Meditação para a Quinta-feira da 3ª Semana depois da Páscoa. Excelência da Vida Interior

Meditação para a Quinta-feira da 3ª Semana depois da Páscoa

SUMARIO

Meditaremos sobre a excelência da vida interior, e para a compreender:

1.° A compararemos com a vida exterior, que é a vida mundana;

2.º Veremos que ela eleva o cristão à altura da vida divina em Jesus Cristo.

— Tomaremos depois a resolução:

1.º De evitarmos tudo o que nos distrai ou atrai, como certas companhias ou certas conversações;

2.º De nos penetrarmos do espírito de Jesus Cristo, perguntando a nós mesmos muitas vezes:

É assim que falaria ou obraria Jesus Cristo?

É este o espírito ou a intenção que dirigiria as Suas palavras ou os Seus atos?

O nosso ramalhete espiritual será a palavra de São João:

“Deus enviou seu Filho unigênito ao mundo para que nós vivamos por ele” – Filium suum unigenitum misit Deus in mundum, ut vivamus per ilium (1Jo 4, 9)

Meditação para o Dia

Prostremo-nos pelo pensamento diante de Jesus Cristo, adoremo-lO como o autor, o fundador e o modelo da vida interior, dessa vida que começa na terra pela graça, continua e se completa no céu pela glória. Façamos a Seus pés o sacrifício da nossa distração, esse grande inimigo da vida de Jesus Cristo em nós; e supliquemos-Lhe que dela nos corrija a fim de que só vivamos por Ele.

PRIMEIRO PONTO

Comparação da Vida Interior com a Vida toda Exterior do Mundo

Que é a Vida Exterior? É a vida do que São Paulo chama o homem velho, o homem de pecado, o homem animal, o velho Adão, todo cheio do espírito e das inclinações desse desgraçado pai. Escravo como ele dos seus sentidos, o homem exterior só pensa nas coisas deste mundo e não nas do céu. As coisas sensíveis atraem-o, distraem-o tanto, que lhe custa a entrar dentro em si para compreender o que diz respeito a Deus e à sua salvação; está todo entregue às coisas desprezíveis da terra, e quase nunca às coisas sublimes do céu, todo entregue ao tempo e ao que se passa, quase nunca à eternidade e ao que persiste sempre.

Sucede muito diversamente com o homem, que se dá à Vida Interior. Por esta bem-aventurada vida, o cristão torna-se o homem do céu, porque os seus pensamentos, as suas afeições, os seus desejos, em vez de se rojarem pela terra, elevam-se até aos céus. Por ela torna-se o homem espiritual, porque, deixando abaixo de si, como indignas dele, as inclinações da natureza corrompida, calca aos pés as suas paixões; e se elas se revoltam, esmaga-as; só se afeiçoa a Deus, só quer Deus, e põe toda a sua felicidade em pensar em Deus.

Que diferença entre estas duas vidas! A primeira é toda terrestre e animal; não é senão amor-próprio, orgulho, vaidade, impaciência, preguiça, sensualidade, e depois disto a morte! (1). A segunda é celestial e angélica; retira- nos dos objetos sensíveis, chama-nos para dentro de nós a fim de aí nos ocuparmos de Deus, enche o nosso espírito das luzes da fé, o nosso coração do fervor da oração. É a vida dos predestinados e dos filhos do Deus; tem sido a vida de todos os santos desde o nascimento da Igreja, e é ainda a vida das almas escolhidas, que honram a religião.

Aspiremos a uma vida tão bela, e procuremos formá-la em nós.

SEGUNDO PONTO

A Vida Interior eleva o cristão à altura da vida divina em Jesus Cristo

São Paulo descreve-nos admiravelmente a vida divina, que realiza em nós a prática da vida interior.

“Não sou eu já o que vivo, diz ele, mas Jesus Cristo é que vive em mim” – Vivo jam non ego, vivits vero in me Christus (Gl 2, 20)

Não sou eu já, isto é, não é já o filho de Adão, o velho homem de vida toda exterior, de inclinações baixas e terrestres; mas Jesus Cristo é que vive em mim; os Seus pensamentos são os meus pensamentos, o Seu coração é o meu coração, neste sentido que só amo o que Ele ama, só quero o que Ele quer. Jesus Cristo é a minha vida (2), e deve ser a vossa, diz ele aos fiéis (3), isto significa que assim como a alma é a vida do corpo, cujos sentidos move, os olhos para verem, a língua para falar, as mãos para obrarem, os pés para andarem, assim também Jesus Cristo, nossa vida, deve fazer em nós o que Lhe aprouver, sem achar resistência da nossa parte; deve regular os movimentos, do nosso corpo, contendo-o na modéstia e no decoro, governar a nossa língua, para que nada diga que seja mau, as nossas mãos para que se ocupem nas boas obras, o nosso espírito para que tenha santos pensamentos, o nosso coração para que não tenha outros sentimentos senão seus (4). Nós fomos enxertados com Jesus (5), diz o mesmo Apóstolo. Ora o enxerto identifica-se com a árvore, em que foi feito; vive por ela; alimenta-o a mesma selva. É assim, que devemos viver por Jesus Cristo; não ter com Ele senão um princípio comum nossos atos, e da nossa vontade, as mesmas vistas, as mesmas intenções, os mesmos sentimentos em tudo e por tudo. Finalmente, continua São Paulo, Jesus Cristo é a nossa cabeça e nós somos os seus membros (6). Ora a cabeça e os membros devem viver a mesma vida; e assim como da cabeça a vida se derrama em todos os membros inferiores, também a vida divina deve derramar-se de Jesus em nós; assim como não formamos com Ele senão um mesmo corpo, não devemos formar com Ele senão um mesmo espírito e um mesmo coração. Um mesmo corpo e dois espíritos diferentes seriam uma monstruosidade. Devemos, pois, pensar em todas as coisas como Jesus Cristo, amar como Ele amava, nada mais, nada menos, inspirarmo-nos em tudo dos Seus sentimentos, animar todos os nossos atos das mesmas intenções, e conservar o nosso interior como Ele conservava o Seu, sempre recolhido em Deus. Tal é a vida cristã que, segundo São João, foi o fim da Encarnação do Verbo (7), e todo aquele, que não vive esta vida, não é cristão (9).

Que bela é esta vida divina, e como é digna da nossa ambição, dos nossos esforços e das nossas orações!

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Si secundum carnem vixeritis, moriemini (Rm 8, 13)

(2) Mihi vivere Christus est (Fl 1, 21)

(3) Christus… vita vestra (Col 3, 4)

(4) Hoc sentite in vobis quod et in Christo Jesus (Fl 2, 5)

(5) Complantati facti sumus (Rm 6, 5)

(6) Christus caput est Ecclesiae… membra sumus corpus ejus (Ef 5, 23)

(7) Deus Filium suum unigenitum misit in mundum, ut vivamos per eum (1 Jo 4, 9)

(8) Si qui spiritum Christi non habet, hic non est ejus (Rm 8, 9)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo III, p. 32-35)