Meditação para o 4º Domingo depois da Epifania. Jesus acalma a Tempestade

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus 8, 23-27

Depois subiu para o barco e os discípulos seguiram-no. Levantou-se, então, no mar, uma tempestade tão violenta, que as ondas cobriam o barco; entretanto, Jesus dormia. Aproximando-se dele, os discípulos despertaram-no, dizendo-lhe:

«Senhor, salva-nos, que perecemos!»

Disse-lhes Ele:

«Porque temeis, homens de pouca fé?»

Então, levantando-se, falou imperiosamente aos ventos e ao mar, e sobreveio uma grande calma.

Os homens, admirados, diziam:

«Quem é este, a quem até o vento e o mar obedecem?»

Meditação para o Domingo da 4ª Semana depois da Epifania

SUMARIO

Por ocasião do Evangelho do dia, que nos mostra Jesus Cristo acalmando as tempestades, meditaremos:

1.° Quais são as tempestades morais que nos cercam durante a vida;

2.° O que devemos fazer no meio dessas tempestades.

– Tomaremos depois a resolução:

1.° De vivermos em oração e união com Deus que é o único que pode salvar-nos destas tempestades;

2.º De nos conservarmos no dúplice sentimento de desconfiança de nós mesmos e de confiança em Deus.

O nosso ramalhete espiritual será o brado dos Apóstolos:

“Senhor, salvai-nos, que perecemos” – Domine, salva nos, perimus (Mt 8, 25)

Meditação para o Dia

Adoremos Jesus Cristo dando preceito aos ventos e ao mar, e, pelo poder de Sua palavra, fazendo de repente suceder uma grande bonança à tempestade. Unamo-nos à admiração e aos louvores do povo que presenciou este milagre (1).

PRIMEIRO PONTO

Quais são as tempestades morais que nos cercam durante a vida?

Estas tempestades são de duas espécies: umas públicas, outras privadas ou individuais.

As tempestades públicas são as que assaltam a Igreja de uma a outra extremidade do universo: fora, são as seitas inimigas que se sublevam contra ela; dentro, são os maus cristãos, que a afligem ou a escandalizam. Do meio destas ondas furiosas, a Igreja chama-nos para que nos compadeçamos das suas dores, como bons filhos das dores de sua mãe, para que a defendamos com a palavra, a edifiquemos com o exemplo, a consolemos com a obediência e submissão.

A estas tempestades públicas acrescem as tempestades privadas ou individuais: tempestades contínuas, que assaltam as almas em todas as épocas da vida, de noite como de dia; tempestades terríveis, que despedaçam muitas vezes a barca da alma até não lhe deixar senão uma taboa para alcançar o porto, e lançam na condenação eterna tantos náufragos espirituais: tempestades tanto mais para temer, quanto mais invisíveis são: perecemos nelas sem o saber, e estamos já no fundo do mar, quando julgamos ainda navegar para o porto. Sossegamos, pensando que fazemos como os outros, que nada há a temer onde os outros não temem, e estribados nisto, vivemos tranquilos. Estas tempestades vem ora de fora, ora de dentro.

Tempestades de fora são os negócios que preocupam, os revezes que afligem, os maus exemplos que abalam, a contradição das línguas, a discordância de vontades e de gênios, as inquietações de toda a espécie.

Tempestades de dentro são as paixões, a soberba, a luxuria, a avareza, que perdem as almas sem que o suspeitem; os sentimentos que se revoltam, os desejos que atormentam, a imaginação que se desmanda, o espírito que se distrai com pensamentos inúteis, com receios quiméricos ou ilusórias esperanças.

Ó Senhor, se não nos livrais de tantas tempestades, estamos perdidos.

SEGUNDO PONTO

O que devemos fazer no meio das tempestades que nos cercam

Há aqui três meios de salvação: a oração, a confiança em Deus, e a desconfiança de nós mesmos.

1.º A oração: os Apóstolos do nosso Evangelho, vendo a barca batida pelas ondas, chegam-se a Jesus, acordam-O, e imploram o Seu socorro. Do mesmo modo, vendo a perseguição que fazem à Igreja, devemos orar, e orar tanto mais, quanto mais violenta for a perseguição. Nas nossas provações privadas, não devemos orar menos; é somente nisto que está a nossa salvação.

2.° A confiança em Deus: os Apóstolos lutam com confiança contra a tempestade ao mesmo tempo que oram. A seu exemplo, nunca devemos deixar-nos abater nem desanimar, mas sempre, cheios de confiança em Deus, perseverar na resistência; nunca desesperar nem dos males da Igreja, nem das nossas próprias misérias; porque Deus, que a protege a ela e a nós, é o Todo-poderoso; bastará que diga uma só palavra, e logo se seguirá uma grande bonança. Quando dirá Ele essa palavra? É segredo Seu; saibamos esperar, e seremos salvos. A quele que tem esperança no Senhor, será todo rodeado de Sua misericórdia (1). Por maiores que sejam os males da Igreja, por maiores que sejam os nossos próprios males, lancemo-nos com confiança nos Seus braços, e Ele nos salvará, bem como a santa Igreja.

3.° À confiança em Deus devemos juntar a desconfiança de nós mesmos. O presunçoso, que de nada se teme, que não vigia sobre si e não foge das ocasiões, perde-se infalivelmente. Deus quer ver-nos sempre humilhados debaixo da Sua poderosa mão; sempre desconfiados da nossa fraqueza e desse cimento de corrupção que está em nós; sempre precavidos contra as seduções do mundo e ocasiões perigosas. Aquele que nada teme, descuida-se, arrisca-se, e perece; ao contrário, aquele que teme, evita até as aparências do mal, recorre a Deus, em quem só põe a sua força, e salva-se.

Observamos nós os meios de salvação, que acabamos de meditar?

1.° Temos nós uma vida de oração e de recolhimento? Oramos no íntimo do coração pela Igreja? Pela nossa pátria? Pela Santa Sé? Por nós mesmos? Por todos os que nos são caros?

2.º Não desconfiamos do bom êxito das nossas orações e da promessa de Jesus Cristo:

“Pedi, e dar-se-vos-á?” (Mt 7, 7)

Vivemos nós na desconfiança de nós mesmos? Conservamo-nos precavidos? Não nos expomos às ocasiões perigosas?

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Homines mirati sunt, dicentes: Qualis est hic, quia venti et mare obediunt ei? (Mt 8, 27)

(2) Sperantem in Domino misericordi circum dabit (Sl 31, 10)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo I, p. 245-248)