Meditação para o Sábado da Pascoela. Meios de ter a Paz: a Conformidade com a Vontade de Deus

Meditação para o Sábado da Pascoela

SUMARIO

Meditaremos sobre outro meio de alcançar a paz interior, que é a perfeita conformidade da nossa vontade com a de Deus; e para o compreender, veremos:

1.° Que nenhuma paz é possível com o apego à vontade própria;

2.° Que a perfeita conformidade com a vontade de Deus dá uma deliciosa paz.

– Tomaremos depois a resolução:

1.° De não desejarmos nem outros talentos, nem outra condição, nem outra fortuna senão a que Deus nos deu;

2.° De seguirmos com amor em todas as circunstâncias da vida a vontade de Deus, como os magos que seguiam a estrela que os conduzia a Belém.

Como ramalhete espiritual repetiremos muitas vezes a Deus:

“Pai, seja feita a vossa vontade” – Pater, fiat voluntas tua

Meditação para o Dia

Voltaremos ao Cenáculo e ouçamos Nosso Senhor repetir-nos esta sublime palavra, que faz tanto bem à alma:

“Paz seja convosco” – Pax Vobis

Imploremos-Lhe a graça de obtermos a paz interior à custa da nossa própria vontade, substituindo-a pela Santíssima e amabilíssima vontade de Deus.

PRIMEIRO PONTO

Com o apego à vontade própria não há Paz Interior

Todo aquele que tem apego à sua vontade expõe-se à perturbação e à desgraça. Umas vezes essa vontade encontra uma vontade oposta; e essa contrariedade ou a vence ou a incomoda e irrita; outras vezes opõe-se a si mesma, querendo uma coisa agora e o contrário ao depois. Outras vezes porfia no que não pode conseguir, ou se chega a consegui-lo enfastia-se logo. Arrastada assim em todos os sentidos e dilacerada por mil desejos, que renascem incessantemente, está sempre descontente de si própria ou dos outros; nunca seguimos a nossa vontade sem nos entristecermos. Indignamo-nos se outros a contrariam; afligimo-nos, se somos forçados a renunciar à nossa; ou se a satisfazemos, exprobamo-nos de ter cedido antes à paixão do que à razão, e o resultado é o descontentamento próprio, que é o grande inimigo da paz interior.

“Ó alma cristã, diz o autor da Imitação, porque te tornas desgraçada? Se a tua vontade busca satisfazer-se cá na terra, nunca estarás em paz, sem perturbação e sem inquietação, porque em toda a parte se encontra a contrariedade, em toda a parte falta alguma coisa à felicidade” – Quare vano maerore consumeris? Sta ad beneplacitum meum, et nullum patieris derimentum. Si quaeris hoc vei illud, et volueris esse ibi vel ibi, propter tuum commodum et proprium beneplacitum magis habendum, munquam eris in quietudine nec liber a sollicitudine, quia in omni re reperietur aliquis defectus, et in omni loco erit qui adversetur (III Imitação 27, 3)

SEGUNDO PONTO

A perfeita conformidade com a vontade de Deus dá à alma uma deliciosa Paz

Nada neste mundo pode perturbar a paz daquele que só quer a vontade de Deus. Em tudo o que sucede da parte dos homens ou dos acontecimentos, respeita a vontade divina, que dirige todas as coisas; e vendo isto, conserva uma inalterável serenidade, que as paixões ou os desejos não poderiam perturbar. Senhor, dizia Davi, tomastes-me pela minha mão direita, e me conduzistes segundo a vossa vontade (1). Que deliciosa paz se goza, sendo-se conduzido por uma mão tão amável, principalmente quando não envolvemos nisso a vontade própria senão para unir à de Deus, como o santo rei, que exclama:

“Que tenho eu no céu? E fora de vós, que desejei eu na terra?” – Quid mihi est in caelo, et a te quid volui super terram? (Sl 72, 25)

Neste ditoso estado, por mais que vejamos tudo mudar e subverter-se em torno de nós, estamos em paz, porque, de um lado, sabemos que nada acontece senão por ordem ou permissão de Deus, e de outro, queremos, de toda a nossa vontade, tudo o que ordena ou permite a sua Providência; nada mais, nada menos, nada de outro modo. Podemos até dizer com verdade que nunca somos contrariados, que temos quanto desejamos, que não padecemos senão o que queremos padecer, porque só desejamos a queremos a vontade de Deus, que governa e dispõe todas as coisas. Então a alma engrandece-se e eleva-se acima das tormentas e agitações do mundo, a uma região mais alta, região de paz e de serenidade, de onde dominamos todas as tempestades deste mundo, que não ouvimos já bramir senão debaixo dos nossos pés; região de inefável sossego, em que a alma descansa, deliciosamente entregue ao amor da divina vontade (2). Então dirija a língua ou a malícia dos homens contra nós os seus golpes, e fira-nos, nós recebemos esses golpes, não como partindo da mão inimiga que os vibrou, mas como provindo da paternal vontade de Deus, que faz feridas úteis, e sabe curá-las, quando lhe apraz. Então sobrevenha-nos a prosperidade, recebemo-la não com esse transporte de alegria que perturba, a paz interior, mas com uma espécie de modesto temor, porque avaliamos os seus perigos. Sobrevenha-nos à adversidade, acolhemo-la, senão com alegria como os primeiros cristãos (3), o que seria muito melhor, ao menos com resignação e confiança na Providência como Jó (4), e tanto em um como em outro caso dizemos a Deus:

“O meu coração está preparado, Senhor, para receber da vossa mão as coisas adversas como as prósperas” – Paratum cor meum, Deus, paratum cor meum (Sl 108, 2). Paratum ad adversa, paratum ad prospera (Santo Agostinho)

Então finalmente, seja o que for o que acontecer, a alma conserva a sua simplicidade e paz, porque se considera sempre sob o olho de Deus, que vê tudo; sob o Seu poder que pode tudo; sob a Sua ação, que coopera para tudo, ou antes nos braços de Seu amor, que quer tudo o que nos é útil.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Tenuisti manum dexteram meam, et in voluntate tua deduxiste me (Sl 72, 24)

(2) Quid simplici oculo quietius? Et quid liberius nil desiderante in terris? (III Imitação 31, 1)

(3) Rapinam bonorum vestrorum cum gaudio suscepistis (Hb 10, 34)

(4) Dominus dedit, Dominus abstulit: sicut Domino placuit, ita fastum est: nit nomen Domini benedictum (Jó 1, 21)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo II, p. 279-282)