Meditação para a Décima Oitava Quarta-feira depois de Pentecostes. Do amor de Complacência

Meditação para a Décima Oitava Quarta-feira depois de Pentecostes

SUMARIO

Meditaremos sobre o amor de complacência ou de alegria em Deus. Consideraremos:

1.° Em que consiste esta alegria;

2.° As grandes vantagens que ela obtém à alma.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De meditarmos muitas vezes sobre as infinitas perfeições de Deus, sobre a sua imensidade, a sua bondade, a sua onipotência, e de pormos toda a nossa felicidade em nos perdermos nestes sagrados abismos, admirando quanto é grande e superior a todo o ser;

2.° De estarmos sempre contentes com Deus e com o governo da sua Providência para conosco, seja o que for o que nos acontecer em bem ou em mal.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra de Santo Agostinho:

“Deus está contente com quem está contente com Ele” – Ille placet Deo cui placet Deus (Santo Agostinho, in Ps. 32)

Meditação para o Dia

Adoremos Nosso Senhor contemplando com suma alegria as imensas e incompreensíveis perfeições de Deus, seu Eterno Pai: o seu coração imerge-se com delícias nesses sagrados abismos; neles põe toda a sua complacência e alegria. Felicitemo-nos pela alegria que Ele sente, e pela glória que dá a seu eterno Pai.

PRIMEIRO PONTO

Em que consiste o Amor de Complacência ou a Alegria em Deus?

Quando temos um ardente amor a uma pessoa, sentimos grande alegria em pensar nas suas belas qualidades: falamos delas aos outros e a nós mesmo; e tudo o que a exalta, tudo o que a engrandece nos causa prazer; gozamo-nos da sua felicidade. Ora, se entre nós as belas qualidades da pessoa amada são a alegria da que ama, que alegria não deve sentir aquele que ama a Deus, vendo-O tão formoso, tão perfeito, tão santo, tão grande e ao mesmo tempo tão bom!

«Quão formoso Sois, meu amado exclama São Francisco de Sales; bendito seja para sempre o meu Deus por ser tão bom! Quer eu viva ou morra, folgo de saber que o meu Deus possui todos os bens, e que a sua bondade é infinita»

Era esta alegria que experimentava a Santíssima Virgem, quando dizia no seu cântico:

«A minha alma engrandece ao Senhor, e o meu coração se alegrou por extremo em Deus meu Salvador» (Lc 1, 46)

Era esta alegria que cantava antes dela o rei-profeta quando dizia:

«O meu coração e a minha carne saltam de júbilo pelo amor que têm ao Deus vivo» – Cor meum et caro mea exultaverunt in Deum vivum (Sl 83, 3)

Nesta santa embriaguez, a alma encantada das belezas inefáveis de seu Deus, alegra-se de que possua, em sua essência, a plenitude de todo o bem, de que ache em si a sua própria felicidade; alegra-se de que O amem tantos santos no céu e na terra; de que a Igreja cante por toda a parte os seus louvores; de que seu Filho o honre quanto Ele merece ser honrado; e esta alegria é para ela como que seu paraíso antecipado.

Exercitamo-nos nós muitas vezes neste amor de complacência em Deus, tão necessário às almas santas?

SEGUNDO PONTO

Vantagens que obtém o Amor de Complacência ou a Alegria em Deus

1.° Nada há mais próprio para desapegar da terra a alma e para a encher dos santos desejos do céu. Enlevada nas belezas de Deus, nada acha já sólido na terra, nada digno de si. Tudo o que não é Déus lhe parece vaidade, e exclama com os santos:

“Deus só basta; tudo o que não é Deus, nenhum valor tem para mim”

Livre de todo o apego, eleva-se ao céu  com santos desejos de ver às claras o Deus que ela ama, de louvá-lO infinitamente, de amá-lO em um eterno êxtase.

2.° A alma, assim cativada das belezas de Deus, põe a sua suprema felicidade em se submeter a todos os desígnios desse Pai infinitamente bom, cujo cumprimento deseja mil vezes mais que a sua própria satisfação. Quer tudo o que Deus quer, deseja tudo o que Ele deseja, ama tudo o que Ele ama, aborrece tudo o que Ele aborrece, e nada mais quer, nem deseja, nem ama, nem aborrece. Na adversidade como na prosperidade, na tristeza como na alegria, na doença como na saúde, na pobreza como na abundância, preza a vontade divina; e contente com Deus, faça-lhe Ele o que lhe fizer, diz sempre, com uma deliciosa singeleza:

“Assim é, meu Deus, porque assim foi do vosso agrado” – Ita Pater, quoniam sic fuit placitum ante te (Mt 11, 26)

3.° Desapegada assim da terra, e unida à vontade divina, faz rápidos progressos nas virtudes, principalmente no santo amor, porque sente que Deus o merece, e que à medida que O ama mais, O acha cada vez mais amável; e adiantando-se deste modo, nada lhe parece penoso, porque não há pena, quando se ama, ou se há alguma pena, ama-se a mesma pena (1).

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Ubi amatur, non laboratur; aut si laboratur, labor amatur

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo V, p. 51-53)