Panegírico de São João Batista

Meditação para o dia 24 de junho, Panegírico de São João Batista

SUMARIO

Meditaremos sobre o zelo de São João Batista:

1.° Pela sua santificação;

2.° Pela santificação dos outros.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De não amarmos o mundo, e de lhe preferirmos a vida da família ou os encantos do lar doméstico;

2.° De procurarmos, como São João, progredir nas virtudes, principalmente na humildade e mortificação;

3.º De movermos ao bem todos os que nos cercam, com os nossos exemplos e conselhos.

O nosso ramilhete espiritual será o elogio que Nosso Senhor fez de São João:

“Era uma alampada que ardia e alumiava” – Erat lucerna ardens et lucens (Jo 5, 35)

Meditação para o Dia

Adoremos a Deus, mandando o anjo Gabriel anunciar a Zacarias o nascimento de João Batista, e, seis meses mais tarde, santificando-o no ventre de sua mãe, à voz da Santíssima Virgem. Muitos se alegram no seu nascimento (1); e perguntam a si mesmos:

“Quem julgais vós que virá a ser este Menino?” – Quis, putas, puer iste erit? (Lc 1, 66)

Demos graças a Nosso Senhor por ter, passados trinta anos, respondido a esta pergunta, proclamando João Batista o maior dos filhos dos homens, profeta e mais que profeta, um outro Elias, uma alampada que arde e alumia. Glorifiquemos ao mesmo tempo São João Batista como aquele de quem os profetas disseram:

“Eis aí envio eu o meu anjo adiante de mim para preparar o caminho. É a voz do que clama no deserto: Aparelhai o caminho do Senhor” (Mc 1, 2ss)

Honremo-lo como o anjo do grande conselho, o amigo do Esposo, o patriarca dos solitários, o sagrado vínculo da antiga e nova aliança, o intrépido pregador da verdade, o mártir da castidade, cujos direitos defendeu com perigo de sua vida; e roguemos-lhe, que nos conceda imitar as suas virtudes.

PRIMEIRO PONTO

Zelo de São João pela sua própria Santificação

João Batista, compreendendo a santidade, a que Deus o chamava, retirou-se para o deserto para ali se ocupar unicamente neste grande negócio, esquecer o mundo e tudo o que nele se passa, e empregar na sua santificação todos os seus cuidados e momentos. E que fazia ele nesse retiro, longe dos homens, só com Deus? Crescia, diz o Evangelho, e se fortificam do espírito (2). Crescia no conhecimento de Deus, de Suas perfeições infinitas, da Sua lei e dos Seus oráculos; crescia, no conhecimento próprio, que é a base de toda a virtude, que ensina ao homem a considerar-se nada e a considerar Deus tudo; crescia no conhecimento do mundo, meditando sobre o que ele era. Crescendo desta arte, fortificava-se, por um lado, do espirito de fé, de caridade e de zelo, de todas as virtudes que ele havia de ensinar com os seus exemplos; por outro lado, na resistência a todas as paixões, cuja fonte é o coração humano, a todos os vícios, cujo gérmen encerra, às seduções e perigos do mundo.

Deus não exige que todos, como São João, tenhamos uma vida retirada; mas exige que todos sejamos santos; que estejamos no mundo como se não existíssemos, isto é, sem seguirmos o seu espírito e as suas máximas; que nos separemos, quanto o permite o nosso estado, do seu trato, dos seus perigosos prazeres, de seus corruptores divertimentos, para vivermos só com Deus no meio da família, praticando os nossos deveres religiosos.

À vida retirada, São João junta a prática das mais belas virtudes.

Que recolhimento de espírito, que união com Deus! Ele ora sem cessar: a oração é a sua ocupação, é a sua vida.

Que mortificação! Deita-se sobre a terra nua, e tem um vestido de peles de camelo, e um cinto de couro em roda de seus rins; a sua comida eram gafanhotos e mel silvestre; não tem outra bebida senão a água das fontes: o que levou o Salvador a dizer, que ele parecia, que não comia nem bebia (2). É assim, que ele prega a todos que não se é salvo, se não se morre para si próprio, cada um segundo a sua condição, o seu temperamento, e os deveres do seu estado.

Que humildade! Admirados da sua grande santidade, os judeus enviam-lhe alguns de entre eles a perguntar-lhe se era o Messias; e ele, sem se ensoberbecer com o vantajoso conceito que dele formam, desprezando o elogio que lhe faziam, responde que não é mais do que um som que fere o ar; que não é digno de desatar a correia dos sapatos dAquele por quem o tomam; que convém que este cresça e ele diminua (3).

Que caridade! Ele é, diz Jesus Cristo, uma alampada que arde e alumia.

Que conformidade com a vontade de Deus! As turbas seguiam Jesus Cristo para ver os milagres que Ele obrava, e ouvir as palavras cheias de graça que saíam da Sua boca. São João priva-se deste gozo, que parecia tão santo: a vontade de Deus colocou-o num deserto; não o deixará, sem que lh’o ordene. Que admirável santidade, e quão longe estamos dela!

SEGUNDO PONTO

Zelo de São João pela Santificação dos Outros

São João prega todos os dias nas margens do Jordão, onde a sua grande virtude atrai os judeus. Repreende as desordens, batiza os pecadores, converte os soldados, e lhes ensina os seus deveres com uma sabedoria e discrição admiráveis. Ainda não é tudo: ele vai ter com Herodes até no meio dos seus guardas, lança-lhe em rosto as suas ligações incestuosas, e insta com ele para que ponha termo a este horrível escândalo (4); e todavia, coisa pasmosa! Tempera este forte e generoso zelo com tanta prudência e brandura, que obriga a fazer muitas coisas boas, até este mau príncipe (5). Tanto zelo merecia a glória do martírio. O céu concedeu-lhe esta graça: ele morreu vítima e mártir da castidade.

Ai! Se tivéssemos tanto zelo pela salvação dos nossos irmãos, que bem não faríamos com os nossos exemplos, os nossos conselhos, as nossas suaves insinuações, e todas as traças que sabe achar quem ama!

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Multi in nativitate ejus gaudebunt (Lc 1, 14)

(2) Puer autem crescebat et confortabatur spiritu (Lc 1, 80)

(3) Venit Joannes Baptista neque manducans… neque… bibens… (Lc 7, 33)

(4) Illum oportet crescere, me autem minui (Jo 3, 30)

(5) Non licet tibi babere uxorem fratris tui (Mc 6, 18)

(6) Herodes… audito eo, multa faciebat (Mc 6, 20)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo VI, p. 105-109)