3º Domingo do Advento. Estudar o Verbo Encarnado

Meditação para o 3º Domingo do Advento

Evangelho segundo São João 1, 19

Naquele tempo enviaram os judeus de Jerusalém sacerdotes e levitas a João para perguntar-lhe: Quem és tu? E ele confessou e não negou, e confessou que ele não era Cristo. E eles lhe perguntaram: Pois então quem és? És tu Elias? E ele respondeu: Não sou. És um profeta? E respondeu: Não. Disseram-lhe então eles: Quem és pois? Para que possamos dar resposta aos que nos enviaram? Que dizes dê ti mesmo? Eu sou, disse ele, a voz do que clama no deserto. Endireitai o caminho do Senhor, como disse o profeta Isaías. Ora os que haviam sido mandados eram da seita dos fariseus. E lhe fizeram ainda esta pergunta: Porque, pois, batizas tu, se não és nem Cristo, nem Elias, nem profeta? João respondeu, dizendo-lhes: Eu batizo em água, mas no meio de vós estai quem vós não conheceis. Esse é o que há de vir depois de mim, que antes de mim foi feito, e a quem eu não sou digno de desatar as correias dos sapatos. Estas coisas se passaram em Betânia da banda de além do Jordão, onde João estava batizando.

Sumário

Depois de ter considerado a excelência da Encarnação nos seus efeitos, que são a glória de Deus, a glória do homem, a consolação das nossas aflições e o remédio para os nossos males, meditaremos agora os nossos deveres para com este mistério. Deter-nos-emos hoje com o primeiro destes deveres, que é estudá-lO e conhecê-lO a fundo; e veremos:

1.° Que não há estudo mais belo e mais digno do homem;

2.º Nenhum há mais útil.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De refletir muitas vezes acerca deste mistério, principalmente quando ouvirmos o toque do Angelus;

2.° De repetir muitas vezes com amor a oração de Santo Agostinho:

Domine, noverim te, ut amem te – Senhor, conheça-Vos eu para que Vos ame

E estas palavras nos servirão de ramalhete espiritual.

Meditação para o Dia

Unamo-nos ao Apóstolo São Paulo ajoelhado diante de Deus Pai, para solicitar a favor dos fiéis de Éfeso um conhecimento cada vez mais profundo de Jesus Cristo e do Seu amor, conhecimento que sobrepuja todo o entendimento (1). Anelemos por possuir este divino conhecimento, e chamemo-lo para a nossa alma com todo o ardor dos nossos votos. Senhor, conheça-vos eu, para que vos ame – Domine, noverim te, ut amem te.

PRIMEIRO PONTO

Não há estudo mais belo e mais digno do homem do que o estudo do mistério da Encarnação

Com efeito encontram-se neste mistério unidas todas as perfeições de Deus e todas as perfeições da criatura, pois que consubstancial a seu Pai, o Verbo Encarnado é como Ele infinitamente perfeito; e consubstanciai a nós, possui todas as perfeições com que Deus pode enriquecer uma criatura. A mesma Santíssima Trindade nisso põe toda a Sua complacência (2); nisso acha para Ele uma glória infinita; o céu nisso acha a Sua alegria, o Seu tesouro, o objeto dos Seus mais belos cânticos, e exclama: Glória a Deus no mais alto dos céus! (3). Haverá coisa mais digna dos estudos da inteligência humana? Nós gostamos de conhecer os homens ilustres, e nos envergonhamos de ignorar a sua origem, a sua história, as suas proezas; e estudamos tão pouco o Verbo Encarnado, a glória e a honra da nossa natureza, que ele une a si em unidade de pessoa o nosso redentor e salvador, o nosso rei e senhor, e ao mesmo tempo o nosso irmão, o nosso coerdeiro e comparte do reino dos céus! Conhecemo-lO tão mal! E merecemos tanto a exprobação, que São João fazia aos judeus: Ele está no meio de vós, e não o conheceis (4). Se Moisés dizia a si mesmo, falando da sarça ardente: Irei e verei esta grande maravilha (5), como não diremos nós conosco: Quero estudar e conhecer cada vez mais a maravilha superior a todas as maravilhas, a maravilha de Deus imutável por essência, começando a ser o que não era; a maravilha do Deus permanecendo Deus sem nenhum detrimento de Sua majestade e glória, posto que fazendo-Se homem e apropriando-Se as Suas fraquezas e misérias; a maravilha do supremo culto reservado até então a Deus só, e agora tributado a um homem Deus, não somente pelos homens, mas também pelos mesmos anjos, que nele adoram a fraqueza onipotente, o Eterno nascido no tempo, o infinito limitado a um pequeno espaço, o autor do mundo descido à classe das Suas obras e Ele mesmo tornado uma tão pequena parte do mundo. Quero contemplar e estudar o Criador na Sua criatura, o céu na terra, a suprema glória no opróbrio, a infinita riqueza na pobreza, a imortalidade na morte, e ainda melhor do que tudo isto, a vida divina na humanidade, as perfeições do céu tornadas visíveis na terra, a mais profunda humildade na mais sublime elevação, a abnegação na divindade, o sacrifício incomparável naquele a quem é devido todo o sacrifício.

Como é que não imitamos São Paulo, que fazia de Jesus Cristo o seu contínuo estudo e a sua única ciência? Não conhecer coisa alguma senão Jesus Cristo, era toda a sua ambição (5); e em comparação desta divina ciência tudo o mais lhe parecia antes perda do que lucro (6). É deste modo que estimamos o estudo e o conhecimento de Jesus Cristo?

SEGUNDO PONTO

Não há estudo mais útil do que o estudo do mistério da Encarnação

Deus deu-nos todas as coisas com Jesus Cristo (7); este mistério é um tesouro inesgotável de riquezas e de bens espirituais. Mas um tesouro só é útil enquanto se não esgota; e não se esgota o mistério da Encarnação senão estudando-o. Neste estudo, aprende-se a amar a Deus Pai, que nos deu o seu Filho, a Deus Filho, que se entregou a nós, a Deus Espírito Santo, que obrou este mistério no seio de Maria, e à própria Maria, que para isso tão divinamente cooperou. Quanto mais se estuda este grande assunto, tanto mais o coração se abrasa em amor; e já se não quer viver senão de amor pelo Deus que tanto nos amou. Estudando este mistério, aprendemos a ajuizar sensatamente de tudo, porque conhecemos os juízos e as apreciações de Jesus Cristo, regras infalíveis da verdade; aprendemos a fazer santamente todas as coisas, porque pomos diante dos olhos os exemplos do Homem-Deus, adorável modelo de tudo o que é bem. Se queremos adorar a Deus, adoramo-lO perfeitissimamente unindo o nosso culto ao do Verbo Encarnado, que o diviniza, apresentando-o a seu Pai, coberto de toda a dignidade da Sua pessoa. Se queremos solicitar graças, depositamos a nossa oração no coração do Verbo Encarnado, que lhe comunica a onipotência da Sua intervenção sobre o coração de Deus. Finalmente, estudando este mistério, a virtude nele aparece tão bela, tão encantadora, que o coração se lhe afeiçoa com delícias e acha a sua prática tão suave como fácil. Porque dizemos conosco: O meu Deus nada me pede que não haja feito primeiro; poderia eu queixar-me, e achar que pede demasiado? Tais são as precisas vantagens que oferece o estudo do mistério da Encarnação. Temo-nos aproveitado dele até agora? estudamo-lo com amor no Evangelho, nos escritos de São Paulo e dos Apóstolos, nas obras piedosas, que descrevem a sua beleza e majestade?

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Flecto genua mea ad Patrem…, ut det vobis… seire supereminemtem scientiae caritatem Christi, ut impleamini in omnem plenitudinem Dei (Ef 3, 14. 16. 19)

(2) In te complacui (Mc 1, 11)

(3) Gloria in altissimis Deo (Lc 2, 14)

(4) Medius autem vestrum stetit, quem vos nescitis (Jo 1, 26)

(5) Vadam, et videbo visionem hanc magnam (Ex 3, 3)

(6) Non judicavi me scire aliquid… nisi Jesum Christum (1Cor 2, 2)

(7) Existimo omnia detrimentum esse propter eminem tem scientiam Jesu Christi (Fl 3, 8)

(8) Cum illo omnia nobis donavit (Rm 8, 32)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo I, p. 73-77)