dos homens, mas ainda em particular e quando não tivermos outras testemunhas senão Deus.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra do Apóstolo:

“A vossa modéstia seja conhecida de todos os homens : o Senhor está perto” – Modestia vestra nota sit omnibus hominibus: Dominus prope est (Fl 4, 5)

Meditação para o Dia

Admiremos a modéstia de Nosso Senhor conversando na terra. Esta virtude tinha nEle encantos que extasiavam os anjos e os homens, e que o faziam reconhecer, até no meio das suas humilhações, como o Deus de suprema majestade (1). Adoremo-lO, louvemo-lO, e amemo-lO neste estado.

PRIMEIRO PONTO

O respeito da presença de Deus exige que sejamos modestos

A modéstia não consiste em uma simples compostura do rosto, dos gestos, das maneiras; isso não seria mais que uma virtude farisaica, que, com um belo exterior, poderia encobrir um interior diferente. Toda a verdadeira virtude tem a sua origem no coração, e as aparências não devem ser senão o reflexo da piedade interior. Segundo este princípio, a modéstia bem entendida é o respeito da presença de Deus, inspirando ao homem um grave decoro, tal qual convém, diante de tão augusta majestade. Deus vê-me, diz consigo o homem que tem fé; vê-me de noite e de dia, só ou em -companhia, fora de casa ou em casa (2). Em todos os tempos os meus caminhos estão patentes aos seus olhos (3); em todos os lugares me vê, quer obre bem, quer obre mal (4). Por conseguinte, devo sempre e em toda a parte conservar essa perfeita modéstia, essa irrepreensível decência, que convém ter em tão augusta companhia (5). Se a vista deste grande Deus faz tremer a terra, abala as colunas do céu, enche os anjos de um santo temor, como ousarei eu diante dEle entregar-me a leviandades, a modos ridículos, a risadas indignas? Deus vê-me! Testemunha das minhas ações, será o seu severo juiz, e me obrigará a dar conta das minhas palavras pouco comedidas, das minhas vistas licenciosas, e dos meus modos imodestos (6). Deus vê-me! Este pensamento conservava tão modesto o santo bispo de Gênova, que quem o observava até nesses momentos, em que o homem, julgando-se só, tem certas posturas mais livres e cômodas, o acharia sempre cumprindo pontualmente as regras da mais austera decência, tanto em particular como em público. O Senhor via-o, e ele reputava tão augusta presença mais digna de respeito do que a de todos os homens juntos.

SEGUNDO PONTO

A edificação do próximo, exige que sejamos modestos

Cada um, diz a Sagrada Escritura, recebeu de Deus a missão de trabalhar na salvação do seu próximo (7); ora é só edificando-o com a modéstia, que cada qual pode cumprir esta missão divina. Nem todos podem pregar, mas todos podem sempre edificar.

Um rosto modesto e meditativo faz entrar no dever a alma distraída, reprime até suas divagações, exproba-lhe as suas leviandades, obriga-a a cuidar da sua salvação, a arrepender-se de suas culpas, e a ter santos desejos do céu: como o prova um São Luciano, cujo só olhar convertia os pagãos, um São Bernardino, cuja só presença inspirava o recolhimento de Espírito a todos os seus companheiros, um São Francisco de Assis, que não precisava mais do que andar pelas ruas para atrair os homens a Deus, arrancar os pecadores das suas desordens:

“Ser modesto, é pregar a virtude”, dizia ele

Santo Ambrósio havia dito antes dele: O aspecto do justo é um remédio para as enfermidades da alma (8); e quão belo é não pensar, uma pessoa senão de ser vista para fazer bem! (9)

É assim que trabalhamos na salvação de nossos irmãos? Temos nós o cuidado de compor tão bem o nosso exterior, que todos os que nos vêem fiquem edificados?

TERCEIRO PONTO

O interesse da nossa própria salvação exige que sejamos modestos

Há entre o exterior e o interior relações tão íntimas que, segundo o testemunho do Sábio, um dá a conhecer o outro (10). O vestido do corpo, o riso, e o andar do homem mostram o que ele é (11). Vede o ímpio, nos diz o Espírito Santo, reconhecereis o seu interior pelo seu só exterior, como os que se observam na água, ali vêem distintamente o seu rosto; é vaidoso, é turbulento, caminha com boca perversa, faz sinais com os olhos, bate com o pé, fala com os dedos (12). Imodéstia exterior que expõe a alma ao maior perigo (13); porque esta pobre alma é como uma cidade sitiada, aberta do todas as partes aos assaltos do inimigo, sem muros, sem portas e sem defesa. Os sentidos, diz o Espírito Santo, são as portas por onde o mal entra no coração. Se a modéstia conserva essas portas fechadas, o coração está seguro; se ficam abertas, a derrota é certa, segundo a palavra do profeta:

“O meu olho entregou a minha alma aos meus inimigos” – Oculus meus depraedatus est animam meam (Lm 3, 51)

E isto é mais verdade hoje do que nunca, hoje que tantos objetos perigosos se oferecem aos nossos olhos, que o adorno e os modos de tantas pessoas parece que conspiram para seduzir e perder as almas.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Apparuit inter homines modestus Dominus magestatis (São Bernardo)

(2) Vivit Dominus Deus Israel in cujus conspectu sto (1Rs 17, 1)

(3) Omnes viae hominis patent oculis ejus (Pr 11, 2)

(4) In omni loco oculi Domini comtenplantur bonos et malos (Pr 15, 3)

(5) Modestia vestro nota sit omnibus hominibus: Dominus prope est

(6) Dominus prope est

(7) Mandavit… uniquique de proximo suo (Ecl 17, 12)

(8) Justi sanat adspectus

(9) Pulchrum est ut videaris et praesis

(10) Ex visucognoscitur vir, et ab occursu faciei cognoscitur sensatus (Ecl 19, 26)

(11) Amictus corporis, et risus dentium, et ingressus hominis enuntiant de ilio (Ecl 19, 27)

(12) Vir inutilis graditur ore perverso, annuit oculis, terit pede, digito loquitur (Pr 6, 12)

(13) Sicut urbs patens et absque murorum ambitu (Pr 25, 28)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo V, p. 161-165)