Meditação para a Quarta-feira da 5ª Semana depois da Epifania. Jesus Perdido e Achado no Templo

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas 2, 40-52

Entretanto, o menino crescia e robustecia-se, enchendo-se de sabedoria, e a graça de Deus estava com Ele.

Jesus entre os doutores – Os pais de Jesus iam todos os anos a Jerusalém, pela festa da Páscoa. Quando Ele chegou aos doze anos, subiram até lá, segundo o costume da festa. Terminados esses dias, regressaram a casa e o menino ficou em Jerusalém, sem que os pais o soubessem. Pensando que Ele se encontrava na caravana, fizeram um dia de viagem e começaram a procurá-lo entre os parentes e conhecidos. Não o tendo encontrado, voltaram a Jerusalém, à sua procura.

Três dias depois, encontraram-no no templo, sentado entre os doutores, a ouvi-los e a fazer-lhes perguntas. Todos quantos o ouviam, estavam estupefactos com a sua inteligência e as suas respostas.

Ao vê-lo, ficaram assombrados e sua mãe disse-lhe: «Filho, porque nos fizeste isto? Olha que teu pai e eu andávamos aflitos à tua procura!» Ele respondeu-lhes: «Porque me procuráveis? Não sabíeis que devia estar em casa de meu Pai?»

Mas eles não compreenderam as palavras que lhes disse.

Depois desceu com eles, voltou para Nazaré e era-lhes submisso. Sua mãe guardava todas estas coisas no seu coração. E Jesus crescia em sabedoria, em estatura e em graça, diante de Deus e dos homens.

Meditação para a Quarta-feira da 5ª Semana depois da Epifania

SUMARIO

Meditaremos:

1.° O mistério do Menino Jesus perdido em Jerusalém;

2.° A solicitude com que Maria e José O buscavam;

3.° A felicidade com que O acharam.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De servirmos a Deus nas consumições e nos desamparos, como na consolação;

2.° De voltarmos para Jesus Cristo, logo que conhecermos que a distração nos separou dEle, e de O conservarmos pelo recolhimento de espírito e pela oração, quando O tivermos achado.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra da Imitação:

“Se em tudo buscardes a Jesus, achá-lO-ei certamente” – Si quaeris in omnibus Jesum, invenies utique Jesum (II Imitação 8, 3)

Meditação para o Dia

Adoremos o Menino Jesus separando-Se por três dias de Maria e de José. Respeitemos as secretas razões desta separação; roguemos-Lhe que faça com que as compreendamos e sirvam para o nosso ensino.

PRIMEIRO PONTO

Mistério de Jesus perdido em Jerusalém

Logo depois da festa da Páscoa, Maria e José voltaram para Nazaré, levando consigo o Menino Jesus; mas por uma amável condescendência, deixando-O com os da comitiva para que gozassem da Sua companhia e conversação. Foi, pois, facílimo a Jesus separar-Se deles e voltar a Jerusalém, sem que o soubessem. De tarde, chegados que foram ao lugar, onde haviam de passar a noite, buscam-O; perguntam por Ele a todos, e não podem achá-lO.

Ó Jesus, porque Vos escondeis assim de Vossos prezados Pais? — Ouçamos a sua resposta no fundo do nosso coração.

— Jesus nos dirá, que é para nos ensinar que muitos O perdem, ou perdem o sentimento de Sua presença, ora cometendo o pecado mortal ou venial, relaxando-se ou entibiando-se, não cumprindo os seus exercícios espirituais, ora descuidando-se de fazer bem cada coisa ou de se conservar recolhidos dentro em si, não vigiando sobre os seus pensamentos, as suas palavras e as suas vistas; mas também o exemplo desses santos, pois, nos dirá, que se pode perdê-lO sem nenhuma culpa pessoal.

É verdade, que muitas vezes Deus envia ou permite as consumições, os desamparos e os desgostos que O ocultam à alma, seja para nos conservar na humildade, nos obrigar a adquirir mais méritos, consolidar a nossa virtude, acostumar-nos à paciência, à resignação, à conformidade com a vontade divina; seja para nos incitar a buscá-lO com mais fervor, a conservá-lO com mais cuidado, a gozá-lO com mais delícias. Porque o que se tem buscado mais e o que custou mais a achar, estima-se mais, conserva-se com mais cuidado, depois que se achou, e tem-se mais prazer em o possuir.

Examinemos se não temos perdido muitas vezes Jesus por nossa culpa, e tendo-O perdido sem nossa culpa, se aceitamos estas provas, sem nos desanimarmos.

SEGUNDO PONTO

Solicitude com que Maria e José buscam a Jesus

Maria e José, tendo-se certificado da ausência de Jesus, dirigiram-se de novo a Jerusalém, logo que nasceu a aurora, informando-se, pelo caminho, se haviam visto o menino que eles buscavam. Logo que chegaram a Jerusalém, vão perguntar por Ele aos seus parentes e conhecidos; e não O acham. Todo o dia se passa assim em buscas inúteis. Ah! Não é no mundo que a alma acha Jesus, depois de O perder.

Ao terceiro dia, eles vão procurá-lO no templo. É ali realmente que Ele está. Acham-O sentado no meio dos doutores (1). Que diferença entre o procedimento de Maria e o nosso! Maria está consternada com a perda de Jesus; e nós pouco caso fazemos dela, não pensamos sequer nela. Maria não descansa sem que O ache; e nós não O buscamos, depois de O termos perdido. Seria necessário então cumprir mais fielmente todos os nossos deveres, orar mais e chamar Jesus a nós com todos os suspiros do nosso coração; e longe de O buscar assim, afastamo-lO ainda mais, entibiando-nos, deixando os nossos exercícios espirituais. Oramos menos ou oramos mal, com menos ânimo, menos confiança, menos desejos de sermos atendidos. Não é este o nosso caso?

TERCEIRO PONTO

Felicidade de Maria e José achando Jesus

Ter achado Jesus era para Maria e José ter achado o mais precioso de todos os tesouros, a felicidade e a vida; porque Jesus era tudo para eles. Depois que O perderam, olham o mundo como um horrível deserto (2). Mas logo que acham Jesus, voltou a felicidade, e uma felicidade completa: nada mais a desejar. É o paraíso na terra (3).

É assim que apreciamos a felicidade de possuir Jesus? Jesus é tudo para nós; estimamos pouco tudo sem Jesus? Prezamos só Jesus, ainda quando tudo o mais nos falte?

Consultemos o nosso coração, e não nos iludamos.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Sedentem in medio doctorum (Lc 2, 46)

(2) Esse sine Jesu gravis est infernus (II Imitação 8, 2)

(3) Ecce cum Jesu dulcis est paradisus (II Imitação 8, 2)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo I, p. 280-283)